A Vingança de Montezuma

 

Um dos motivos para a decadência da arte assim dita realista no século XIX foi a ascenção da fotografia. Esse processo histórico é amplamente documentado seja por teóricos e mesmo por uma pesquisa empírica do mais humilde interessado. Mesmo as enciclopédias daquele fim de século tiveram que escolher entre as imagens em clichês, que já utilizavam elementos fotográficos, e as fotografias em si, que até então não possuíam a qualidade necessária para a impressão em papel. O custo da reprodução fotográfica quando utilizado em larga escala, obviamente era muito menor. A resposta da vanguarda da Arte foi investir no universo subjetivo que deu origem a várias escolas modernas iniciando-se pelo Impressionismo, apoiando-se em outros avanços da filosofia contemporânea como a psicologia. Desta forma houve na percepção daquele tempo um duplo afastamento da realidade, onde o “real” fotográfico e o subjetivismo pictórico se apresentaram como soluções para o problema da representação da realidade.

Logicamente este processo de ruptura entre realidade e representação já havia acontecido em séculos anteriores, mas fica como exemplo do que talvez seja novamente um grande desafio para os artistas do século XXI: como representar o espírito de nosso tempo? Para nosso caso específico, o que é relevante dizer sobre o dramático momento atual que mídias convencionais não consigam abraçar? As computações gráficas geradas por programas que emulam a realidade microscópicas respondem a realidades científicas que realmente impressionam aos leigos, mas assim como as visualizações das galáxias e formações estelares, não passam de subjetivações vazias; as fotos reais dos vírus e das galaxias são igualmente desapontadoras quando vistas sem seus respectivos enhancements.

Tampouco é claro que esta deva ser a matéria de onde a arte despontará no momento em que lutamos como espécie contra uma ameaça biológica. Nossa arte trata da pura gratuidade do confinamento, sendo a exploração do espaço exterior – numa espécie de nova idade média – um privilégio pouco comum para um grande número de pessoas. Não que não fosse há poucos meses atrás, mas o endurecimento e a velocidade da mudança certamente pegou a todos de surpresa.

O silêncio das cidades, o repentino alívio dos animais silvestres, a limpeza da atmosfera e dos oceanos, ainda que a nossa revelia, sem dúvida é o ponto mais positivo de todo este momento. A janela que se abre é igualmente significativa e aponta para uma alteração brusca nos modos de produção e consumo que deveremos sentir nos próximos anos. Mas a que preço? Talvez ainda que os estudos sociais se tornem de inusitada importância, o elemento humano nunca mais deixará de ser visto como uma ameaça a ele mesmo e que ainda viveremos o fim da era das liberdades individuais. Politicamente já vivemos uma época de recrudescimento inimaginável, que transformou a vida alheia em um campo de fértil para crueldade em nome da autodefesa.

Mas seria o valor dos dramas individuais uma narrativa válida para este momento? Algo que pudesse se sobrepôr ao frio cientificismo das computações 3D, ou simulações matemáticas e algorítmicas cujas especulações nos apresentam a face provável de um agente invisível? Ainda, já não fomos expostos a dramas igualmente comoventes – e cruamente realistas – há poucos anos quando assistimos a saga de milhares de refugiados sírios, mexicanos e centro-americanos, venezuelanos, e assim por diante? Qual o Butô será gerado e qual alma será tocada por uma repetição de formulação? Igualmente ignorar qualquer envolvimento com a ação no mundo seria um papel digno neste momento, mas o impasse se impõe.

Porventura não estamos tão vulneráveis ao inimigo biológico como estiveram as nações originárias das Américas quando tiveram de enfrentar as “armas, germes e aço” (como diria Jared Diamond)? Possivelmente sim, e por mais que neste caso temos 500 anos de conhecimento de vantagem sobre aqueles, a riqueza e o volume do conhecimento roubado e destruído nunca poderia ser restituído. Ali também se impôs uma dupla realidade, que incluiu a profecia da chegada de deuses loiros em suas máquinas voadoras, que paralisou a resposta do império Azteca, com a letalidade das doenças que chegaram com aqueles. A vingança de Montezuma, de Atahualpa, e de todos povos originários ainda não seria completa ainda que aqueles brancos espantosos fossem todos exterminados. Sua carne não alimentaria sua fome por mais de um par de dias, como os mataria também.

Certamente estamos vivenciando o fim de uma era, mas não podemos vislumbrar onde se inicia a nova. Por quanto tempo conseguiremos viver enclausurados enquanto algum tipo de inteligência artificial cuida do nosso entorno distópico? De onde virá a chave que acionará estas mudanças? Talvez a era do “real” esteja caindo por terra e novos paradigmas serão impostos pelas circunstâncias. Podemos supor que as tecnologias que desenvolvemos irão apontar para a saída desta crise, e hoje mais do que nunca temos investido em ferramentas para um novo vocabulário, que poderá suplantar a necessidade de ação na própria fisicalidade, exposta a um sério risco de contaminação.

Não são tempos fáceis e irão deixar marcas fortes na subjetividade de uma geração inteira. Mas são desafios para os quais existem soluções ainda que não imediatas, ao menos já testadas. O inimigo é invisível aos olhos do homem, mas não aos olhos da máquina, e é este afastamento do mundo que ironicamente poderá salvá-lo. A visão humana já não pode dar conta da supra realidade, assim como os sentidos não conseguem responder à velocidade das informações. Assim como no distante século XIX, a máquina irá ditar a nova visão do mundo, cada vez mais ampliado e além da visão humana. Aos homens restará sua subjetividade, como quando emergiu a arte moderna. Como se configurará esta experiência ainda é desconhecido. Chegou a hora da consciência coletiva, da inteligência artificial, o fim da era do individualismo sem limites. Enquanto existe uma brecha, e no momento estamos em uma, existe a possibilidade da criação de novos paradigmas. Resta saber qual vai ser a resposta que nossa inteligência coletiva vai dar.