Natureza Marginal

 

Casadalapa + Coletivo Tranverso + Paulestinos + Raul Zito

 

Parecia o prenúncio de uma antiga profecia indígena. Numa tarde qualquer, o céu de São Paulo foi coberto por uma massa cinzenta de cheiro devastador. O dia se fez noite com a fumaça definitiva que vinha das queimadas na Amazônia e no Pantanal. A queda do céu. O veneno que as nações indígenas sempre denunciaram chegava aos olhos e pulmões da capital paulista. Os grandes mestres indígenas começaram a ter suas vozes ampliadas e discutidas. Entre eles, o xamã yanomami Davi Kopenawa e o mestre Ailton Krenak lançam seus pensamentos mais pungentes.

Hoje, o isolamento de parte significativa da população global em meio à pandemia do Coronavírus, nos impõe a reflexão sobre os impactos da atividade humana sobre o planeta. Com a interrupção de serviços não essenciais e a menor circulação de pessoas, vemos por toda a parte sinais de recuperação da natureza: a diminuição da poluição do ar, de mares e rios. O antigo normal é insustentável, e o presente nos leva, a todos, a repensar nossas prioridades.

A intervenção. Executamos pinturas artísticas inspiradas em pensamentos dos povos originários que habitaram as margens do rio. Frases de lideranças indígenas sobre a relação entre o rios e a vida, e a indistinção entre a humanidade e a natureza. Este trabalho é a continuidade de uma série de intervenções denominadas Manifesto Capivara, realizas em 2008 em diversos espaços fluviais da cidade.

O trabalho foi feito em janeiro de 2020. As primeiras imagens de Wuhan já tinham chegado. Mas tudo era muito distante e incerto. Como distante e incerto é o que vivemos hoje. O Brasil caminha a passos largos para uma tragédia, um salto para o abismo, guiado por um líder genocida. Mas o problema é maior ainda. Planetário. A Terra é um organismo vivo e seu equilíbrio é delicado.

Ailton Krenak diz que “…nosso tempo é especialista em produzir ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida.”

Krenak respondeu algumas perguntas que fizemos:

  1. Vamos adiar o fim do mundo?

Temos mundos em diferentes perspectivas, camadas de mundo que projetamos a partir dos lugares que vivemos. Mundos urbanos, tecnológicos, mundos esquecidos com milhões de pessoas abandonadas a seu próprio destino. Mundos periféricos, mundos centralizados no poder econômico e político das potências. Assim, é preciso decidir quais mundos queremos adiar.

  1. O rio é a alma de uma civilização?

Todas os grandes assentamentos humanos tiveram origem à margem de importantes rios, como o nosso Amazonas, Tapajós, Xingu, Tietê, Paraná. No antigo Egito, Índia, China, todas as civilizações antigas e modernas nasceram à margem de rios. Assim, tem sentido pensar os rios do mundo como a alma dos povos, em diferentes civilizações.

  1. Quem vira as costas para o rio, antecipa o fim da vida?

A maioria dos assentamentos humanos viraram as costas para seus rios, e pagaram um preço incalculável por esta insolvência, pois as doenças e miséria foi o resultado desta ignorância.

  1. Como a pandemia do coronavírus está ligada à destruição da natureza? O vírus é o anticorpo do planeta?

O planeta Terra, para alguns, está saturado das ações predatórias do homo sapiens, e pode estar liberando um ataque dirigido exclusivamente aos humanos, pois o vírus não afeta outros seres vivos, além dos humanos.

  1. Se nós entendermos a importância de nos conectar com as necessidades da natureza, como reverter a mentalidade capitalista que despersonaliza o planeta Terra e o toma como recurso?

Se… é uma possibilidade remota! Mas pode ser que aconteça! Então teremos outra história para viver em algum sentido, conectados ao grande organismo da Terra.

Artistas:

Casadalapa + Coletivo Tranverso + Paulestinos + Raul Zito

Átila Fragozo (Paulestinos)

Cauê Maia (Coletivo Transverso)

Julio Dojcsar (casadalapa)

Raul Zito

Sato do Brasil (casadalapa)

Zeca Caldeira (casadalapa)

Participação: Sebastião Dojcsar

Trilha sonora: Flor de Mangabeira – Afro2

Agradecimentos: Instituto Nação, Treme Terra, casadalapa, Cesar Meneghetti, Lilian Amaral, Guina.

Esse trabalho foi concebido e produzido inicialmente para o projeto Museu de Arte de Rua – MAR, através da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura da Cidade de São Paulo.