Arte negra tecnovisionária: re-existência e autodeterminação

Maria Fernanda Novo

[As respostas da arte negra para as urgências do mundo não se limitam ao contexto de catástrofes e pandemias. A arte negra denuncia há muito tempo o racismo como forma de governo e controle social. É pela habilidade de expressar com rapidez e eficácia os tormentos de um mundo racista que a arte negra delineia formas de ser e sentir enunciadoras de uma utopia crítica. A urgência de respostas organizam experiências estéticas, que também são formadoras de identidades insubmissas ao projeto de dominação racial.]

 

O objetivo deste texto não é falar sobre o papel da arte negra e dos artistas negros para redenção de um mundo em agonia. Também não é repassar propostas teóricas sobre o que é e o que pode ser a arte negra, em sua diversidade e complexidade. Arte negra aqui se refere àquela que promove a diluição das fronteiras que separam arte da vida e política da estética. A pandemia do coronavírus é um corte nos fluxos naturalizados das opressões e do racismo, mas também é sua reposição em outra roupagem. A reordenação do cotidiano em função do isolamento social já é o bastante para alterar os circuitos da violência. Acontece que não existir cenas de racismo nas ruas dos bairros ricos e de classe média, promovidas pelas mais corriqueiras relações sociais ou pelos agentes do estado, não quer dizer que o racismo desapareceu. As ações brutais de violência promovidas pela polícia e os assassinatos de crianças, jovens e adultos pretos nas periferias das cidades brasileiras continuam acontecendo de maneira escancarada. A polícia militar e miliciana continua executando o plano de extermínio da população negra e periférica. O coronavírus atualizou as táticas do genocídio. Além disso, o racismo está, certamente, se repondo em algum lugar do inconsciente de cada um que ainda não revisou seu privilégio. No contexto de pandemia o negro passou a ser visto também como uma ameça biológica. O projeto racista não tem limites e não terá fim até que uma racionalidade e sensibilidade, alargadas pela complexa experiência das múltiplas formas de ser no mundo, refaçam tudo o que os indivíduos precisam para continuar vivendo juntos. Este texto foi estimulado pelo desejo de destacar na arte negra elementos que favoreçam o reconhecimento e criação de modos de ser e sentir mais apropriados para re-existir num mundo que já está há bastante tempo em desintegração.

A arte negra aqui representada pela música de Baco Exu do Blues e pela dança da Ana Pi é a realização de uma utopia no presente, na medida em que comunicam a complexidade e a força do ser negro na condução de um modo de vida e uma consciência própria. Isso significa não fazer destes artistas caras pretas de um sistema de arte branco. Ao contrário, evocam a necessidade de reconhecimento que o sistema branco é a falência de um mundo que planejou a racialização como dispositivo de atualização das estruturas de dominação econômica e social. A arte negra combina tecnologias ancestrais e digitais para criar para os próprios negros os sentidos de uma existência marcada pela tragédia da violência, ao mesmo tempo que reforça uma identidade singular, que não foi aquela previamente definida pelos brancos, para então promover uma vida plena de sentidos sobre si mesmo e sobre o mundo ao redor.

 

Arte-fato, sem tempo para lamentos

A pandemia deixou ainda mais latente as tensões raciais. Quem pode fazer isolamento social? Quem tem obrigação de trabalhar na quarentena? Quem realiza os serviços essenciais de abastecimento, saúde e segurança? Essas são questões estão contidas numa outra ainda e mais primordial questão, que é o cerne da colonialidade remanescente no estado brasileiro: quem tem o direito de viver e quem deve morrer? A resposta à esta pergunta resume a história da população negra do Brasil. O país com a maior população negra fora da África, resultado de um projeto colonial, escreve sua história com o sangue milhares de negros e indígenas.

No Brasil, o número de mortes por covid-19 entre a população negra aumentou exponencialmente num momento em que o isolamento social nos bairros periféricos dos grandes centros é parcial, em função da natureza dos postos de trabalho ocupados por esta população[1]. O governo federal não produz dados suficientes sobre os efeitos do covid-19 na população racializada, e só se manifesta sobre esta questão quando pressionado por entidades como a Sociedade Brasileira da Família e Comunidade, a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, o Instituto Luiz Gama e a Defensoria Pública da União[2]. A falta de interesse do governo federal para assumir a raça como fator de risco na pandemia é mais um caso da escolha do estado brasileiro em ignorar a responsabilidade da reparação social e histórica para reverter o quadro de desigualdade social entre negros e brancos no Brasil.

A vulnerabilidade sanitária e econômica da população racializada que passa a sofrer e morrer mais pelo contágio de covid-19 e, portanto, ser potencial vetor de transmissão do vírus pode facilmente se converter em justificativa para ações de isolamento territorial e controle social. O Estado com a pandemia mata duas vezes a população negra e periférica: uma vez passivamente pelo descaso e outra vez na execução de um plano de extermínio. A polícia vai continuar matando os jovens negros na periferia, agora porque os jovens são potenciais vetores de transmissão. O racista agravará sua violência sobre os negros, porque os negros são potenciais vetores de transmissão. No fundo, em qualquer que seja o contexto social, político, econômico, sanitário tudo é justificativa para o controle sobre os corpos e para a violência racista. O coronavirus é mais um argumento para a manutenção do racismo em suas diversas versões.

Qualquer movimento de resistência neste momento sofrerá de deficit político se não denunciar o racismo do mesmo modo como projetam as demandas sociais como renda básica, anistia de contas, greve de aluguel, etc. O deficit político também é fruto de uma racionalidade forjada pelas estruturas de dominação que naturalizam a diferença opressora, instauradora da incompatibilidade entre humanos. Para entender o racismo como estrutura de uma racionalidade é preciso entender a diferença não pelo gozo e pelo estase, mas pela opressão. A diferença em sua sombra é a opressão com a qual a racionalidade racista define e estrutura o mundo. É esta mesma racionalidade que arbitrariamente define o sujeito negro dentro do utilitarismo costumeiro, que aprisiona a identidade numa forma favorável à manipulação, que julga o outro para facilitar a manutenção dos seus mais prosaicos privilégios.

A denuncia desta racionalidade viciada em poder tem vida longa na história nos territórios da diáspora afro atlântica. A consciência de si como sujeito escravizado é a re-existência que os brancos sempre temeram, da Revolução haitiana à Palmares, das margens de rios às quebradas, do blues ao candombe, da cumbia ao hip-hop. Re-existir exige o reconhecimento da plasticidade do sentir, de ser afetado, de ser um eu que não se reconhece nas teses de um sujeito abstrato e universal. O corpo racializado, por sinal, está muito mais apto a reconhecer seus sentidos e sua razão em expansão porque a abundância dos seus afetos é alimentada pela utopia de um corpo livre de violências. A arte negra é aquela que mais velozmente responde aos efeitos do desajuste, do descontrole e do imprevisível porque é a expressão de uma racionalidade que assume um sentir ampliado, justamente porque o sentir deve ser outro, não mecanizado pela moral limitadora da falsa alegria dos privilégios.

Bacu Exu do Blues se torna o poeta máximo da pandemia quando lança o álbum Não tem bacanal na quarentena. O artista incorpora nas letras a urgência de criar uma sensibilidade atravessada por emoções carregadas de gestos políticos e organizadora da insólita experiência do isolamento. Até o bate panela – que obviamente fracassou na tentativa da esquerda incorporar como símbolo de protesto – da música Tudo vai dar certo, quando transformada em sample, crava a revolta popular que extrapola a pandemia, diante do governo mais nefasto da história do Brasil. A música do Baco é a realização de um ideal de re-existência porque é extensora da sensibilidade bem como promotora de sentidos políticos para a arte. Sim, promover um sentido político para a arte está na essência do hip-hop. A letra de O Sol mais quente é uma celebração da raça negra ao mesmo tempo que a denúncia do projeto político, ético e estético da branquitude que insiste em ignorar o óbvio, o seu próprio fracasso que desmorona tal qual um reinado de prédios.

O Sol mais quente

O sol mais quente deixa tudo claro
Mas eu continuo escuro
Eu sinto que vou descobrir quando chegarmos ao fim
Quando brancos olharem como escravos pra mim
Minhas dores gritam no meu grito exausto
Corpo casto, corpo gasto
Negro filho do sol, nasci astro
Leia na noite do meu corpo seu signo
Me siga dos bons aos cínicos

Destruindo seu reinado de prédios
Me sinto o Tim Maia
Então chame o síndico
Só gesticulam, são mímicos
Cômicos e cômodos
Seus rapes não pisaram na rua
E nesse quesito, sou Apollo Creed
Sou Apolo 11
Me sinto palmitando ao pisar na lua

Outro nível lírico
Minha pele é a epiderme terna boreal dos corpos celestes
‘Cê quer ouvir a voz de Deus, então vá ao Nordeste
E escute o povo
Bote o ouvido na terra e escute o mundo

Coronavírus me lembra a escravidão
Brancos de fora vindo e fodendo com tudo

A última estrofe desta música construída como denúncia, protesto e lírica é uma revisão pedagógica da imagem que a razão negra tem do que é a missão colonialista que organiza o mundo afro atlântico da diáspora. A música é a síntese do desejo de construir a si mesmo assumida pelas identidades negras. O negro que se recusa a ocupar a função que lhe atribuíram e vive pela construção de um a identidade própria, que não é estática como querem os racistas, mas é dinâmica, e está em constante transformação.

Paul Gilroy em O Atlântico Negro faz um importante trabalho de reconhecer na arte negra, em especial na música, os atributos de um meio privilegiado para assumir e explorar sua potência de criação e de sentidos, estético e político. “A música e seus rituais podem ser utilizados para criar um modelo pelo qual a identidade não pode ser entendida nem como uma essência fixa nem como uma construção vaga e extremamente contingente a ser reinventada pela vontade e pelo capricho de estetas, simbolistas e apreciadores de jogos de linguagem. A identidade negra não é meramente uma categoria social e política a ser utilizada ou abandonada de acordo com a medida na qual a retórica que a apoia e legitima é persuasiva ou institucionalmente poderosa. Seja o que for que os construcionistas radicais possam dizer, ela é vivida como um sentido experiencial coerente (embora nem sempre estável) do eu [self]. Embora muitas vezes seja sentida como natural e espontânea, ela permanece o resultado da atividade prática: linguagem, gestos, significações corporais, desejos.”[3]

O caso de Baco Exu é notável desta construção descrita por Gilroy, porque além de assumir a construção de uma identidade singular também é capaz de organizar as tensões que estão em jogo no plano social onde os negros precisam disputar desigualmente espaços de existência. Os poderosos beats de Baco Exu combinados com uma poesia altamente expressiva são a cumplicidade entre o terror racial e a razão que se quer liberta, e não submissa ao que o mundo branco projetou para os negros. É sobre a esta percepção de um eu feito à mão que se constrói a identidade e que instaura a subjetividade negra. A música é, por excelência, o meio de re-existência nos territórios afro atlânticos da diáspora.

As renovações musicais constantemente produzidas pelos artistas negros expressam a música como elemento aberto às transformações técnicas e culturais. A música é organizadora da difícil tarefa de pensar a transmissão de tradições culturais. Tradições que devem ser pensadas não como algo imutável, pertencente à uma essência fixa, mas sim como um centro que irradia e deflagra novas concepções estéticas e novos modos de organizar a experiência do presente. É notável o confronto com a racionalidade moderna que quer das tradições africanas algo fixo, talvez, para melhor manipulá-las. Mas, no caso da música é a partir da tensão que se produzem novas expressividades, novas linguagens que muito facilmente combinam tecnologia digital e tecnologia ancestral. “Novas tradições tem sido inventadas nos confrontos da experiencia moderna, e novas concepções de modernidade produzidas na longa sombra de nossas resistentes tradições – as africanas e as forjadas a partir da experiencia escrava, tão poderosa e ativamente lembrada pelo vernáculo negro”[4]. No limite, o conjunto técnico não pode ser pensado sem o multifacetado conjunto cosmológico que organiza a experiência negra da diáspora.

Interseccionando ancestral e digital

Refletir sobre a arte negra é um modo de conhecer muito mais próximo da realização de uma polirracionalidade tão temida pelas epistemologias universalistas. No Brasil de maioria negra, a arte produzida pelos artistas negros é a minoria a entrar na catalogação das artes institucionalizadas. Mas, a despeito dos salões, galerias, teatros e academia a arte negra continua sendo produzida e consumida por quem faz da rua (e também das redes) palco e plateia. Por isso, a rua é o lugar por excelência da arte negra, onde música e dança são produtos de um processo simbiótico que faz do corpo em movimento e da voz ritmada matéria de alta densidade expressiva. A dança como a música é um modo de existência que se constrói a partir de um corpo que recusa o automatismo e que se abre a uma escuta de si e do mundo ao redor. É também um corpo que se compreende como resistência, que com seus gestos e movimentos interrompe a repetição do trauma e desafia as estruturas de dominação com sua polissemia. O corpo que dança reorganiza não somente o trauma inicial que foi a escravidão mas também a máquina de trauma que são a exclusão social, a necropolítica, o racismo estrutural e o permanente e cansativo combate contra o racismo nas relações sociais e afetivas.

As danças urbanas performadas pela artista contemporânea Ana Pi na peça DRW2 (2015) nascem da urgência de comunicar e pela urgência de elaborar as violências e opressões do corpo negro. Estas danças presentes nas periferias das grandes cidades ao redor do mundo se relacionam com as violências de seus contextos sociais. São estes lugares marcados pela colonização, como nas cidades africanas, ou pela colonialidade nos centros urbanos de toda a América que inauguram a periferia como zona de conflito, repaginando as violências produzidas pela dominação territorial e racial de diferentes períodos. A violência comum a estas experiências deflagra um corpo que se comunica pela dança, pelos gestos e expressividades.

É muito importante dizer que a racialização não é uma escolha, e os negros nos territórios da diáspora lidam com a herança eugenista de uma maneira muito íntima. Neste sentido, vale lembrar da ideia bastante difundida de que o negro não tem acesso as histórias dos seus parentes distantes, nem a certidão de nascimento dos seus ancestrais escravizados. Estou falando sobre a violência da escravidão e sobre seus fantasmas, por onde vemos separações de famílias, suicídios e um profundo trauma coletivo, resultado numa permanente política de racialização, ainda responsável por mediar nossas relações e por estruturar as instituições. Falo do terrorismo de estado incorporado como forma de governo, que extermina sanguinariamente jovens negros, e também de um permanente processo de desagregação subjetiva a qual está submetido os pretos no Brasil. Isso obriga a subjetividade a inventar-se, a criar para si um corpo que deseja ser o que quer ser, e não ser o que o outro, o racista quer ele e ela sejam. A dança é, então, a forma de conduzir a construção de si, re-existindo num mundo que nos lembra o tempo todo da violência.

Achille Mbembe denomina essa construção de si de autodeterminação, conceito aqui oportuno que informa sobre um gesto vital que opera também na readequação da ideia de identidade. Em A critica da razão negra, a autodeterminação é um conceito utilizado para delimitar que a condição racializada do indivíduo negro exige um trabalho permanente de afirmação de si face aos três fatos determinantes para a consolidação da raça como discurso histórico e como realidade social. Escravismo, colonização e apartheid correspondem ao tripé que sustenta um tipo de aprisionamento ao qual a definição do ser negro está submetida. São estes fatos históricos e políticos que determinam a tal ‘condição humana’ ou a sub-representação humana a que o indivíduo negro terá acesso.

Uma primeira consequência vivida pelo corpo negro é a separação de si mesmo, resultado de uma identidade fragmentada, superposta inerte e alienada; deste modo, o indivíduo deixa de se reconhecer, de tomar para si o desejo de construir sua própria identidade, forçado por um “espetáculo de cisão, de desmembramento”[5]. Em segundo lugar, o corpo negro é marcado pela desapropriação, consequência da interdição jurídico econômica, que ao mesmo tempo impõe o aviltamento material e a submissão caracterizada pela imposição de uma identidade forjada pelo outro. Acrescenta-se como a última característica a condição servil, que culmina na morte civil simulada pela “[…] negação da dignidade, pela dispersão e pelo tormento do exílio. Nos três casos fundadores que foram a escravidão, a colonização e o apartheid terão servido de centro unificador do desejo do negro de se-saber-ele-mesmo (o momento da soberania) e se-ter-a-si-mesmo no mundo (o movimento da autonomia)”[6]. Ambos os movimentos de soberania a autonomia estão presentes na arte negra que dilui a fronteira entre arte e vida.

O filme NoirBLUE da Ana Pi expressa uma elaboração estética e política que reorganiza a identidade negra da diáspora. No filme média metragem de 27 minutos a artista narra em primeira pessoa sua experiência de pesquisa e viagem por diversos países no continente africano. Mas, ao contrário de um relato de viagem do tipo missionário que procura observar quem é o outro para melhor descrevê-lo – para provavelmente dominá-lo -, o relato de viagem se transforma num mergulho sobre a memória sobre ser negra, presente no corpo da artista. A dança é também um modo de levar adiante a potência da autodeterminação organizadora de uma experiência mais próxima de um reconhecimento de si.

Existe no filme não apenas um encontro de culturas que se reconhecem na raiz que está nos pés dos bailarinos, mas também um encontro de tempos e de tecnologias. É interessante como Gilroy circunscreve essa combinação: “o debate corrente sobre a modernidade ora gira em torno das relações problemáticas entre política e estética, ora em torno da questão da ciência e de sua associação com a prática da dominação. Poucos desses debates operam na interface da ciência e da estética, que é o ponto de partida necessário da expressão cultural negra contemporânea e da tecnologia digital de sua disseminação e reprodução social” [7]. A tecnologia ancestral africana que atravessa o corpo numa dança de guerra convive e se combina com as batidas eletrônicas pulsantes da música que anima a cena da batalha de bee-boys em Abidjan, Abobo, na Costa do Marfim. São gênios que voam, como define Ana Pi. São gênios futuristas encarnados em pessoas que re-existem e refundam suas vidas em terrenos mais férteis do que o da subordinação colonial. O uso das tecnologias ancestrais e digitais que fazem encontrar passado e futuro, falam muito sobre o presente, justamente porque é vivido como passagem, porque é dele que precisamos sair vivos. Num diálogo que antecipa uma cena de aula de dança com um bailarino a artista narra: “- Se você nunca veio aqui, como é que você já conhecia? – E dançando eu respondo: porque a gente está no futuro. E no futuro nós falamos com nossas próprias bocas”. Nesta obra que se compõe de dança e cinema as imagens são resultado da sobreposição de outras imagens que vagueiam entre tempos, são imagens tecnovisionárias que elabora no presente a língua que falará a boca no futuro. Isso lembra a máxima de Èsù, entidade coroada em África, que diz: Exu matou um pássaro ontem com a pedra que arremessou hoje. A força desta expressão rasga a linearidade da sucessão temporal. O gesto de hoje retorna ao passado como realização da história e como invenção do que ainda não aconteceu.

Construir uma identidade feita à mão é também construir imagens que atravessam o tempo. Quero dizer com isso que a autodeterminação tem uma relação direta com a produção de imagens. Imagem que não pode ser reduzida a um efeito da representação, mas sim entendida como composição do inconsciente, como aquilo que dá contorno ao pensamento, ou como aquilo que habita nossos sonhos. É preciso que o inconsciente seja liberado para sonhar outras identidades. Isso também significa alimentar a arte e a produção de conhecimento com outras imagens. Estou pensando no que a catalogação institucional produz como cânone, obras de referência fundadoras disso, daquilo e de alguma outra coisa. Estou falando da refundação dos acervos imagéticos e epistemológicos que fundam as instituições que nasceram ‘gloriosas’, mas cujo fim se anuncia agonizante. Refundar as instituições só acontecerá se refundarmos os sentidos e isso não será possível sem um engajamento comum, sem sonhos ou delírios compartilhados.

Quem tem coragem de perguntar para si: em que se ancora meu desejo e minha vontade de saber? Quais exemplos mobilizo quando tento criar um pensamento e uma estética? Qual a arte sonha com as periferias? Não com o que esse lugar produz pela falta de algum critério de uma suposta boa razão ocidental, mas com a abundância e complexidade que lhe são próprios. Será que as poéticas periféricas não trazem informações preciosas sobre nossa realidade, nossos afetos, nossa maneira de ver, sentir e pensar? No presente distópico a arte negra tecnovisionária anuncia uma utopia possível. Se ela é a mais hábil e competente a dar respostas a um mundo desajustado é também a mais apta a desenhar as linhas de um projeto de futuro.

 

 

[1]O levantamento dos dados sobre as mortes por Covid-19 entre a população negra está disponível na reportagem da Agência A Pública, https://apublica.org/2020/05/em-duas-semanas-numero-de-negros-mortos-por-coronavirus-e-cinco-vezes-maior-no-brasil/

[2]A Defensoria Pública e o Instituto Luiz Gama são autores de uma ação na Justiça Federal do Rio de Janeiro, que determinou que o Ministério da Saúde divulgue os dados de raça nos casos e contágio e óbito por covid-19. Ver reportagem do DataLab https://datalabe.org/falta-de-dados-raciais-no-combate-a-covid-19/

[3]GILROY, P. O Atlantico negro : modernidade e dupla consciência. São Paulo, Editora 34, 2001, p 209

[4]Idem, p. 208

[5] MBEMBE, A. Critique de la raison negre. Paris: La Decouvert, 2013, p. 119

[6] Idem

[7] GILROY, P. Op. cit., p. 165