PAISAGEM BANZO

 

O super-homem é, segundo a fórmula de Rimbaud, o homem carregado dos próprios animais (um código que pode capturar fragmentos de outros códigos, como nos novos esquemas de evolução natural e retrógrada). É o homem carregado das próprias rochas, ou do inorgânico (lá onde reina o silício). É o homem carregado do ser da linguagem (dessa ‘região informe, muda, não significante, onde a linguagem pode liberar-se’, até mesmo daquilo que tem a dizer).[1]

Gilles Deleuze

 

 

Os pastos secos de tom ocre desenham imensos horizontes no qual pululam montículos de barro resistentes ao sol, às chuvas, ao tempo. A isso dá-se o nome de cupinzeiro.

As extensas áreas atapetadas por campos de murundu, inundadas por elevações cobertas de pequenos arbustos e árvores retorcidas é um tipo de fisionomia comum pelas bandas de cá. A compressão do barro árido misturado à baba e excrementos do cupim-inseto é pura expressão barroca. Inúmeras espécies de cupim, cada qual na sua labuta, constroem e habitam um mesmo labirinto barroso. Um labirinto rococó. Forte, grandioso, fresco e subdividido por múltiplas repartições onde pequenas salas se dobram umas às outras. Chegam a medir três ou quatro metros de altura num crescente ao infinito sem norte, sem sul, sem leste-oeste. É acúmulo desmedido de barro, dejetos e saliva de inseto que vai sendo sedimentado num movimento contínuo e arredondado, dobra sobre dobra. Dele não há proprietário tampouco inquilino, são diversas as espécies de cupins construtores de uma mesma estrutura física. Constroem o mesmo cupinzeiro e o habitam em câmaras separadas.

Há também aqueles que poderíamos chamar de colonizadores: invadem, ocupam e se apropriam. Aqui o labirinto vai deixando de ser um barroco cavernoso escuro e passa a ser tão luminoso quanto um vislumbre do futuro. É que centenas de vagalumes se encontram para um baile nupcial e suas larvas são depositadas nas entranhas dos cupinzeiros. O pasto ganha coloração aberrante, fluorescente, luminosa. Pirilampos bailam no ar, esbarram-se, batem-se uns contra os outros, dançam e guardam suas larvas nas texturas infinitamente porosas dos murundus. Tudo brilha! A noite quente e úmida anuncia a chegada das chuvas. As inúmeras estrelas banzando a noite escura dão profundidade tamanha ao céu sem nuvens. Nuances de azul-negro dobram o céu saltando-o para longe, ao mesmo tempo em que suas dobras caem para baixo, tocando a vida terrestre.

Um cheiro doce e afrodisíaco ocupa a noite. Ele é vários: o do pequi é o mais forte. Dizem que nascera dos testículos do jacaré e por isso comê-lo pode engordar sensivelmente mais as mulheres do que os homens.

Talvez seja esta a causa do pequi nascer espinhoso, prenhe de flechas que saltam à garganta caso a boca exerça um movimento demasiado voluptuoso. Ora vejam só, uma boca gulosa, molhada e sedenta que num abocanho devorador dá com os dentes em centenas de espinhos ferozes, o que faz da boca um inchaço de pura glote. Tá aí o motivo de se comer pequi com as mãos. Entre flechas, espinhos, cheiros doces e afrodisíacos não há modos de etiqueta. Gestos e padrões de comportamento é coisa das friezas do homem que pensa estupidamente bem. Enfie um garfo na carne amarelada do pequi e ele lhe soltará milhões de espinhos. Na lógica do contato, são a boca, a língua, a pele e as mãos que devem sentir a medida do encontro.

Da flor do pequi deve-se ressaltar: é hermafrodita. Ao bater dos ventos um cheiro forte desprende nódoas que exalam o cheiro de esperma. Esperma de jacaré, de bicho, de macho à procura da cópula. E assim vão se fazendo campos e campos de árvores retorcidas, com suas cascas grosseiramente salientes, de flores hermafroditas e frutos carnudos. Desde um olhar menos detalhado e mais panorâmico, a coloração destas paisagens tende a persistir no amarelo ocre. Mas sendo cor movimento, o amarelo-ocre, no encontro com as chuvas, devém amarelo-ouro, amarelo-intenso, amarelo limão e pouco a pouco ganha o verdejante de uma mata menos seca e mais umedecida. Com a chegada das chuvas o céu estremece por inteiro, desaba litros de água morna em pingos grossos, recobrindo imensidões de horizontes. Ventos pavorosos invadem a paisagem de um dia abrasador e fazem gritar a franja vermelha do poente. Terras secas chupam as deságuas do céu alaranjado. É também com as deságuas que chegam outros cantos, outros voos, outros pios de aves aventureiras. Gritam e sobrevoam nos ares como que num gesto agradecido. Kiiiééé, kiiiééé, kiiiééé! Escuta-se o agudo-anasalado do gavião-carijó de coloração marrom. E como resultado das reações involuntárias da percepção, ratos do mato e outros animais de pequeno porte sentem no grito do gavião a ameaça do predador. Tocando seus aparelhos auditivos, aquele grito causa tremor em seus corpos e os faz vibrar por inteiro. Correm ariscamente com o auxílio de suas patas curtas para a direção de um abrigo qualquer. É também aqui que os montículos de barro se apresentam esconderijo. Sob sua sombra são inúmeros os animais camuflados em sombra-barro-mata-ocre quando ameaçados por aves de rapina.

Há aqueles desafortunados que não alcançam a velocidade necessária para esquivar-se do voo preciso de um gavião. É talvez por isso que nos pastos de murundus encontram-se muitos ossos, dos mais diversos, de inúmeros tamanhos. Existe o trabalho indispensável das aves negras conhecidas por abutres-do-novo-mundo. Necrófagos por excelência rodeiam o corpo putrefato até o preciso momento da devoração. A vaca abocanhada por um ou outro morcego agoniza em sangue dias e dias sob o arder do sol. Feridas abertas produzem uma espécie de pus purulento que atraem dezenas de moscas indesejáveis, perturbando a sanidade do animal. Baba o sangue vermelho escuro que escorre pelas pernas, encharcando a terra ocre do pasto, o que lhe dá por vezes, manchas amarronzadas e úmidas de forte odor persistente ao tempo de uma seca. Em seu corpo é expresso uma espécie de espasmo em localizadas regiões. A carne treme involuntariamente num ritmo que se acelera na medida em que cai a agonia na profundidade. Quanto maior o buraco que faz escorrer o sangue vermelho-pardo, tanto mais se anuncia um fim, atraindo os sobrevoos de inúmeros urubus-de-cabeça-preta que pacientemente acompanham a agonia do animal. São dezenas a sobrevoar o céu em círculo, desenhando a névoa escura que recobre a região em que se encontra a vaca putrefata estirada no solo. De corpo paralisado, apenas o rabo ainda exerce algum movimento voluntário, na tentativa de espantar as moscas que já iniciam o serviço a ser definidamente executado pelos urubus. Como último sopro de vida o rabo levanta e bate desgovernadamente no lombo do animal, caindo de súbito, para nunca mais erguer-se. Mas a vida ainda lá está, os olhos molhados choram a dor de um pasto seco, ressequido, de campos de murundu e horizontes infinitos. Tremem o sofrimento dos milhões de defuntos desintegrados nos solos ocres das bandas de cá. O choro derramado sobre os pelos marca com intensidade a coloração escura da cara preta do animal em agonia. Oferece ao redor dos olhos uma espécie de máscara carnavalesca, desenhando manchas de tom assustador. As manchas sussurram a dor da vaca, a dor do gado, a dor do pasto, a dor da seca, a dor da vida.

E neste choramingar escuta-se a cantiga de um ninar para o infinito: boi boi boi, boi da cara preta… O coração para, as lágrimas cessam e apenas são expressos espasmos carnais da ordem das terminações nervosas quando em colapso. Ai, ai da vaca!

Sutis tremeliques expressam-se por toda a sua carne, como que vindo de dentro, numa espécie de tique dos nervos que não encontraram no cérebro um possível comando de ação e movimento. A vaca agora é pura vibração. A dignidade expressa ali não pertence a sua morte, tampouco ao próprio animal. Mais parece ser da ordem de uma louca corrente de ar que faz girar os ventos calorosos destas paisagens. Um cheiro de carne e sangue espalha-se pelo pasto convocando o pouso dos abutres-do-novo-mundo. Um casal de urubu-rei percebe o movimento de grupos de abutres de outra espécie e desce em terra. Com o andar paciente, esperam cautelosamente por uma hora às voltas da vaca estirada. Convencidos de nenhum perigo é o casal de urubu-rei que dará o primeiro abocanho. O bico afiado rompe o duro couro bovino e inaugura o manjar dos carniceiros limpadores dos cerrados. E só aqui o ermo abutre, de hábito solitário, é visto na companhia de outras espécies. Em poucos minutos a vaca é apenas carcaça. Couro, carne e órgãos foram inteiramente devorados. Comem até mal poderem se mover e de barriga cheia exalam um mau cheiro putrefato repugnante que se pode sentir a quilômetros de distância. Quando ameaçados, regurgitam e sopram a matéria putrefata impedindo a aproximação do predador que não suporta tal fedor. De suco gástrico poderoso neutraliza as toxinas cadavéricas eliminando perigos de infecção. No seu estômago revira em voltas o sofrimento da vaca que um dia existiu. Da vaca somente os ossos estirados no pasto que num dia qualquer será recolhido por um ou outro louco andarilho do mato.

Por toda a parte banzo. O calor é intenso e aos ares sobrevoam palinhas carboretadas do fogo que consome a mata seca do inverno sem chuva. São quilômetros de um fogaréu devastador, levando consigo insetos, vegetações, ninhos, aves, pequenos mamíferos. O fogo, detido em pontos aqui e ali, queima com mais lentidão e vai aos poucos morrendo. Pode-se chegar a imensas monoculturas de soja. Essa pobre plantação de única espécie, sem multiplicidade, sem variedade, está impossibilitada da comunicação com o ambiente. Produzidas em laboratórios, já no germe lhe foi arrancada a capacidade de alta vibração. Emudecida, a plantação enreda extensões territoriais assustadoras do tamanho de cidades inteiras, fazendo da paisagem uma vida de pura monotonia. Uma vida agonizante a que tudo contamina, litros de veneno são pulverizados sobre o solo e suas plantações; só lhes resta a potência de reprodução. Uma névoa intoxicante se desenha sobre a paisagem de modo a causar náusea. Um cheiro químico altamente tóxico impregna o ar, a terra, os ventos, as narinas, fazendo de qualquer corpo puro sofrimento. Doenças sem nomes, má formação genética, dores estranhas, seres monstruosos. Um homem manipula os líquidos tóxicos tal como um aprendiz de alquimista que na sua ignorância, faz das misturas o convite à sua morte. Abre os potes de veneno, prepara o líquido a ser pulverizado na plantação e inala diariamente o ar sufocante dos químicos da indústria de guerra. O cheiro vai entrando pelos poros, dia a dia, preenchendo seus vasos sanguíneos num movimento de contato envenenador com o corpo. Rachaduras vão sendo expressas por toda a pele. Nas mãos, os dedos cortados criam o mapa geodésico do cerrado intoxicado. Os olhos vão sendo pintados de amarelo ocre: é o próprio ocre do pasto a ser expresso no corpo do agricultor. A boca ressequida vem a ser muda. Sem voz. Não mais pelo cansaço da labuta diária de um trabalhador braçal, e sim, pelos líquidos venenosos que correm num desvario de fluxos do corpo, contaminando os nervos até a urina vir a ser cor de coca-cola. O defunto faz lembrar os tantos insetos exterminados pela nuvem tóxica dos pesticidas, rolinhas e outras aves que sufocam no pasto. Da zonzeira profunda que assola o pasto empobrecido ainda nasce a vida que alimenta muitos seres.

Por toda a parte aborrecimento. Populações inteiras são deslocadas de suas propriedades, desabrigando famílias da terra, varrendo vidas feito sobras de lixo. Vê-se ao longe um rosto marcado por linhas tortas. A pele queimada de sol, pontos escuros, saliências, marcas das mais estranhas. As mãos grossas, os dedos espessos de pele calejada. Ao abrir a boca o rosto é manco. Produz uma espécie de tique: é coisa querendo sair e imediatamente reprimida. Os dentes falhos desenham buracos na boca fazendo da saliva a baba que escapa. A boca, num esforço fora do comum puxa toda a pele, faz do rosto um tom ainda mais avermelhado, tornando ver as veias grossas do pescoço. É então que a boca mexe e apenas ela mexe, pois da garganta pouco ou nada sai. Nenhum som aprazível, compreensível ou que de fato se ouça. A boca insiste em puxar o esforço para se fazer ouvir. Algo range dentro da garganta: efeito do ar ao tocar frouxamente suas cordas vocais. Nenhuma voz se faz. Nada pode ser dito. Um sem-som quase absoluto se não fosse o sussurrar da voz muda a cuspir sílabas entrecortadas pelo hiato que se impõe. Sopra um ou outro ar e não se apercebe de que a voz fala para dentro, ecoando num sem-fundo ad infinitum… Dos hiatos e sopros frouxos a voz passa a ganhar tonalidades das mais diversas, modulações entre agudo e grave, riso e choro. Grunhidos, sons guturais, rouquidão, desvarios vocais. O rosto marcado de traços grossos acompanha desgovernadamente os movimentos da voz. Os olhos abrem-se para a voz que ri ao mesmo tempo em que salgadas gotas líquidas preenchem as córneas. Sôfrego, os lábios estremecem e produzem a saliva que escorre e lubrifica exageradamente a boca sem-palavra. Narinas abrem-se e fecham-se derramando a mucosa transparente que desce ao encontro da boca que baba. Na face desenham-se micro movimentos de um espasmo na tentativa de expressar-se. Sobre as maçãs do rosto um volume de pele se altera entre contração e relaxamento. Eis que se ouve uma frase mais organizada. A boca diz:

Passo a vida a escorar nos troncos retorcidos e secos de um pequizeiro, servidão perpétua, paisagem que me assola, cuidei do suicídio, mas não dei conta de realizar.

Da devastidão de suas palavras um hiato mais forte se impõe e cala a boca pra nunca mais. Os olhos voltam para o olhar perdido, o rosto manco. A nulidade se expressa de corpo inteiro e faz do homem o brucutu ensimesmado. Já velho, ainda sente no corpo a inutilidade de sua vida, a mesma que o acometia quando jovem nas fazendas do patrão, no lido com o gado, no trato com as gentes, no sustento do gesto doce e fiel de um serviçal que com o tempo cai em mínguas por se aperceber de sua condição escrava, tão ardilosamente mascarada, que mais parece um desenho a esboçar na fumaça que há pouco ardia no mato, pra tão logo desmanchar-se.

E feito fumaça – a esboçar um desenho que nunca se fixa – o homem sem voz ao longe se esvai. O anoitecer desce em terra trazendo a polifonia cantante dos inúmeros insetos e outros bichos do mato. No teto do céu, o azul cinzento se gradua em minuciosas diferenciações de azul, roxo, lilás-rosado, pêssego, até criar alaranjadas pregas de linhas estiradas no fundo do horizonte. Uma espacialidade infinita se compõe no encontro dos sons com as cores, como se as cores fossem outra expressão das possíveis tonalidades sonoras. É aqui que o homem sem-palavra sente-se chamado a peregrinar num movimento contínuo e sem descanso, procurando enganchar-se nos sons que se apresentam: rajadas de cores em diferentes escalas, sopros de ventos abrasadores, pios e cantos de aves e insetos, rastros e movimentos dos bichos de hábito noturno, micro movimentos da vida vegetal. Da sua voz, nada. Apenas a necessidade incessante de procurar o eco que a sua garganta não é capaz de ressoar sozinha, a não ser na própria paisagem já em si sonora.

Mudo e sem palavras, é para este horizonte que ele vai, como um cavalo selvagem, louco e delirante, em galopes largos, relinchando, correndo num desvario em direção ao seu lar, tão logo, quando solto. Assim o homem de rosto manco desaparece na paisagem que o assola, levando consigo a luz ardida do dia que ainda queima através do bafo exalado pelo solo quente. Mas nele o cavalo selvagem nunca desaparece completamente. Pela noite a fora ele rodopia, dá voltas e voltas sem sair do lugar, fareja todos os odores, todos os sons e todas as cores das paisagens de cá. Corre tantas e tantas vezes, cansado, suando o pelo agora molhado. São muitas as sensações e inúmeros os efeitos quando já exausto, zonzo, insiste mais um tanto para logo, no amanhecer, escorar-se num tronco retorcido de um pequizeiro. Sob a sombra da árvore, ele pode ver ao longe um homem estirado: roupa em trapos, braços abertos, olhos fechados, boca ressequida, corpo magro em ossos. O homem-cavalo senta-se ali mesmo, ao lado do morto, e acompanha seu descanso sentindo-o por dentro. Uma sensação de matéria bruta, pesada, imóvel, privada de vida. O morto – pensa ele – é um cajuí de profundas raízes, daquelas que não há como desenraizar. Não se sabe bem há quantos meses, talvez três ou quatro do ocorrido, e a cada dia tanto mais ele se afunda no ocre do solo, feito o cajuí, aquele arbusto rasteiro que se enterra e contorce à procura de água. Morrera de morte traída; assassinato covarde. Um golpe violento na cabeça, às escondidas, fez do morto um vermelho-paralisado, escuro, quase preto, de sangue pisado. O rosto voltado para o céu, para o sol ardente, para os luares claros, exprime o sofrimento esperançoso que o levara a cair ali. Murcho apenas e seus traços saltavam à cabeça trazendo as marcas de um corpo que delirara vendo ao longe, no sertão, a ilusão maravilhosa de um seio de mar. Nem um verme se aproxima, apenas lânguido, seu corpo morto é a própria secura daqueles ares.

Tantos meses, noites e dias ao lado do morto, fazendo-o companhia, e a geografia muda de paisagem. O homem-morto-cajuí já florescera e seus frutos maduros, carnudos e avermelhados impregnam as narinas com forte odor provocando a salivação. O homem que ali escorou-se não hesita. Colhe o fruto maduro e, acocorado, o abocanha com desejo. Mastiga lentamente a polpa carnuda fazendo escorrer o suco ácido e adocicado pra dentro e fora da boca. É tanto suco preenchendo toda a cavidade bucal, de uma só vez, que por vezes escapa pelos lábios, escorre no pescoço, molha o tórax e perfuma a pele. As mãos esmagam a polpa da fruta e faz espremer o sumo que derrama pelos dedos. Na língua, uma explosão. Espécies de botões gustativos são eriçados nas laterais da língua com o ácido do fruto, ao mesmo tempo em que o doce e afrodisíaco da sua carne agitam as papilas gustativas da pontinha da língua que acaricia o alimento. Em goles largos a faringe ressequida suga o delicioso líquido com tesão, reconhecendo o seu irrigar que desde há muito não sentia. Os lábios se encaixam de tal modo na carne do fruto fazendo ereto o pênis do homem acocorado. De pau duro ele continua, abaixa o cós de suas calças de ganga e, ainda chupando o cajuzinho-do-cerrado, massageia seu próprio pênis com apetite em busca de sacio e exaustão. Colhe e abocanha outro fruto, prolonga o manjar dos deuses e acelera seus movimentos até a ejaculação. Goza intensamente por alguns segundos e, satisfeito, cai no chão o corpo todo arrepiado, oferecendo-se à prazerosa malemolência do esgotamento. Uma chuva leve, fina e calma se inicia. E junto ao cajuí o homem adormece sentindo a terra úmida que cheira a mato e bosta de um ou outro gado que se encontra por ali. Um cantarolar bem ao fundo compõe o território seguro que o embalará para um sono profundo.

Escuta-se ao longe:

Muriquinho piquinino… Muriquinho piquinino… De quissamba no cacunda… Purugunta aonde vai… Purugunta aonde vai… Pro quilombo do Dumbá…

Muriquinho piquinino… Ô parente, Muriquinho piquinino… De quissamba no cacunda… Purugunta aonde vai… Ô parente, Purugunta aonde vai… Pro quilombo do Dumbá… Ei, chora-chora mgongo ê devera… chora, mgongo, chora… Ei, chora-chora mgongo ê devera… chora, mgongo, chora…[2]

O cantarolar pouco a pouco entra em seus ouvidos, invade seus esquemas motores e anuncia o desenrolar dos sonhos num trânsito frouxo entre percepção, consciência e lembrança. A ação auditiva é cada vez mais forte ao passo que o homem, entorpecido do sono profundo, se esforça brutalmente na tentativa de abrir as pálpebras. Estas, duras como pedras, pesam sobre os olhos, exigindo todo o esforço possível e de uma só vez do corpo inteiro do homem, que treme e suspende – muito lentamente – as sobrancelhas e por fim as pálpebras. De olhos abertos e fixos para lugar nenhum, a paisagem passa a ser plano de fundo e dá lugar ao delírio dos vultos de seus antepassados que zanzam pelas terras de cá. Uma coleção de homens fortes em traje de algodão trabalha nas minas ao mesmo tempo em que pronuncia os acontecimentos da vida através de canções em língua crioula. Cantam para o moleque, que de trouxa nas costas, vai fugindo para o quilombo do Dumbá. Cantam e choram pela vida do moleque que foge, e pela prisão dos que nunca conseguirão fugir. O homem sempalavras assiste aquele delírio com curiosidade e atenção. E para seu espanto, quanto mais seu corpo acorda, menos a canção se faz audível, tornando-se apenas zumbido dos inúmeros urubus que rodeiam o corpo putrefato do mortocajuí.

E com a garganta arrochada ele se levanta bem devagarzinho. Manco, curvo e bambo das pernas. Foi-se aos bocados, parando para respirar. A angústia no peito esmagando o coração. Assim segue o homem o seu caminho para lugar nenhum. Mapeando à toa. Rumoreja uma voz íntima, consigo só, de algumas notas saídas de dentro que voltam pra dentro mesmo. Ao escutar as perdizes, responde em pios. Ao chamado agoniado da esquiva jaó, replica por meio de assobios que traz o som de um sopro falho e agudo. Aos gritos estridentes da seriema, rebate com gosto um lamento em microtons. Silencioso no mais das vezes, quando fala é para dentro. Quanto canta, o faz em pios. Quando há grito na garganta, lamenta em canto feito um gado que muge sem parar.

Um homem carregado de seus próprios animais, aquele carregado das próprias rochas.

[1] DELEUZE, Gilles. Foucault. SP: Brasiliense, 1988, p. 141-42.

 

[2] Vissungo transcrito do livro de Aires da Mata Machado Filho: O Negro e o Garimpo em Minas Gerais, publicado no ano de 1943, pela Livraria José Olympio Editora. Deste livro fizeram – anos depois de sua publicação – o disco (LP/1982) O Canto dos Escravos, com Clementina de Jesus, Tia Doca e Geraldo Filme. Vissungo é o nome que se dá aos cantos de trabalho, em língua crioula, dos escravos mineradores da região de Diamantina – MG. Clóvis Moura assim descreve em seu Dicionário: “VISSUNGO: Tipo de canto de trabalho especial criado pelos escravos no interior e na zona decadente dos garimpos em Minas Gerais, no início do século XIX. Os vissungos dividiam-se em boiado, cantado a solo pelo mestre, e dobrado, canto solo seguido de coro. Machado Filho (1943) traduz o termo “vissungo” como “fundamento”, vocábulo que até hoje, no vocabulário da dança meio religiosa e meio profana, designa o sentido oculto dos versos cantados em forma de metáfora. Isso se explica pela necessidade dos escravos de se comunicarem sem serem entendidos pelos brancos, como desejo de preservação de sua cultura e de seus costumes.” MOURA, Clovis. Dicionário da Escravidão Negra no Brasil, 1. Ed., 1. reimpr. – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2013.