Pósporno

por Fabiane Borges

É um movimento sexual/social que combate, convoca e comove ao mesmo tempo. Como tudo que existe tem mundo, não seria diferente com o pósporno, tem mundo. Seus circuitos, seus sinais, seus entraves, e há muitos entraves, desde perseguição na internet até prisão, problemas com justiça. Mas o movimento se movimenta, motivado por vibradores, experiências exóticas, tóxicas, as vezes bem comuns, românticas. É que o movimento tolhe, mas também liberta. O pósporno libera espaço nos corpos e nos modos de desejar. É como uma confraria, uma pequena horda missionária destinada à experimentação e a narrativa, mas com potente carga virótica. O pósporno tem muitos antídotos às políticas dos desejos sexuais instituídas. Suas fórmulas vêm da invenção constante. É um movimento pragmático. Vai do ecosexo ao tecnosexo, facilitando a locomoção do olhar. Pra onde teus olhos te levam? É nessa estrutura que o pósporno mexe, ajuda teus olhos a desprogramar teu programa sexual coorporativo.

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Arte, Corpo, Transformer

por Ricardo Ramalho

Quando encaramos o tema “corpo” na arte uma imagem forte que surge é a de artistas românticos que utilizam o sofrimento da carne, ou a exposição do corpo nú, ou semi-nu, como demonstração da fragilidade do ser humano, da dor-da-vida, o ser  enquanto animal, ou a noção do belo segundo a tradição grega. Quando veste-se o corpo, este como que desaparece, e a questão passa a ser outra, a condição humana, o ser social, o ser adestrado, a norma. Um grupo de corpos vestidos nos remete à idéia de tropa, corpo coletivo, criatura institucional, perda da individualidade. Um grupo de corpos nús remete ao bando, a cultural tribal, o condicionamento à natureza.

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Corpos D’Água

por Floriana Breyer

“Aos corpos d’água, aos cursos outros. `A todas as várzeas e a foz que lança ao mar. A voz que não cala, e `as ribanceiras, ribeiras, ribeirões em nós. `A todas as fluviárias que poderiam ter sido e não são. Aos córregos, grotões, porões que jazem abaixo, sós. `As jazidas escondidas, lençois frenéticos, vazantes potentes, agentes, nós.”

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Corpo Rascunho

por Milena Durante

Estranho falar de corpo. Corpo. Mesmo a boca que se faz pra falar corpo é uma boca de corpo, uma boca que pressupõe suor, pele, cheiro, pintas, verrugas, textura, uma textura de pele de frango, cheia daquelas bolinhas, os poros saltados, os lugares de onde brotam as penas, cada uma peninha saindo de um lugar do corpo, um pelo. Corpo vem com tudo, com saliva, saliva não, corpo vem com cuspe, com guspe. Vem exatamente com aquilo a que se habitua chamar nojento, aquilo a que se habitua querer tirar, se habitua querer fingir que não há como se o corpo tivesse que ser alguma coisa. E vem existindo no meio de tudo, nasce já em relação ao que está em volta: outros corpos, a cidade, a impossibilidade de se caber na pele; não existe sozinho e nem é aquilo em que a cabeça não está.

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