TUDO OU NADA

Sato do Brasil

Tudo ou Nada

 

Sato do Brasil

 

 

Acabou o senso comum da cordialidade. Esquece. Na verdade, nunca aconteceu. Balela. Piada. Avacalhação. O Brasil sempre foi dividido, esquartejado. Sempre.

 

Primeiro, meteram uma linha pra definir o contrato da divisão do genocídio e destruição em massa. Espanhóis prum lado, portugueses, do outro. E lá vai sangue derramado de indígenas, um a um, como patinhos em stand de tiro de festas do interior. Milhares, milhões.

 

Depois foi a imensa população de escravizados, arrancados de suas terras, pra servir de capacho pra nova ordem mundial. Destruiram suas memórias, suas crenças, seu modo de vida, seus laços. E lá vai sangue derrubado de negros e negras, um a um, uma a uma, como latinhas de ervilhas na barraca das nossas festas juninas. Milhares, milhões.

 

Essa partilha genocida é espelhada em nossos dias. Continuamos a patrocinar essa política assassina. A gente pode nem apertar o gatilho, mas somos permissivos em uma sociedade que aparta uma parte dela, colocando a faca e o rifle na mão da outra, fecha os olhos e vai dormir o sonho dos justos.

 

  1. Divide-se.
  2. Isola-se.
  3. Empodera uma delas.
  4. Constrói o medo.
  5. Alimenta o preconceito
  6. Semeia o ódio
  7. Inventa um messias.

 

A pandemia é resultado disso tudo. A construção desenfreada pelo fortalecimento do capital. A usurpação econômica das grandes corporações financeiras. A política genocida centrada no racismo, no machismo, no preconceito e no ódio. A valorização exacerbada do pensamento consumista. A destruição sistemática dos biomas e da vida selvagem no planeta em nome do progresso. O aparecimento de novas doenças a partir da invasão da colonização humana em territórios isolados.

 

Cria-se um monstro. Esse monstro tem várias caras. Verme ou vírus. Brasil 2020. Um governo inumanista, negacionista e genocida aliado a um vírus letal. A bomba-relógio é o prenúncio da tragédia. Perderemos amigos, familiares, referências e vizinhos. Infelizmente.

 

E agora é tudo ou nada. Ou retomamos as rédeas de nossos destinos ou vamos começar a nos despedir da existência neste planeta. Ou valorizamos as verdadeiras redes de sabedoria, populares e acadêmicas, construindo teias de novas tecnologias sociais colaborativas e coletivas ou estamos fadados a destruição da sociedade contemporânea como conhecemos. É chegada a hora.

 

É tudo ou nada. Dentro ou fora. Fora ou dentro. Neste momento de isolamento, é a hora de inventarmos um novo mundo de verdade. É a hora de olhar para o lado e ver quem está conosco, quem não desiste, quem enfrenta os medos e progride, quem chora quando tem que chorar mas grita quando tem que gritar e silenciar quando silenciar é preciso. É a hora de recriar elos de amor e violência para dissolver as velhas pragas, revolver as terras para fazer nascer uma nova condição de pertencimento. É a hora do sonho acordado, da utopia atípica, de um futuro encravado de verdade, ousadia e empatia.

 

É tudo ou nada.