POESIAS, MILENA DURANTE + FOTOS, FLAVIA SAMMARONE

pr’essa frente

espero nunca mais precisar
sair de casa
um hospital
respirador
um coração falso
transplante
espero nunca mais sair
o peito superficial
a mão duvidosa
a alma migrar
a mente
poder se juntar
ao espírito
espero a chegada
de nenhuma notícia
caixões
e sacos plásticos
de corpos
espero jamais ter
que novamente
ouvir palavra alguma
embaixo da cama
ter que levantar
nem que seja um dedo
pra que continue
essa frente

IMAGEM-01

faísca

a vida de dia aparece
enquanto o vizinho
não grita
fora bolsonaro
olha nojento
o panelaço
a mulher faz laive

quando chega à noite
escuto os zumbis gritando pela janela
suas caras apavorantes
grudadas no meu vidro
os casais sobreviventes trepando

as tosses gritam coronavairus
os catarros quase secos
raspados nas gargantas
ecoam em azulejos

a polícia à porta das casas
rádios
estão na marginal

berros na rua quieta
uivo de gato
ar invisível
borrifos de inseticida
aqui tudo cheira a gasolina

IMAGEM-02

uma mariposa novíssima

pelos cantos
é como ter uma grade
na frente de um caminho
e a grama solta

acabou de nascer
uma maternidade
de marias-fedida
e seus ovos

um cemitério de abelhas
seus minicadáveres
no chão

despencam pedaços de vidro
encapsulados da pele
ligações e vacinas
não chegam

a canto algum
não há canto algum
na escuridão

IMAGEM-03