Um Carnaval Para O Fim Dos Tempos

Capitão Tramposo – humanete papel machê

Abutres – máscaras papel machê

Gado – máscaras papel machê

FOTOGRAFIA ANTÔNIO BRASILIANO

Carnavaval Sombrio. Pré-estreia, Teatro Oficina- Fórum Fronteiras Cruzadas

Carmen Cavalera – humanete papel machê

Carnaval Sombrio e o direito de matar

Paulo de Tarso Zeminian

O Projeto Carnaval Sombrio, performance de rua com bonecos e máscaras, constituiu-se como uma iniciativa “artivista” do coletivo de arte Migranto. A proposta reuniu no início de 2020, em São Paulo, uma trupe constituída de dramaturgos, atores, atrizes, bonequeiros e músicos, com o objetivo de exercer uma amarga crítica social da situação política nefasta que se estabeleceu recentemente no Brasil. A ideia inicial era considerar relações possíveis entre o Carnaval brasileiro e a politica, denunciar a “necropolítica” e o descaso com a população carente que se instalou no país.

Para o filósofo camaronês Achille Mbembe (2018) a necropolítica pressupõe que a expressão máxima da soberania reside, em grande medida, no poder e na capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer. Por isso, matar ou deixar viver constituem os limites da soberania, seus atributos fundamentais. Exercitar a soberania é exercer controle sobre a mortalidade e definir a vida como a implantação e manifestação de poder. Nesse sentido, o Carnaval Sombrio antecipou a crise sistêmica que se agigantaria, ainda mais, com a pandemia causada pelo novo coronavírus.

O projeto cênico propunha a performance como expressão artística dentro de um hibridismo que combina linguagens, artes visuais, música, teatro físico e de bonecos. Participaram para a concretização dessa proposta Artur Matuck, Paulo Zeminian, Mark Duncan, Renato Navarro, Paulinho de Jesus, João Pedro, Regina Moreno, Leonardo Gomes, Flaviana Benjamin, Wilson Rocha, Lucas Brás, Oli Campelo, Alohá de La Queiroz e Nina Liesenberg. A ideia do coletivo era encenar um ato que passava do carnavalesco para o sinistro, refletindo o Brasil alegre do Carnaval sendo gradualmente substituído pelo clima ameaçador que pairava sobre o país naquele momento, apesar da expectativa da comemoração do carnaval, com o ensaio de blocos e bandas de rua.

Uma pré-estreia do espetáculo ocorreu no Teatro Oficina, em um sarau organizado pelo Fórum Fronteiras Cruzadas. Naquele excepcional espaço projetado por Lina Bo Bardi, figuras divertidas e cantantes, bem como outras assustadoras e macabras circularam, representando a transição forçada do clima de Carnaval para o horror do autoritarismo forjado pela força das armas. O Brasil seria apresentado como uma nação perturbada e decadente, oscilando entre o estereótipo de um paraíso tropical e o inferno dantesco, o belo e o terrível, o cômico e o trágico.

Bonecos gigantes que protagonizam a performance, recorrem à linguagem do “chiste”, que aproxima a arte da carnavalização, recorrendo a símbolos que “estão impregnados do lirismo da alternância e da renovação, da consciência da alegre relatividade das verdades e autoridades do poder”, conforme as ideias de Mikhail Bakhtin (1987, p. 10), mas envolvendo episódios marcantes do momento político atual. O pensador russo desenvolveu o conceito de carnavalização e o identificou intrinsecamente à cultura popular, pois esta, ao valorizar a dimensão corporal da vida, tende a ridicularizar, parodiar e subverter a seriedade, os rituais fechados e as transcendentais pompas legalistas dos poderes instituídos.

O Carnaval Sombrio coloca em evidência o estereótipo de uma brasilidade mítica, onde o brilho intenso do sol se apaga em confronto com as sombras de uma realidade sórdida, predação ambiental, desmatamentos catastróficos na Amazônia, ataque a povos indígenas e quilombolas. O país do carnaval, samba e futebol idealizado por estrangeiros, mostrava assim o seu lado mais sombrio, violento e “suicidário”, no entender de Vladimir Safatle: “Um Estado como o nosso não é apenas o gestor da morte. Ele é o ator contínuo de sua própria catástrofe, ele é o cultivador de sua própria explosão” (SAFATLE, 2020).

A estreia oficial do Carnaval Sombrio estava prevista para acontecer no espaço da Oficina Cultural Oswaldo de Andrade, no dia 20 de março de 2020. Em seguida estavam marcadas apresentações para acontecer nos meses subsequentes, em São Paulo, e nas cidades americanas de New Orleans (8th Annual Giant Puppet Fest) e Houston (Conference Revolution, Rethinking Political Action). No entanto, essa programação foi cancelada de última hora, por causa do agravamento da pandemia de covid-19 que conduziu milhões de pessoas ao isolamento social e a suspensão de atividades culturais que pudessem causar aglomeração.

Em uma cena do Carnaval Sombrio apresentava-se a “dança macabra”, ao ritmo da tradicional Marcha Fúnebre, enquanto um ator manipulava o boneco gigante de uma caveira, representando um general trajando quepe e farda. Este ostentava todo o seu exibicionismo bélico, opressor e mortífero, que aludia ao “direito de matar” (MBEMBE, 2018). O sinistro militar convidava para uma contradança, uma bailarina humanete que trazia um portentoso cacho de bananas na cabeça, à moda de uma Carmen Miranda tornada cadavérica, cômica e trágica, estereótipo escrachado de uma “república de bananas”.

Os dois personagens se aproximavam um do outro, dançavam e rodopiavam, encenando uma espécie de ritual grotesco. O ato é uma franca demonstração de nossa identidade latino-americana, que está sendo sordidamente ultrajada por governantes truculentos e autoritários que, sem nenhum pudor, revelam sua pulsão de morte e decidem arbitrariamente entre aqueles que devem viver e os que devem morrer, ao mesmo tempo em que enxergam inimigos por todos os lados, estigmatizados pelo gênero, raça ou opção política.

Para a pesquisadora Juliana Martins Pereira, que analisa as ideias de Achille Mbembe, o direito de matar está estreitamente relacionado às “relações de inimizade” elegendo de forma ficcional grupos inimigos. “Percebemos que esse mecanismo foi o primeiro a operar no governo bolsonarista que elegeu os povos indígenas para essa categoria, colocando-os como aqueles que impossibilitam o ‘progresso’” (PEREIRA, 2019, p. 369). Os que devem viver e os que devem morrer são selecionados segundo grupos biológicos, apresentando o racismo como sua máxima expressão. No livro de Mbembe (2018) existe uma constatação completa de guerra, que se dá através da fusão entre um estado racista, assassino e suicidário.

Nesse cortejo sombrio, também circulavam outros bonecos e personagens igualmente repugnantes. Um grupo de bois chifrudos, representando o gado, com seu “instinto de rebanho”, aparece como ruminantes humanos, ostentando seus símbolos, mitos e bandeiras, pronto para agir em nome de ideias esdrúxulas. Porém, de repente, percebem que estão seguindo para o caminho do abate coletivo. Enquanto isso, “Abutres aguardam a descida em massa ao vale da descrença. O cheiro espalhado de uma carnificina em curso os atrai a se alimentar de cadáveres abandonados no chão após serem desmontado, torturados, assassinados”, de acordo com um roteiro da performance proposto por Artur Matuck.

Nesta atmosfera escatológica, o projeto do Carnaval Sombrio apresentava uma cena de completa distopia, em um mundo sem esperança. A performance foi pensada, a princípio, para ser uma intervenção artística de rua, realizada de forma coletiva, para integrar manifestações de resistência. Mas nesse ínterim o mundo foi surpreendido por uma terrível pandemia e as ruas drasticamente se esvaziaram. As pessoas que puderam se isolaram em suas casas, longe dos parentes e amigos. De certa forma a arte antecipou essa hecatombe. Embora frustrados por não poder apresentar a performance conforme havia sido meticulosamente planejada, percebemos que estávamos com razão ao mostrar artisticamente a ameaça que pairava sobre todos.

Alguns poderiam pensar que, no caso excepcional de uma pandemia ameaçadora como esta da covid-19, isso fosse capaz de despertar naquelas consciências mais corrompidas pelo ódio de classe um lampejo de compaixão pelos desvalidos e doentes, ainda que de forma genérica. Mas, não, “o que emerge é a expressão máxima da ausência absoluta de solidariedade pelos mais vulneráveis, a ponto de se zombar daqueles que estão morrendo” (SAFATLE, 2020).

Essas desventuras também levantaram algumas inquietações sobre as formas de ação e resistência possível em tal situação desesperadora. Questiona-se sobre a validade do ativismo artístico e da função da arte num mundo em desencanto. Em momentos de crise sanitária, econômica e institucional, como esta que assola o Brasil atualmente, com o agravante da relativização de direitos e inversão de valores, talvez a arte possa apresentar respostas surpreendentes.

Referências 

BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: contexto de François Rabelais. Brasília: Hucitec, 1987.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: N1 Edições, 2018

PEREIRA, Juliana Martins. “MBEMBE, Achille. Necropolítica”. Resenhas, in: Horiz. antropol., Porto Alegre, ano 25, n. 55, p. 367-371, set./dez. 2019.

SAFATLE, Vladimir. “Bem-vindo ao Estado suicidário” (n-1 Edições), GGN. Disponível em: https://jornalggn.com.br/blog/doney/bem-vindo-ao-estado-suicidario-por-vladimir-safatle-n-1-edicoes/ Acesso em: 05/05/2020

Entrevista com o filósofo Vladimir Safatle a André Barrocal, in: Carta Capital, 27 abril 2020. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/politica/bolsonaro-se-ve-a-frente-de-uma-revolucao-em-marcha-e-nao-vai-parar/?fbclid=IwAR1OUvC1s8LGcqJDPtH4mZa6EkoqBTrNMjbWenH9vosLbUKD_wWdYhCwcVA Acesso em: 04/05/2020

Proposição de roteiro para um carnaval sombrio

Artur Matuck

São Paulo, Maio 2020

Títulos possíveis:

“Um carnaval para o fim dos tempos”

“Um carnaval brasileiro … desaparecendo sob balas perdidas”

“Quando a música e a esperança desaparecem …

não haverá mais carnaval ”

“Um carnaval para o futuro improvável”

Uma performance musical para humanos e humanetes

‘Um Carnaval Sombrio’ [A Sombre Carnival]

 

O que aconteceria se a música e a esperança desaparecessem?

 

Contos distópicos para novas terras devastadas

Os Contos Distópicos de um Carnaval Sombrio registram uma transição da comédia para a tragédia. Os desfiles alegres e vibrantes, as melodias e os ritmos das festividades do carnaval brasileiro vão silenciosamente dando lugar secretamente às cerimônias sombrias e mesmo tenebrosas.

Suas figuras inquietantes tentam desajeitadamente vislumbrar as cenas alarmantes que emergem da morte iminente de um país, a queda programada de uma grande parte da humanidade localizada no Hemisfério Sul.

Certamente, durante fevereiro, no auge das celebrações do Carnaval, músicas tradicionais, desfiles coletivos, batidas vibrantes e concatenadas, tocadas pelas tradicionais ‘Escolas de Samba’ para grandes audiências ainda permanecem nas avenidas, levando movimentos irresistíveis a corpos brasileiros, emocionando audiências, inebriando através dos satélites o país e o mundo inteiro.

Mas, por trás dos rostos felizes, surge outra expressão estranha e pouco contida de um medo oculto, um sentimento que ainda não consegue encontrar um caminho adequado para se manifestar. A proposição para um roteiro possível tenta desvendar estas sensações que engasgam em nossas gargantas e aprisionam nossos corações.

‘O que aconteceria quando a música, o carnaval, o samba, a felicidade e a esperança desaparecessem do horizonte?’ estaremos perguntando com nosso desfile, música, humanetes, movimentos, ritmos, alegria, mas também com nossos olhos e mãos tentando alcançar todos para que estejam alertas.

‘O que devemos fazer quando os mais pobres, negros, gays, lésbicas e trabalhadores marginais estiverem sendo alvejados por simplesmente passear pelas ruas das cidades brasileiras …? O que devemos fazer, o que podemos fazer quando estudantes, crianças e inocentes são atingidos no meio de uma artilharia sem precedentes? Quando pessoas muito pobres tiverem seu dinheiro rasgado por policiais ?”

Nosso Cortejo Sombrio, formado por bonecos cabeçudos, por personagens disformes, por figuras de homens e animais, abraçará tentativas díspares e incongruentes de criar e conduzir a versão entristecida de uma festa pública outrora muito alegre e contagiante.

O menestrel chegará anunciando um grande espetáculo com uma forte pontuação, mas ao se aproximar mais seus ritmos se fixarão em uma melodia melancólica.

Touros humanos, representando uma população silenciada, de repente perceberão que eles estão avançando para o abate inevitável. Ainda assim, eles podem juntar-se às austeras forças armadas escuras das fortalezas governamentais natzilitárias para ficar lado a lado com seus piores inimigos, agora ostensivamente segurando símbolos pseudonativos em suas camisas e jaquetas.

Abutres humanos aguardam a descida da multidão no vale da descrença. O cheiro espalhado de uma carnificina em curso os atrai. Eles avançam para se alimentar de cadáveres abandonados no chão que foram todos sacrificados, desmontados, torturados e assassinados.

Um Golias Afiado, acompanhado por Homens-Rato, entra em cena para revelar a ostentação ilimitada de um podres e decadentes poderes. Eles são os verdadeiros autores, alardeiam as piores perversidades, exibem terríveis atrocidades, ocupando um brilhante trono ornamentado.

Eles representam a estética da Ostentação sem nenhum limite, exibindo suas vestimentas douradas e hipermodeladas, além de grotescos grunhidos. Corporificam através de gritos, murmúrios e gargalhadas, a insolente e demencial orgia de desejos aremorsos e sexsuais.

Estas entidades armadas brutíferas, com uniformes grandalizados, vomitam muitas palavras, alegam os piores discursos mas são capazes de arregimentar grandes coletivos instantaneamente prontos para agir em nome de proposições irracionais.

O Golias Afiado, e seus Homens-Rato enternados, com notas de grande valor defrestando de suas pastas executivas, são podres e ricos, em glória política eleitoral, são fezelizes e vitoriados, comemorando posições de alta governamentação que alcançaram esmagando cabeças e culhões.

Eles estão sentados esplendidamente sobre o trono mais alto carregado por escravos, touros, abutres, ratos, todos em obediência à autoridade hierárquica, ostentando sorrisos amarelos em rostos sombrios, portando armamento pesado. Parecem impossíveis de derrotar, por ostentar perversidade e terror.

Assim nós escutamos aterrorizados: “Estejam cientes. O que vocês farão quando o pior pesadelo se espalhar por nossas comunidades, ruas, cidades e até mesmo nossas mentes?”

Num repente, da profunda escuridão, emerge a figura mitológica de uma onça-pintada balbuciando sussurros e mantras cerimoniais. Ela é a Shamam das Reversões do Tempo Quântico, um princípio ancestral de cosmologias invisíveis, uma energia não revelada do tempo pluridimensional.

Um arrepio de sentidos, um artomekanisto insubmergindo em nossa realidade para proceder e sobrestar. Ela é a energia matrimaternal que se eleva do útero, para construir um vaso humano para um espírito não-nascido.

Quando ela se aproximou, seu rosto instantaneamente visto, ela penetra simultaneamente nos olhos de nós todos que presenciamos. Por um momento vislumbramos o futuro sombrio que vem sendo construído ao longo dos anos de autoridade ilimitada, brutalidade e perversidade consentidas.

“O que você fará quando todas as conseqüências de seus atos e pensamentos forem plenamente realizadas, incorporando seus piores pesadelos ?  

Você percebe que seus próprios pensamentos e ações atuais trarão seus piores medos à manifestação ?  

Como você vai reagir quando perceber que seus próprios atos foram o ponto de partida do pior que poderia ter acontecido ?”

Agora, o grupo inteiro visualiza o que suas ações trouxeram. Uma cena de desastre é trazida aos olhos de todos. Alguns que se recusaram a atacar e matar, admirar e destruir, lamentam que deveriam ter feito ainda mais para impedir que essa realidade surgisse. Outros que celebraram a perversidade, seus atos desumanos por tanto tempo, verão seus descendentes como os primeiros a serem vítimas. Eles podem ainda verem seus próprios corpos cercados por energias angustiadas e aprisionadas.

Seus próprios filhos, filhas, netos, esposas, mães idosas, amigos, seus queridos colegas, foram todos empurrados para uma terrível realidade de deformidade, decadência, miséria e morte. Ouçam: “Seus filhos também foram mortos. Sua filhas também sucumbiram nas mãos deles.” Agora, as autoridades armamentadas, os ídolos televisados, as figuras mais poderosas que inauguraram e persistiram em perpetrar atos mortíferos também são capazes de ver o que produziram para si mesmos. Suas máscaras revelam faces distintas, dois lados reversos, o lado irado e feroz é subitamente preenchido por expressões de remorso e dor. Podemos testemunhar de longe seus rostos desesperados, sorrisos grotescos distorcidos que agora informam sua presença permanente. Neste tempo em reverso, depois de conhecerem as consequências de suas próprias ações, os personagens pseudo poderosos da história confrontam o desespero, estão em contorções continuadas, não conseguem acreditar no que vêem diante de seus próprios olhos. Eles tentarão explicar que não sabiam que suas ações levariam a esse pesadelo, eles nunca poderiam imaginar, eles vão dizer que não é culpa deles, eles até choram e pedem perdão. Mas por vezes retornam às suas personalidades e tentam defender os próprios filhos que estão sendo jogados no abismo: “Não ele, não ela, por favor, esse é meu neto criança, não merece esse destino. Por favor, perdoe-me, poupem a vida de um inocente.” O desenlace, o fim gradual dessa odisseia, deve apontar para uma perspectiva ética moral: “Não espere um tempo que não existe, o tempo do arrependimento e do remorso. Suas ações estão criando incessantemente mundos que se tornam reais. O futuro é realmente AGORA”. Artur Matuck, São Paulo, janeiro a maio de 2020

Aprendizes de mágicos sobre o truque da reinvenção – novas leituras de uma profissão?

Oli Campelo

 

Nesse curto período que existo – 22 anos – não tinha ainda me deparado com um desafio que não só é enorme, mas principalmente verdadeiro, e não mais um puro exercício de expandir os horizontes dos profissionais das Artes da Cena. O conflito de linguagem é claro: como fazer a arte do presente virtualmente? Claro que hoje já vemos diversas formas híbridas, mas ainda temos uma separação dessas formas do fazer artístico. Sabemos as imagens que nos vêm quando pensamos nas palavras “teatro” ou “cinema” e dificilmente visualizaremos algo híbrido.

Estando no processo do Carnaval Sombrio com o Coletivo Migranto, pude perceber até agora que o uso de vídeos, áudios e fotos, já presentes na ideia da performance, foi abertamente recebido como material do processo. Porém, há uma incerteza de como fazer o espetáculo integralmente através desses meios, principalmente por não ter sido a linguagem proposta inicial, e por argumentos sobre a paridade nos equipamentos usados na produção (como a qualidade das câmeras de celulares e de captação de áudio). Uma orientação dificultada por essa questão pode facilmente gerar um trabalho que é simplesmente uma colcha de retalhos. Ao mesmo tempo não devemos ser exclusivistas na exigência de materiais caros e inacessíveis. E nem exigir o conhecimento de se trabalhar com esses equipamentos.

É certo que ainda estamos nos perguntando mais do que nos respondendo. Portanto, quis usar este espaço para ampliar a discussão do fazer artístico, pois sinto que é um dever político e social e enriquecedor para nosso e outros coletivos. Se viemos com o intuito de denunciar a necropolítica instaurada, é essencial e político pensar no como fazê-lo.

Aos Coletivos, Grupos, Ensembles e Trupes, algumas ideias e questões para que possamos planejar nossa reinvenção:

  • Escolhendo pelo presente – a hora e a vez do site specific

O primeiro caminho que me veio à cabeça quando a quarentena ficou clara foi o site specific. Se estamos em casa, para fazer uma arte do presente, precisamos olhar ao redor. Esse espaço conta uma história e podemos tecer uma estória a partir dele. Assim, seria uma forma de resguardar a arte do presente. Se moro em um prédio, existem apartamentos em cima ou embaixo e muito provavelmente outro à minha frente, atrás. São muitas as possibilidades e únicas em cada lar. Basta observar para iniciar o jogo.

Jogar com isso pode ser um caminho muito enriquecedor em descobertas e inclusive houveram apostas em um edital (depois suspenso pela Prefeitura de São Paulo) de espetáculos em janelas.

  • Escolhendo pelo virtual – Lives, por que não?

Para quem acompanha as redes sociais, o crescimento de Lives (transmissões ao vivo) foi realmente um acontecimento. Em um horário de pico não é incomum vermos 5 Lives acontecendo ao mesmo tempo nessas redes. Isso considerando apenas as contas que seguimos. Se você clicou e assistiu alguma Live que envolvia uma performance, dança, leitura dramática talvez se identifique com o que eu vou falar agora.

Optar por esse caminho não me parece nem um pouco uma traição ao teatro – a supressão da cultura na vida das pessoas sim! Agora, mais do que nunca, o público precisa da arte e os artistas irão aonde o povo está pelos meios possíveis. Por outro lado, qual a ferramenta que vai dar retorno financeiro aos artistas empenhados em manter a arte viva?

As Lives, como o teatro, não devem ter uma só forma de serem feitas. Talvez esse seja o momento perfeito para explorá-la como linguagem. Sair de cena seria como deixar uma Live, por exemplo.

3 – Escolhendo pelo STOP¹ – Recolhendo-se para a fertilidade

Vale trazer a importância dessa possibilidade porque as pessoas estão em diferentes tempos, espaços e trajetórias (site-existence-specific). Parar não é necessariamente deixar alguma coisa morrer. Observar é um passo fundamental para fazer algo que é um desafio. Parar, dar um passo para trás, observar, para então agir. Afinal, quantas pessoas não estão tentando agir nesse momento? É como acalmar o desespero para aprender a nadar.

Isso não significa uma atitude necessariamente passiva. Parar e observar podem ser ações incrivelmente ativas.

No Processo da Reinvenção

Todos os velhos caminhos levam ao novo – se tudo existe do que já estava e sempre esteve aqui, absolutamente tudo o que fazemos é reinventar. É uma questão filosófica sobre essa arte, uma vez que esse novo é sempre uma releitura do que sempre existiu. Embora nesse momento pareça uma ideia mais urgente, ela é absolutamente intrínseca ao fazer artístico.

Deixo aqui uma imagem feita por Boris Dambly, designer cenógrafo, sobre possibilidades do espaço teatral. Mesmo não sendo pioneiro nesse tipo de ideia (Teatro da Vertigem utilizou vitrines como espaço para o público em A Última Palavra É A Penúltima, por exemplo), o fato de propor como opção na atualidade é significativo.

Por isso, os caminhos acima são como um convite para reinventar as luzes, os cenários, os figurinos, as formas de acessar o público e a carga de trabalho. Rever as formas de escrita de dramaturgia, de contracenar e dirigir, de performar, atuar, sonorizar e processualizar.

No caso do Carnaval Sombrio produzi um pequeno filme de apresentação das personagens, utilizando suas miniaturas de papel desenhadas pelo Paulo Zeminian. O processo de então trabalhar com tudo em miniatura e ter uma troca direta foi muito interessante e ampliou horizontes de um projeto caber em outras linguagens.

Convite Aos Artistas – Reencontrando Nossas Utopias

Reservo este último espaço para convidar artistas da cena a exercitar algumas reflexões. São apenas sugestões e não envolvem a necessidade de compartilhamento.

  • Reflita e escreva o papel da sua arte dentro e fora de uma situação de pandemia. Procure validá-la para você.
  • A partir da primeira resposta reserve um tempo generoso para planejar um sistema de inclusão da arte em um projeto socioeconômico que envolva a acessibilidade do acesso também.
  • Amplie as formas de reinvenção nesse período a partir das que citei aqui. Tente executar pelo menos uma.

THE MASQUE OF PAN OR CORONA MASQUE

Mark Duncan

 

This article is mainly in reference to the concentrated creative work on ‘O Carnaval Sombrio’ by Migranto Collective and Cornucopia Theatre between January-March 2020

in São Paulo, Brazil, it’s postponement and new direction in response to the corona pandemic.

The project involves a collective of artists from disparate disciplines and contrasting backgrounds to create an adaptable and multi-faceted performance project.

‘In theatre, as in the plague, there is a kind of strange sun, an unusually bright light by which the difficult, even the impossible, suddenly appears to be our natural medium’. –
Antonin Artaud; ‘The Theatre and Its Double.’

I quote Artaud here as we find ourselves in an unprecedented and difficult position as creative artists and as citizens of the Earth within a pandemic. But as the title of our project suggests, the biggest inspiration for our theatrical medium in this project was not initially the idea of the plague but of carnival. With that in mind, lets take a look at the major influences on

‘O Carnaval Sombrio’:

Carnivalesque

‘Bakhtin insists, the world of Carnival is not primarily a satire of the world of everyday reality, with its uses and abuses of norms and institutions; Carnival is an alternative world, one with a different interpretation of reality, full of its own laws, symbols and images, a world of ‘becoming, change, and renewal,’ of ‘phenomenon in transformation,’ unfinished and still developing.’ – Erasmus Praise of Folly and the Spirit of Carnival; Donald Gwynn: Renaissance Quarterly

The Carnivalesque is a broad tradition that sprung up from the ancient carnival spirit combined with the progressive currents of Renaissance humanism and has continued to this day, alongside carnival itself, in various art forms, especially plays and literature and specifically in satire, cabaret and ‘grotesque’ comedy.

‘None of the Renaissance rebellions, at the time, altered the system which invested absolute power in one group or person. Yet with their emphasis on individual dignity and right to opportunity they were harbingers of revolts centuries later which were to enjoy greater success. The movement toward them was perhaps reflected in the Commedia dell’Arte which, by lifting the temporal bounds on Carnival, generalized its function’.

Carnival Rites as Vehicles of Protest in Renaissance Venice; Linda L. Carroll: The Sixteenth Century Journal

Commedia dell’Arte –

Connecting theatre and carnival is the Commedia dell’Arte, a living, vibrant tradition that connects the 16th century Italian carnival tradition to contemporary carnival and international performance. We use half masks, stylised physical acting and characters based on famous figures from Commedia dell’Arte such as Pierrot, Colombina, Arlecchino and Pantelone.

Carnaval das Trevas

A much less known counterpart to the huge, magnificent structures and the accompanying percussionists, singers and dancers of the famous Rio Samba Schools. Often presented on a bare stage (back of a truck) with minimal costume and props and a much smaller ‘cast’, these are alternative presentations of the theme epitomised in the samba-enredo song. If the huge floats represent the theme with of all the carnival elements in a bright, colourful and samba-soaked solar presentation, the Carnaval das Trevas is a macabre lunar vision – the dreams and nightmares that don’t get expressed in the rational discourse of the daytime; the secrets, hidden perversities, problems, and underlying paranoias and phobias of humanity associated with the theme. Movement is emphasised, but not usually traditional samba steps or other well-known Brazilian favourites, but more likely to be contemporary dance, street dance hybrids and ensemble physical theatre. These are seen less often as they do not hold the same popularity of the big and brash main presentation, but there is a further connection in the tradition of protest against social injustice (of the past and present) in samba schools.

Puppet theatre

Specifically influenced by the Marmulengo giant puppet tradition of the north-east of brazil (Olinda) and also the traditional carnaval of São Luís do Piraitínga plus Bread and Puppet Theatre- a grass-roots, political theatre group that encompasses interpretations of pageant, spectacle and many types of puppets and masks.

Blocos

The blocos are a smaller, more informal version of the samba schools with comparative organisational skills and teamwork. They can be, and are, invented quite quickly, usually bringing a disparate collection of local artists and enthusiasts together to present their musical cordão at carnival. Members of our collective play in São Paulo blocos and our musical director leads a bloco. We have our Carnaval Sombrio cordão.

There are people from all over Brazil (and elsewhere) in São Paulo and this is reflected in the diversity of music – Marchas, Samba (especially Carioca Samba), Maracatu, Côco, etc. But the resurgence of the São Paulo carnival is relatively recent and the diversity of the city is manifested in the diversity of interests in the blocos and their experimental approach to music – famous marchinas and other songs from the past revamped with a different takes, mixing up rhythms, instruments, tempo, singing. Usually a samba-enredo will be written and rehearsed for the bloco each year, the same as the samba-schools. They will have a name, a standarte (standard or flag), costumes, a bateria and a small amplified melodic unit usually consisting of at least two lead singers (usually male and female), and melodic instruments (e.g. guitar, bass, brass instruments). There may well be guest singers (and sometimes the audience is offered the microphone for a short while, after all the songs are well known by nearly everyone).

Our collective emulates many aspects of the blocos with a core of artists/organisers but with an open-door policy for others to get involved. We also compose and practise our own samba-enredo.

Theatre

Popular yet experimental, family-friendly yet highly political, carnival of fun/dark carnival; ‘O Carnaval Sombrio’ utilises multi-media technology, live original music and original text.

One little known type of performance which has similarities to our project, both its structure and its diversity of artistic expression, is ‘The Masque’.

Let me explain a little about the Masque. I am presently a PhD researcher at the University of Essex, England and my working title for my thesis is ‘Re-imagining the Renaissance Masque for 21st century theatre making’. Masques developed in 17th century England, they were multimedia shows which combined music, dance, stylised language and mime with spectacular costume. Usually they had innovative set design, requiring complex mechanics, painting, lighting and sound. Their content was highly topical at the same time as being allegorical or mythological, with characters representing virtues and vices, gods and goddesses.

Our project also connects to the masque form through the shared lineage of carnivalesque traditions – for example Comus, usually known as the god of carnival, appears in a number of 17th century masques, as does Momus initially from Greek mythology who is the personification of satire and mockery known in the Brazilian carnival tradition as King Momo or Rei Momo in Portuguese. King Momo  is considered the king of Carnivals in numerous carnival festivities, especially in Brazil and Colombia. His appearance signifies the beginning of the Carnival festivities. Each carnival has its own King Momo, who is often given the key to the city. Momus introduces and gently satirises in the masque ‘Coelum Britannicum’ (1634). At the start of the 16th century, Erasmus also presented Momus as a champion of legitimate criticism of authorities. Allowing that the god was “not quite as popular as others, because few people freely admit criticism, yet I dare say of the whole crowd of gods celebrated by the poets, none was more useful.”

The Masque has three key parts found in all the masque performances however else they are differing in content and style.

  1. Antemasque – presentation of the topical issue – the “present occasion”, with differing viewpoints forming the “argument,” a metaphor of the situation, usually comical/satirical, dramatic with direct address to the audience. Usually interrupted by one or more antimasque interventions-often dance, always highly visual, usually with loud discordant music; representative of an antagonistic or destructive force.
  2. Masque – the fantastic vision of ‘higher powers’ – the “removed mysteries”; archetypal forces invoking wonder in the audience, bringing hope and the basis of philosophy needed for redemptive thought and action.
  3. Dance – the masquers (performers) dance for and with the audience.

In ‘O Carnaval Sombrio’ we have: (a) the antemasque is progressively threatening leading to the banning of carnival – symbolic of the current repression of the people and their free expression in Brazil through intimidation, fake news and throwbacks to the military dictatorship,

(b) the masque is portrayed by a mysterious Jaguar Woman, quasi-magical and shamanistic, bringing strong, vital force for fighting and healing,

(c) the dance is the carnival bloco and cortege before, during and after the theatre play.

I will suggest in more detail below how this masque structure can be transposed to the subject of the corona pandemic, but first I will introduce the proposed title and relevant background information:

‘The Masque of Pan’ – (Masque not mask):

Pan was the main Greek god of nature and we can see the ‘All’ of Pan in many words e.g. pantomime, meaning all the arts (including mime of course). But the words I propose to personify in the style of the masque are opposites, paired in the following way:

Pandemonium / Panoply (signifying the many tools at our disposal to lessen corona death and illness and help as many people as possible),

Pandemic / Panacea (signifying a cure-all, which could be a vaccine for our present pandemic)

Panic / Panorama (signifying seeing the whole picture; this could be learning or teaching other countries and peoples in tacking the virus).

‘Masque not mask’ is used as a subtitle firstly to differentiate between the masque performance and masks worn for theatre or carnival and also to positively hope for special live performances where people can freely gather together again and not have to wear clinical face masks.

So, to return to the transposition of the masque structure for ‘The Masque of Pan’ – (Masque not mask):

Antemasque – the argument and problems are symbolically discussed and extrapolated through opposing ‘types’: Pandemonium / Panoply, Pandemic / Panacea, Panic / Panorama (as mentioned above). Other possibilities are Rumour/Fact, Opinion/Truth, Necessity/Paranoia, Quarantine/Social, Solidarity/Selfishness. All would be costumed according to their type with appropriate symbolic props. They would be intermittently interrupted by antimasques of, let’s say, virus cells, physical or mental illness, death, reckless risk takers – all on a visual symbolic level of dance, physical theatre, masks and puppetry. This would transform into the main masque representing medicine and healing in the form of Hygieia, the ancient Greek goddess/personification of health, cleanliness and hygiene. Hygieia could be joined by her four sisters who each performed a facet of Apollo‘s art: Panacea (universal remedy); Iaso (recuperation from illness); Aceso (the healing process); and Aglaïa (beauty, splendour, glory, magnificence, and adornment).

Hygieia also played an important part in her father Asclepius’s role as god of medicine; while her father was more directly associated with healing, she was associated with the prevention of sickness and the continuation of good health. Her name is the source of the word “hygiene“.

Their text (sung and spoken) can elaborate on the theme of ‘Medicine’ (e.g. comfort, care, hospitals, experts, sharing of provision, scientific insight/discovery, prevention, listening to experts, new cures, etc.). These could be portrayed with music, special coordinated movement, projections, light and special scenic effects.

The dance with audience participation would happen twice, probably at the beginning and near the end of the performance.

You may be thinking at this point that this is a difficult feat to accomplish even with a highly skilled group of collaborating artists, weeks of rehearsal, appropriate resources and an excellent performance space. You are correct in this assumption. To follow your probable train of thought-this is presently impossible. So how can we even take tentative steps towards this feat in the present days of corona? I will come to this in a moment. But first dear reader, you may have a further troubling thought inching it’s way forward to the dominant part of your consciousness, namely – why is the vision of this gringo writer-artist so Euro-centric? So, I will answer as best I can: The English-originated masque form has international applications (I hope this was sufficiently elucidated above). The vision of Medicine is by an Austrian painter, namely Gustav Klimt (his genius is universal). Why the French actor/artist/theorist Antonin Artaud? – His works have inspired theatre makers the world over and his ideas from ‘The theatre and its Double’ seem particularly poignant in present times. Why Greek and Roman gods? -The energies and symbolism of deities are syncretistic between cultures and religions. Even here, a more direct transposition can be mentioned: Hygieia was imported by the Romans as the goddess Valetudo, the goddess of personal health, but in time she started to be increasingly identified with the ancient Italian goddess of social welfare, Salus. Perhaps you, dear reader have suggestions on deities, archetypes and images from the varied pantheon and practises of Brazilian, or other indigenous cultures? It could be said, for example, that an Afro-Brazilian equivalent to a Greek deity of healing would be Babalú-Ayé’ an Orisha strongly associated with infectious disease and healing. Babalú-Ayé’s own journey of exile, debilitation, and finally restoration addresses the cyclic nature of all life. This theme of transcendence is also present in narratives about epidemics befalling kings and kingdoms, only to find relief and remedy in Babalú-Ayé. At this point you may be asking yourself, what is all this quasi-religious ‘mumbo-jumbo’? My answer is: it is a means towards symbolic art; take it as more than that if you wish.

But this brings us back in a kind of full circle to ‘O Carnaval Sombrio’, in which our symbolic figure that represented a way to heal, in a more metaphorical way, the ills of Brazilian society ‘infected’ by pestilent politics, was a Jaguar Woman, a kind of shaman representing the forces of Nature and representing the indigenous people of the Americas. We are creating a mask and persona based on the Mayan tradition and our intuition was also apt for the transition to the project of ‘The Masque of Pan’; Ixchel  is the 16th-century name of the aged jaguar goddess of midwifery and medicine in ancient Maya culture.

Let’s go back to the present problem of how to make theatre in the time of corona virus. Like many artists we are searching for ways to move forward from this frustrating situation of being cut off from our colleagues, our practise, our profession. It is not just the lack of a live audience; it is the lack of live actors to inspire each other and physically work on our creations.

It is reasonably clear how corona has affected our creative process, but how this can be used as a positive catalyst? Since all our imminent live performances, workshops and seminars were cancelled at the last minute we have slowly began to explore distance-creation; after this hiatus caused by corona, the members of our collective are working again together again to produce related research and works of art: video, sound recording, script writing, poems. We meet on Zoom group chats and gradually unfold our plans. Writing for this Zine is a great way to share our ideas and learning.

But what about the project above? How will this happen?

I suggest that it is a collective project in the widest sense of the word-anyone can get involved.

For all participants:

In times of Corona virus, we will work with distance collaboration, mainly through video. But first let’s take a look at steps forward in sharing corona experiences towards an artistic project.

For example:

Step 1 – write,

Step 2 – record your voice,

Step 3 – record your video.

Time limit for voice or video recording = 1 minute.

We will facilitate a process of collation, assemblage.

We will work with script writers,

a sound recordist/music producer/music creator,

a video editor.

These can form a montage to be used in the ‘argument’ of the antemasque.

Some talented technical wizards may work on something more abstract and strangely beautiful through the medium of video design and/or music – this would be toward the main masque of Medicine and Healing.

They may be some creatives out there who capable video or music editors/producers.

To finish I will quote Antonin Artaud again and see if it also inspires you to think how this pandemic of 2020 is the performance and we are all actors within it.

‘Like the plague, theatre is a crisis resolved either by death or cure. The plague is a superior disease because it is an absolute crisis after which there is nothing left except death or drastic purification. In the same way, theatre is a disease because it is a final balance that cannot be obtained without destruction. It urges the mind on to delirium which intensifies its energy. And finally from a human viewpoint we can see that the effect of the theatre is as beneficial as the plague, impelling us to see ourselves as we are, making the masks fall and divulging our world’s lies, aimlessness, meanness and even two-facedness. It shakes off stifling material dullness which even overcomes the senses’ clearest testimony, and collectively reveals their dark powers and hidden strength to men, urging them to take a nobler, more heroic stand in the face of destiny than they would have assumed without it.’