O MAR de cima a baixo

por Sérgio Bruno Martins

MAR

I.

Há que ser dito: o Museu de Arte do Rio (MAR) é um recém-nascido deveras contraditório. Não é por menos que duas posturas diametralmente opostas venham polarizando sua recepção. Por um lado, opositores ferrenhos caracterizam o museu como uma mera locomotiva da especulação imobiliária, da qual a arte e os artistas ali expostos seriam nada mais que engrenagens. Por outro, uma parcela significativa do meio de arte só vê em sua inauguração motivos para brindar (não que eu tenha objeções à afirmação ‘é importante que tenhamos um museu’; o problema é quando isso se transforma em ‘o importante é que temos um museu’). Em ambos os casos, o erro é o mesmo: determinar o valor do todo (a significância do MAR para a cidade) a partir de apenas uma de suas dimensões. Mais difícil, porém necessário, é colocar o museu numa perspectiva crítica capaz de reconhecer suas incongruências. Há pelo menos dois aspectos que saltam aos olhos aqui. Um diz respeito à conjuntura complexa que marca seu aparecimento, ou seja, tanto ao seu lugar institucional em meio à política cultural oficial do Rio de Janeiro quanto ao seu papel de emblema do projeto Porto Maravilha. Já o outro diz respeito mais estritamente à sua atuação enquanto museu de arte e à lacuna histórica que ele vem suprir: a de uma instituição pública capaz de investir na formação de acervo. É claro que há pontos de contato relevantes entre essas facetas do museu, mas elas não se sobrepõem por completo.

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Museu, lugar de disputa

foto Marcos Vilas Boas

por Filipe Ceppas (FE/PPGF-UFRJ)

Primeiro, o discurso presidencial. Pela manhã, inauguração de uma fábrica de estruturas metálicas em Itaguaí, voltada para a construção do nosso primeiro submarino nuclear! “O Brasil é um país pacífico”, diz a presidenta Dilma. À noite, na inauguração do MAR, uma microfonia denuncia a impotência da equipe técnica para abafar o ruído das manifestações. E a presidenta tenta amenizar o protesto “aprovando-o”, relembrando os tempos da ditadura: “fiquei ali, na Polícia Federal. Ali era a Polícia Federal, tinha celas… A minha cela era uma cela muito interessante, metade dela era cinza e tinha muita barata. (…) Eu estou contando isso porque eu acho que esse país mudou, não só pelo Museu de Arte do Rio, mas mudou porque hoje… um presidente da república convive perfeitamente com o som das ruas, com as manifestações, com o processo democrático, o que na minha época de juventude não era o usual.”[1] O público presente aplaude, entusiasticamente. Parece uma catarse, o que é compreensível, uma vez que muitos convidados foram hostilizados por manifestantes ao entrarem no museu.

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