OCUPAÇÃO NA OCUPAÇÃO

Aos Amig@s

Fabiane Borges[1]

 OCUPAR, num sistema capitalista, NÃO É BUSCAR NOVIDADE.

OCUPAR é aceitar que TUDO ESTÁ FORA DE CONTROLE.

 OCUPAÇÃO NA OCUPAÇÃO

Não é novidade o que estamos fazendo. Busca de novidade é coisa de capitalista doente! Também não somos coletivos revolucionários ou artistas engajados politicamente, que querem fazer atos políticos contra ALCA, colocar máscaras ou ser os famosos Okupas ou Stakers – Nada disso – somos totalmente dispersos, lutando para pagar conta telefônica e aluguel no fim do mês. Mas pra além disso, algo está no ar. Estamos cansados de galerias e museus e do jeito que a “Criação” é cooptada por bancos, indústrias petrolíferas e Serviços comerciais.

Já havíamos nos encontrado algumas vezes em eventos de arte paulistana como Casa das Rosas, sesc Pompéia, Itaú cultural até que aconteceu na casa de uns “artistas angustiados” , uma  reunião de amigos – muitos amigos – cada qual representando um grupo ou coletivo de arte e intervenção urbana.

Algo aconteceu nesse encontro: uma vontade de intervenção coletiva, de fato! Mas o que poderíamos fazer, pra além de ficar colando lambe lambe nos muros, pinchar a ponte, pedir por horizonte em túneis  claustrofóbicos, fazer rituais noturnos com meninos de rua, cada qual com seu grupo?

Não sabíamos…

Então surge em nossa frente a Ocupação Prestes Maia: MSTC.

“Paralisamos diante desse prédio imenso, que parece o negativo de uma foto dos prédios a sua volta. Prédio ocupado por 2000 pessoas. Enorme favela vertical situada na Crackolândia – centro de São Paulo. Ocupação MSTC”.

 

O que é o MSTC?  Segundo eles mesmos: “O Movimento Sem-Teto do Centro é uma articulação de grupos de base e de Associações de Moradores das ocupações e projetos já conquistados. É um espaço de formulação de propostas e de lutas por moradia ao mesmo tempo em que procura se articular com outras lutas populares organizadas pelo movimento social” [2].

 

O que é o MSTC segundo nossas constatações empíricas? Um movimento muito potente coordenado basicamente por mulheres, que para além de exigir moradias, invadir prédios abandonados, fazer passeatas e zelar pela democracia instituída, traz em si a força da mobilização, do enfrentamento e da criação de modos de existências coletivas. Pra além das linhas endurecidas de um movimento social político, percebemos amolecimentos de códigos e estruturas , produções inventivas: Vidas em Criação.

 

Ao compreendermos com que forças estávamos lidando, Ocupamos o prédio Ocupado. Ocupação Prestes Maia. Ocupação na Ocupação.

 

25 de Novembro de 2003:

Centenas de amig@s artistas, ativistas, curiosos recebem em suas caixas postais uma espécie de convocatória do MSTCCC, Movimento Sem Teto Centro Cultura Contemporânea: “Provocamos esse grande encontro de CRIAÇÃO e MOVIMENTO por acreditarmos que temos experimentado grande potência nessa aproximação – potência de multidão – com força de interferir no rumo normal das coisas”.

A idéia é que tivesse um final de semana para um grande encontro – 13 e 14 de dezembro, mas que a ocupação se desse desde já. E se deu!

Muitos encontros no prédio, reuniões em assembléia de moradores, estudo histórico do prédio, passeios pelas escadarias, visitas nas casas, histórias tristes, alegres, encontros transformadores, brincadeiras com crianças, danças com jovens, visita aos “andares das velhinhas”, risadas, encantamentos, sofrimentos, culpa, potências; na medida que fomos conhecendo a vida que pulsa nessa ocupação fomos nos entregando a uma vontade voraz de “acontecimento”.

Poucos dias depois conseguimos fazer o primeiro encontro com todos os artistas, ativistas e curiosos. Final de semana intenso de visitação no Prestes Maia. Artistas que nunca tinham entrado numa ocupação se depararam com uma grande obra de arte. Não era preciso muita explicação, todos perceberam a intenção do encontro: andar pelos andares, pelas escadarias, sentir cheiros de merda, mijo, café, sabão em pó. _ Meu trabalho certamente será com cheiros, disse cheli Urban, uma das artistas. A intenção era “fazer arte” no seu sentido mais amplo, a partir desse encontro com o OUTRO, esse  estranho que não cabe em circuitos de artes.

Momentos intensos de aconchego naquele prédio de tanta história: história de incêndio (quatro andares), assassinato, suicídio, ocupação, trabalho, comunidade, crianças correndo, jovens andando de patins no oitavo andar, pessoas de casas de tábuas coloridas, bambus e lonas pretas como porta. O prédio e seus moradores já é uma instalação que se abre para esse  OUTRO que somos nós. Como voltar a insipidez do objeto na parede nua?  Nossa vivência nessa ocupação nos cravou a pele e nos fez sangrar. Reagimos arranhando as texturas das paredes e das casas e das almas criando arte de contato, amplificação – Intensidade molecular.

Dona Romilda diz no primeiro encontro dos artistas, ativistas e curiosos: _Arte, artista, não sei nada disso, não sei nem falar, não sei conversar, nem sei o que estou fazendo aqui mas fiquei emocionada. Romilda – a cozinheira das festas dos sem tetos, cheia de tricôs, crochês e broches, feitos por suas mãos, diz que não é artista…

Mariah, a que faz a biblioteca e escreve peças de teatro à luz de velas, quando fica sem luz, fala em adrenalina quando se refere ao momento da ocupação – quando se entra pela primeira vez num prédio. Cibe, a travesti coordenadora do décimo quarto andar que fala em amor pelos vizinhos e carrega um filho pela mão, do tempo que ainda era homem. Seu Getúlio, judeu de tapa olho que conta suas histórias de guerra do outro lado do mundo. Jéssica, menina de cabelos longos que sonha ser atriz e atua ininterruptamente pelos andares, e nós com ela. São muitas histórias fascinantes absolutamente ignoradas.

Não é novidade o que fazemos, nem é consensual, nem a coisa mais intensa que já se fez; não se trata de estética da miséria, nem a revolução dos artistas latino americanos, nem de salvação aos Sem Tetos do Brasil. Está mais para interferência na cultura, retomada da experiência vivida em toda sua força, uma dose de Crueldade!

Como diz Artaud no suicidado da sociedade[3], Porque tudo em Van Gogh é mesmo isso, o único escrúpulo do toque surda e pateticamente aplicado. A cor plebéia das coisas, mas tão exata, tão amorosamente exata que não existe pedra preciosa que possa atingir sua raridade.

Últimas notícias: O prédio foi ocupado por muitos artistas no decorrer da primeira semana. Já tem oficineiros de teatro, música com algumas meninas agora já contatadas com uma gravadora interessada; conversas e visitas de ongs que atuam junto à travestis, gays, lésbicas e saúde reprodutiva propondo trabalhos; organização por parte dos moradores de grupos de dança e teatro que já existiam no prédio e que agora voltam aos ensaios; mulheres mostrando orgulhosas seus trabalhos de artesanato e fazendo alguns outros, envolvidas no processo de criação coletiva. O que será que vai acontecer? Talvez nada, talvez isso tudo seja empolgação momentânea e logo esquecimento, nada muito diferente do que cursos de um mês dado por uma instituição qualquer. Mas o fato de estar tantas pessoas envolvidas com arte e criação no Movimento Sem Teto já é por si só um “acontecimento”, e indubitavelmente uma experiência profunda para todos que estão participando.

OCUPAR, num sistema capitalista, NÃO É BUSCAR NOVIDADE.

OCUPAR é aceitar que TUDO ESTÁ FORA DE CONTROLE.

[1] Fabiane Borges do Coletivo Catadores de Histórias, mestranda em Psicologia Clínica –Puc SP  – Coordenadora do evento “Ocupação na Ocupação”  junto com Túlio Tavares da Nova Pasta. Fotogragia: Rafael Adaime (Catador de Histórias).

[2] www.sem-teto.rg3.net

[3] Artaud, Antonin. Linguagem e vida, E. Perspectiva AS. São Paulo. 1970, SP, Brasil Texto: Van Gogh o suicidado da sociedade.

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