Sobre Museus e Monstros

por Barbara Szaniecki

Anos atrás, em viagem à Espanha, percorri o Museu do Prado inteiro arrastando meu caçula para ver El sueño de la razon produce monstruos(1797-1799) de Francisco de Goya. Não podíamos perder aquela oportunidade: monstros haviam me acompanhado ao longo da escrita de tese – Leviatãs, Golens, Cyborgs, Calibãs, etc – mas não eram monstros produzidos pelo sono da razão e sim pelo acordar ou abertura da razão a uma multiplicidade de formas de vida. Esses monstros da ambivalência, do excesso, da desmedida e da resistência eu os havia encontrado na leitura de Antonio Negri e dela estava impregnada quando me deparei com um cartaz-faixa que, pendurado no alto de uma imensa ocupação em pleno centro da cidade de São Paulo, gritava “Zumbi somos nós!”[i]. Impactada pela sublime visão da Prestes Maia, decidi pesquisar sua potente produção social, cultural e artística, e a ela dedicar um texto: Outros monstros possíveis[ii]. Anos mais tarde, voltei a me deparar com o monstro, desta vez na cidade do Rio de Janeiro em plena “ressignificação” criativa e “revitalização” urbana. Nesse processo, a museificação (ou simplesmente institucionalização) da cultura e da arte carioca organiza em termos econômicos a primeira e legitima em termos políticos a segunda. É no seio desse projeto que remove favelas, gentrifica bairros populares e elimina qualquer possibilidade de alteridade e heterogeneidade na cidade, que foi inaugurado o MAR – Museu de Arte do Rio[iii] em 1o de março desse ano de 2013. E, com a inauguração do MAR, o vernissage da exposição O abrigo e o terreno: arte e sociedade no Brasil I com a proposta de abrir o debate sobre os antagonismos urbanos e com a presença dos artistas que haviam atuado na Ocupação Prestes Maia em São Paulo entre muitos outros. O conflito estourou e, diante da museificação da arte e da cultura, a cidade monstruou novamente…

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Mar ou Abismo?

por Eduardo Verderame

A abertura do Museu de Arte do Rio foi um evento divisor de águas. A mostra que juntou quatro curadorias no mesmo espaço no recém inaugurado museu na Praça Mauá foi inaugurado sob forte protesto. Mesmo antes da abertura a tensão entre ativistas cariocas e os artistas que encararam montar um trabalho que remetia a atuação de artistas dentro da Ocupação Prestes Maia era escancarada.

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BRASIL MATO IDADE

por Ernesto Neto

enquanto os homens­

                               Nas calçadas

se debatem batem

             nuvens circulam    as margens do cotidiano

 

enquanto estado moral policial

censura o nosso      diário caminhar

estado de noticia emoldura          limita             encurrala

nosso   eterno   livre pensamento

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Divagações sem pretensões – 16 pontos para pensar a arte, a mendicância e a ruidocracia.

por Fabiane M. Borges

Arquivamento, institucionalização da arte, remoções e despejos, imponência dos prédios de turismo, Copa do Mundo, tudo isso visto-falado no boteco em frente ao MAR (Museu de Arte do Rio de Janeiro), enquanto um mendigo, desses bem machucados e tristes, dava um discurso de ser uma pessoa honesta e de bem,  que não roubava e nos mostrava um buraco feito de facada que levou no peito enquanto dormia. Pedia dinheiro, remédio, comida e atenção. Você está representado lá dentro do MUSEU, eu dizia a ele, nós traduzimos você para a História da Arte naquele museu branco e gigante, tá vendo? Lá é lugar de gente rica, ele respondeu.

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Do constrangimento como meio de desarticulação social

por Lucas Bambozzi, Colaboração: Almir Almas e Rogério Borovik [grupo COBAIA]

Caso1:

Então o/a artista se vê finalmente dentro do sistema. Ele/ela tem consciência do feito, de que esse degrau na ascensão de sua reputação entre seus pares, tem um certo preço. Sabendo o que isso representa, ele/ela talvez não tenha a noção, ainda, de que deu um passo em direção a um ambiente ou patamar onde as estabilidades são mais relativas e frágeis. Ele/ela lamenta, pois justo “na sua vez”, há barulho, vozes e vaias lá fora… Há uma falta de consenso, aparentemente inexplicável para o caso. Nesse momento, algo então age sobre esse estado de euforia, que faz com que, de repente, atue como um puxar de rédeas, como um freio brusco em suas pretensões. Esse algo talvez seja constrangimento. Ele/ela percebe que aquilo não tem o sabor que esperava ter. É amargo, pode durar pouco. E seus pares já não estão por perto. Pode não mais conseguir ‘voltar pra casa’. Ouve vaias, agora internas talvez, percebe o cochichar perverso de uma turma da qual não pertence, e no meio – talvez apenas a entrada – desse suposto salão de glórias, perde o caminhar, e permanece estático.

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O abrigo X o terreno uma sala de projeção desligada com dois colchões no chão

por Graziela Kunsch

trechos de emails enviados em resposta à amiga Cristina Ribas:

“(…) espero responder com o próprio trabalho. Participo da exposição com a Usina, com um trabalho chamado Sem título (Imagem de cidade vendida pelo mercado imobiliário X Imagem de cidade real ou Nova Luz mas poderia ser Porto Maravilha), que considero bem apropriado (crítico) ao contexto do MAR e que irá incluir debates públicos (dentro e fora do museu) sobre Porto Maravilha, Nova Luz, Aquário de Fortaleza e Novo Recife, entre outras operações urbanas similares.

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