BRASIL#1

por Daniel Lima

ou a incrível e obscura associação da escravidão, religiosidade católica, poder jurídico, assassinatos, polícia, blindados, carnaval, futebol, cirurgias plásticas, cesáreas, antidepressivos, agrotóxicos e biodiversidade no Brasil Mundo. 

A cartografia Brasil#1 pretende dar instrumentos para uma visão panorâmica do estado excepcional que vivemos no Brasil hoje, que se reflete em diversas dimensões da vida, e sua conexão com a história de colonização das Américas.

 

Introdução

Os brasileiros têm a máxima  ‘o mais grande del mundo’ –  brincam os amigos argentinos. Mas em quais aspectos o Brasil é o número um? Encarar o desafio de criar relações com números e estados de coisas, partimos. Faremos um exercício cartográfico, com uma sequência que pode ser refeita conforme a intenção do leitor. O objetivo em ordenar tais lideranças é revelar como o nosso passado se expressa no presente e para onde caminhamos. Relacionar dados macro políticos para uma interpretação micropolítica que afeta a todos.

Os números são assustadores. Assustam as marcas traumáticas da colonização e os reflexos da extrema violência da nossa realidade atual. Como pensar no futuro em um país com verdadeira epidemia de assassinatos? Como nos tornamos um país genocida por meio do controle exercido pelas forças policiais?

A maior escravidão do planeta gerou uma das maiores exclusões sociais de muros visíveis e invisíveis. Temos a maior frota de veículos blindados civis. Blindagem, um recurso militar de proteção sendo usado na cidade. Assusta também a ruptura com o nosso corpo vibrátil: o ideal colonizado versus o corpo vivo. Temos no Brasil o maior número de cirurgias plásticas, o maior uso de remédios antidepressivos e de controle de humor, a maior quantidade de partos por cesarianas e, retornando ao corpo morto, o maior número de assassinatos. Uma história de negação de si mesma como sociedade, como nação. Autoestima e reconhecimento particularmente conflitivas nos contextos de países colonizados onde o padrão de vida, conhecimento, verdade foram trocados com a eterna presença do colonizador, em um encontro sempre devedor de sua própria existência. A Igreja como um dos principais vetores de imposição do padrão europeu de beleza, de verdade, de construção de mundo. A Igreja, ‘o’ principal vetor da colonização? Diante da visibilização de uns, a invisibilização da maioria.

Os números da polícia e do judiciário também assustam, um pela sua letalidade brutal e outro pelo seu imenso poder, o poder de manter tudo como está – controle – baseado na autonomia sem transparência. Corpo jurídico para manutenção da injustiça. Cada juiz um poder, cada policial um juiz da morte. O Estado Policial construído nos mínimos detalhes. A prática letal e ilegal das forças policiais conjugadas com a conivência judicial forma uma sociedade genocida. Genocida, em relação à sua população mais vulnerável: jovem, negra e pobre. O racismo constituinte da sociedade se expressa não somente na exclusão social, mas no corpo violentamente assassinado. É preciso dizer e redizer isso de novo. De novo e de novo…

Mas nem tudo está dominado, as histórias funcionam também ao revés, se a contrapelo a escovamos. A catarse do futebol e do carnaval tornaram-se símbolos nacionais e lideranças mundiais. Alienação, espetacularização, profanação a sublimar a moral cristã. O vira-latas se torna rei do mundo!

O binômio ‘país que mais usa agrotóxicos no mundo’ versus ‘a maior biodiversidade do planeta’. O capitalismo do lucro sem fim, da terra sem fim, do latifúndio eterno, vale tudo, até se envenenar em morte lenta cancerígena. Agrotóxicos proibidos no mundo todo, aqui estão disponíveis ao agronegócio.

Deixamos de fora muitos números e lideranças: Brasil, o maior produtor de café, por exemplo. E nos deparamos com outros mitos: não temos a maior taxa de juros do planeta. Guardamos para outro estudo índices alarmantes que tem crescimento contínuo nas últimas décadas e que já alcançam a indesejada posição de destaque mundial: um dos maiores encarceramentos e sistemas prisionais. Temos a quarta maior população carcerária do mundo, atrás apenas de países mais populosos como EUA, China e Rússia.

Cada um dos apontamentos abre para outras linhas que, em alguns casos, são concentradas em blocos autônomos, como a maior quantidade de assassinatos no mundo, que se desdobra em outro extremo: a maior quantidade de assassinatos de travestis no mundo.

Escolhemos assuntos que potencializam a construção de uma narrativa sobre nossa história americana. Pontos delimitados que propiciam conexões para formação de diagramas cartográficos. Aqui a cartografia toma corpo como um exercício de “associologia” como propõe Bruno Latour: (….) Estas pesquisas não dizem respeito à natureza ou ao conhecimento, às coisas-em-si, mas antes a seu envolvimento com nossos coletivos e com os sujeitos. Não estamos falando do pensamento instrumental, mas sim da própria matéria de nossas sociedades.[1]

A pesquisa considerou índices dos últimos 5 anos, de forma que algumas estatísticas são “conquistadas” entre 2012 e 2017. Destaca-se o ano de 2013, talvez por reproduzir estatisticamente o auge econômico do ano precedente de 2012.

Soma-se aos índices atuais, visões historicamente criadas como a maior escravidão do mundo. A intenção é poder abrir um caminho de relações temporais não-cronológicas que podem ser lidas de trás para frente, do passado ao presente ou simultaneamente. Esta cartografia pretende dar instrumentos para visão panorâmica do estado excepcional que vivemos no Brasil, que se reflete em todas as dimensões da vida hoje, e sua conexão com a história de colonização das Américas. O Brasil passa a ser ponta de lança das tendências do novo capitalismo financeiro e cognitivo. A cartografia pode se desdobrar e criar conexões com o contexto do Sul Global.

Como todo trabalho, este também fala a partir da sua forma, seu processo constitutivo. Seguindo um caminho crítico em relação à ciência, este trabalho propõe um olhar torto ao paradigma dominante da ciência que busca dividir a realidade em oposições puras: “mente versus corpo; forma versus conteúdo; observador versus observado; objetivo versus subjetivo; imaginação versus real; coletivo versus individual”[2] e aposta num paradigma emergente onde:

 

Todo o conhecimento científico-natural é científico-social;

Todo o conhecimento é local e total;

Todo conhecimento é autoconhecimento;

Todo conhecimento científico visa constituir-se em senso comum.[3]

 

A estes campos, o estudo pretende relacionar conceitos que podem ajudar a espalhar as reflexões por outras tramas conceituais como técnica moderna, espaço público e antropologia simétrica, invisibilidade e reconhecimento.

Se há um tom militante na associologia proposta, é a aposta na urgência como ponto de partida, a fim de detectar pontos e nós para investigações mais aprofundadas de uma perspectiva descolonial.

 

Brasil#1 Maior escravidão do mundo

O Brasil foi erguido por uma diáspora forçada de mais de 4 milhões de africanos escravizados que cruzaram o Atlântico. Essa diáspora se configurou como a maior escravidão da história moderna em números totais. Também em duração foi umas dos sistemas escravocratas mais longos:o Brasil foi último país a abolir a escravidão na América. O Brasil foi a mais importante colônia para o tráfico negreiro. Estima-se em 45% os negros escravizados que abasteceram o sistema produtivo da Terra Brasilis[4], sendo que mais de 660 mil morreram no trajeto da África à América.

Tivemos no Brasil, assim como em várias partes da América, a expressão da técnica moderna caracterizada pelo desafio e exploração.

 

O desabrigar imperante na técnica moderna é um desafiar <Herausforden> que estabelece, para a natureza, a exigência de fornecer energia suscetível de ser extraída e armazenada enquanto tal. Mas o mesmo não vale para os antigos moinhos de vento? Não. Suas hélices giram, na verdade, pelo vento, permanecem imediatamente familiarizadas ao seu soprar. O moinho de vento, entretanto, não retira a energia da corrente de ar para armazená-la.[5]

 

A técnica moderna, no contexto das sociedades coloniais, é uma bizarra combinação entre humanos e não-humanos. Começa por considerar como não-humano o próprio humano. A escravidão explorava este ser humano como “energia estocável” até o limite vital. Mesmo diante da morte dos escravizados, aqui inclusos também nativos americanos, existia a garantia do abastecimento constante da energia na forma de força de trabalho durante séculos de triangulação do tráfico negreiro.

 

O pôr que desafia as energias naturais é um extrair <Fordern> em duplo sentido. É um extrair na medida em que explora e destaca. Este extrair, contudo, permanece previamente disposto a exigir outra coisa, isto é, impelir adiante para o máximo de proveito, a partir do mínimo de despesas.[6]

 

A técnica moderna nasce do desafio da exploração do humano posto na condição de não-humano. Buscando um desvio da reflexão de Heidegger, podemos enxergar esta extração a partir do mínimo de despesas do mundo colonizado na utilização do trabalho escravo e exploração da natureza humana. A natureza nesta trajetória seria secundária. Antes de mais nada, há de explorar a natureza humana e sua força de trabalho.

Somente a partir desta exploração, foi possível a capitalização do mundo ocidental para nova fase industrial. Não à toa a Inglaterra, o primeiro país a marcar sua sociedade pela industrialização, tenha sido o principal beneficiário do comércio de escravos nos tempos modernos. Como nos coloca Achille Mbembe equacionando esta visão histórica com o mundo contemporâneo:

 

“O negro é, na ordem da modernidade, o único de todos os humanos cuja carne foi transformada em coisa e o espírito em mercadoria – a cripta viva do capitalismo. Em muitos países, assevera-se agora um ‘racismo sem raça’. No intuito de aprimorar a prática de discriminação, tornando a raça conceptualmente impensável, faz-se com que a cultura e religião tomem o lugar da ‘biologia’. Além disso, se no meio dessa tormenta o negro conseguir de fato sobreviver àqueles que o inventaram, e se, numa reviravolta de que a história guarda segredo, toda a humanidade subalterna se tornar negra, que riscos acarretaria um tal devir-negro do mundo a respeito da universal promessa de liberdade e de igualdade de que o nome negro terá sido o signo manifesto no decorrer do período moderno?”[7]

 

Do humano ao não-humano, essa animalização vai gerar consequências radicais nas sociedades que adotaram a escravidão como processo produtivo. A animalização do outro, a diferenciação do outro como coisa se conjura na demonização desse outro. Nesta perspectiva, é impossível desconsiderar a inevitável batalha pelo reconhecimento da humanidade dos negros e indígenas. Uma luta por reconhecimento não como queixa, mas como sobrevivência.

 

Terreiros e quilombos foram e são, até hoje, nosso símbolo de resistência.

O conceito de quilombo oferece hoje uma das perspectivas mais importante para repensar o mundo em que vivemos, seja a partir do modo vida, seja a partir do reconhecimento das diferenças. O conceito de quilombo calcado na nossa história, mas também inventado em nossa mitologia de resistência, foi o refúgio dos escravizados mas também a união entre os que não se reconheciam na sociedade colonial. No quilombo juntavam-se os negros mas também índios, mulatos e brancos fugidos, seja do serviço militar ou da justiça colonial. A luta por reconhecimento passa a ser herança de todos os que combatiam a opressão colonial.

Para os tempos atuais este ponto de vista pode agregar lutas concomitantes que muitas vezes se desfazem em suas diferenças. A luta quilombola, como invenção política, nos coloca diante da necessidade de unificar lutas distintas e buscar a organização de um mundo comunitário, horizontal e afetivo.

 

“O quilombismo é um conceito científico histórico-social. Quilombo não significa escravo fugido. Quilombo quer dizer reunião fraterna e livre, solidariedade, convivência, comunhão existencial. A sociedade quilombola representa uma etapa no progresso humano e sociopolítico em termos de igualitarismo econômico. Como sistema econômico, o quilombismo tem sido a adequação ao meio brasileiro do comunitarismo ou do ujamaaísmo da tradição africana. Em tal sistema, as relações de produção diferem daquelas prevalecentes na economia espoliativa do trabalho, chamada capitalismo, em que se busca o lucro a todo custo. Compasso e ritmo do quilombismo se conjugam aos mecanismos operativos, articulando os diversos níveis de uma vida coletiva cuja dialética interação propõe e assegura a realização completa do ser humano. Todos os fatores e elementos básicos são de propriedade e uso coletivo. A revolução quilombista é fundamentalmente anti racista, anticapitalista, anti latifundiária, anti-imperialista e anticolonialista.”[8]

 

A este conceito de Quilombo se desdobra o conceito de Quilombo Urbano que considera a resistência quilombola no contexto urbano marcado pelas forças complexas da espacialidade exclusora das cidades do sul global e impedido de se configurar como espaço protegido, delimitado e legalizado –  como ocorre com a titulação de territórios quilombolas no campo. O que seria então um quilombo urbano na forma de existir? Algo que está sendo inventado em diversas vivências pelo Brasil e América. Os terreiros da religião afro-brasileira são uma destas re-existências. Todo camburão tem um pouco de navio negreiro e toda periferia tem a potência de um quilombo urbano.

 

Brasil#1 Mais católico no mundo

A religião e a escravidão andaram sempre juntas na história moderna. Era necessário batizar o escravo para que ele pudesse entrar em terras americanas, talvez o primeiro sinal de colonização da identidade. Não por acaso o país com a maior escravidão tem também o maior números de católicos.

O tríplice trauma da colonização – escravidão, extermínio indígena e perseguição religiosa[9] – marca nossos corpos. Indivíduo e sociedade vivem um duplo de movimento: de um lado, uma luta por reconhecimento destas tragédias e dos que foram atingidos nas longas políticas de opressão; do outro, um apagamento extremo desta história. Há no Brasil, cerca de 123 milhões de católicos que representam 64,6% por cento da população, segundo o Censo de 2013. No primeiro Censo, em 1872, a religião católica era seguida por 99,7% da população. Hoje, a religiosidade cristã está diluída com os evangélicos em crescente aumento.

 

Brasil#1 O judiciário mais caro do mundo

O custo da justiça no Brasil é recorde. Cerca de 1,3% do PIB brasileiro fica com o Poder Judiciário, ou 10,7% de tudo o que é gasto pela União, Estados e Municípios. Os membros do judiciário no Brasil custam 11 vezes mais do que o da Espanha, 10 vezes mais do que na Argentina, 9 vezes a mais do que nos EUA e na Inglaterra, 6 vezes mais do que na Itália, na Colômbia e no Chile. É um gasto anual de 306 reais no bolso de cada um dos 200 milhões de habitantes do Brasil. Justiça cara e cuja característica é a lentidão.

A Faculdade de Direito foi uma das primeiras faculdades no Brasil. A formação em Direito foi historicamente reservada à elite brasileira. Apesar de representar o constante embate por um sistema legal mais justo e democrático, o corpo Jurídico do Estado brasileiro serviu e serve à manutenção da injustiça e desequilíbrio social.

O pesquisador Adelto Gonçalvez, em estudo sobre a Justiça Colonial, aponta claramente o sistema como mantenedor dos privilégios:

 

Na prática, apenas os pobres eram condenados pela Justiça colonial. segundo um regimento de 1669, o ouvidor tinha autoridade para executar a pena de morte, sem apelação, para os crimes cometidos por escravos e índios. Mas, se um juiz ou ouvidor pretendesse punir um grande proprietário de terra, estava correndo risco. “Os que tinham prestígio ou haviam prestado favores à coroa eram intocáveis.”[10]

 

Outro aspecto da Justiça Colonial que revela a herança escravocrata e voltada a preservação dos poderes instituídos está na Justiça Eclesiástica. Pouco conhecida no contexto brasileiro, a Justiça Eclesiástica em São Paulo era caracterizada pela perseguição às práticas religiosas afro-brasileiras, como aponta pesquisador Marcelo Módolo:

 

Os réus eram quase sempre negros e muitas das acusações estavam ligadas a práticas das religiões de origem africana. Há desde processos supostamente relacionados a mortes, como a da escrava Páscoa, acusada de “uso de magia” para causar pelo menos quatro mortes numa mesma família, até casos banais, como o do escravo Pascoal José de Moura (um dos poucos réus identificados por nome e sobrenome nos documentos), processado por confeccionar patuás. “Há também o caso de um grupo de homens negros que foram presos por participar de um batuque em que havia uma cabra e um casco de cágado”.

 

A justiça brasileira conta atualmente com 412.500 funcionários, o que vale a 215 servidores por 100 mil habitantes sendo que desses 16.500 são juízes. Orbitam em torno desse jurídico, 880 mil advogados registrados, 300% a mais do que na década de 1990. Temos 1.100 faculdades produzindo anualmente 95 mil novos bacharéis. Temos um jurídico que compromete 97% total do seu orçamento anual só para atender à folha de pagamento. Hoje há cerca de 90 milhões de processos tramitando na justiça[11].

Soma-se a esta situação o aumento vertiginoso do encarceramento no Brasil que nos coloca atualmente como quarta maior população carcerária do mundo. O país aumentou sua população carcerária em 270% nos últimos quatorze anos, seguindo o modelo estadunidense de encarceramento em massa na falida guerra contra drogas – que afinal pune desproporcionalmente jovem, negro e pobre[12].

 

Autonomia sem transparência

Uma das características do Poder Judiciário brasileiro é autonomia sem transparência. Não há um Poder Judiciário no Brasil, mas cerca de 17 mil magistrados. Cada juiz, uma sentença. Cada juiz, um poder local. A jurisprudência no Brasil não é uma prática reiterada. Ou seja, o judiciário se torna uma espécie de loteria em que casos podem ser julgados de maneiras díspares e até mesmo contraditórias. O nível de autonomia individual dos membros do Poder Judiciário pode garantir isenção e imparcialidade mas é, ao mesmo tempo, uma má administração da justiça porque não vem acompanhado de transparência e responsabilização dos atos. O judiciário brasileiro é um dos poderes menos democráticos do Brasil. Por que? Ao mesmo tempo que é independente e menos sujeito a controle, não tem nenhum mecanismo de legitimação popular, ao contrário de outras partes do mundo, como nos EUA que se elegem juízes, aqui no Brasil a eleição fica reservada às indicações do Supremo Tribunal. O nosso judiciário, na maior parte, seleciona os seus próprios integrantes, criando um círculo vicioso de autonomia excessiva e democracia escassa.

 

Brasil#1 Mais assassinatos no mundo

Se a Copa do Mundo não nos trouxe recordes, em 2014 os homicídios atingiram a proporção de 29,1 mortos por 100 mil habitantes. O Brasil se colocou como o detentor do trágico título de país com o maior número absoluto de homicídios do planeta, representando cerca de 10% dos homicídios no mundo, em uma população que representa apenas 2,8% da população no mundo.

Jovens, negros e pobres são as maiores vítimas desses homicídios. Somente 3% têm apuração e são levados a julgamento. São 163 mortos por dia, assassinados. As armas de fogo são responsáveis por 76,1% do total de homicídios no País. A evolução dos homicídios cresceu 18,2% entre os negros e entre os não negros diminuiu 14,6%. A idade em que se há mais risco de ser vítima de homicídio no Brasil é aos 21 anos de idade[13].

Todo debate político atual no Brasil deveria começar pela discussão sobre a epidemia de assassinatos que vivemos. Como discutir a taxa de juros diante de 163 assassinatos por dia? Como discutir a retomada da economia com diante de 163 assassinatos por dia? Como viver dia a dia diante de 163 assassinatos por dia? Talvez a pior consequência destes números letais seja a naturalização da violência.

A violência é chave para nossa passagem do humano ao não-humano, não em simetria mas sim em hierarquia profunda, que vai da animalização à demonização do outro.

 

O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo

Cerca de 600 mortes em seis anos colocam o Brasil com o maior número de assassinatos de travestis e transexuais, revelando um grave quadro de violência homofóbica no Brasil. Mais de 14 pessoas por dia são vítimas de violência homofóbica no Brasil. Cerca de 15,6% dos homicídios tem um gatilho policial, segundo o relatório da organização não governamental Transgender Europe, no ano de 2014[14].

 

O maior genocídio da humanidade

Junto com a escravidão, em um pilar paralelo, tivemos o extermínio indígena na América como o maior genocídio da humanidade. Um genocídio que atravessa todo o continente e é invisibilizado constantemente com a reencenação do mito da colonização: a ideia de um continente vazio a ser ocupado pelo homem branco europeu.

Nos dias de hoje esse genocídio continua muito bem articulado com a bancada BBB – boi, bíblia e bala – que consegue, através do Legislativo e Executivo, aprovar e implementar diversas propostas que atacam diretamente as populações indígenas levando à morte e invisibilização. A disputa pelas terras está entre as principais motivações aos ataques aos indígenas no Brasil. Parte do conflito está construído em torno da justificativa do progresso econômico do país que, afinal sempre nos levou a uma ocupação predatória. Se para o agronegócio a terra é produção e dinheiro; para o indígena a terra é espírito, cultura, raiz e identidade.

 

Brasil#1 A polícia que mais mata e morre no mundo

Levantamento aponta que em cinco anos as polícias brasileiras, civil e militar, mataram tanto quanto a polícia norte-americana em três décadas. Aqui, os números foram entre 2009 e 2013 de 11.197 mortes reportadas, causadas por policiais. No mesmo período de cinco anos, foram mortos 1.770 policiais. Isso nos coloca no ponto alto da violência perpetrada e sofrida por policiais[15].

Tal política de segurança genocida remonta da nossa história de colonização em que a maioria, a imensa maioria, tem que ser controlada. Esse controle, dentro dos aspectos da sociedade brasileira, torna-se  brutal e fatal. Cabe perguntar qual a atuação do judiciário em relação a essa polícia extremamente letal e extremamente violentada. Como o judiciário se torna conivente com  uma atuação policial genocida?

 

111 tiros

Foram 111 tiros que atingiram um carro com cinco meninos jovens, negros e desarmados em Costa Barros, no Subúrbio do Rio em novembro de 2015. Carlos Eduardo da Silva Souza (16 anos); Cleiton Correa de Souza (18 anos); Wesley Castro (20 anos) e Wilton Esteves Domingos Júnior (20 anos) comemoravam o primeiro salário de Roberto de Souza  (16 anos). Todos assassinados pela força armada do Estado. A polícia metralhou o carro acreditando estar em “combate com bandidos”. Os policiais aguardam julgamento em liberdade[16].

 

111 mortos

Foram 111 presos, quase todos pretos, quase todos pobres de tão pretos, assassinados no Massacre do Carandiru em 1992. “Cinco júris condenaram 74 policiais militares envolvidos no massacre, porém, acabaram anulados por decisão da Quarta Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo, em recurso relatado pelo desembargador Ivan Ricardo Garisio Sartori, em 2016.”[17]

 

Brasil # 1 Maior frota de veículos blindados do mundo

“Você nos melhores lugares” é o slogan do Citroen C4 Lounge lançado na televisão brasileira em 2013. Na propaganda[18] acompanhamos um casal dentro de um carro, cruzando a noite de cidade deserta. Diante da entrada arquitetônica moderna de um imponente teatro, o carro se dirige ao espaço interno. Da rua asfalto ao carpete do espaço privado. Entre pessoas “comuns” o casal segue dentro da sua redoma automobilística. Dentro do carro protegidos de qualquer interação, o motorista estaciona o carro entre a platéia em um espaço reservado. Diante da admiração de todos da audiência, o casal está agora posicionado para ver o espetáculo.

Este breve comercial televisivo demonstra a mentalidade de proteção desdobrada em isolamento que se expressa no nosso contexto atual no Brasil. A mensagem é clara, o carro é nossa bolha pessoal, nossa mediação com o mundo. O carro e a unidade familiar tornaram-se um só protegidos de uma sociedade hiper violenta. A bolha móvel como extensão do corpo. O receptáculo de proteção característico de sociedades que tiveram colonização escravocrata em que a maioria vive em condições precárias em oposição a uma pequena elite abastada em constante medo. Como nos coloca Teresa Pires do Rio Caldeira a respeito da Cidade de Muros:

 

São Paulo é hoje uma cidade de muros. Os moradores da cidade não se arriscariam a ter uma casa sem grades ou barras nas janelas. Barreiras físicas cercam espaços públicos e privados: casas, prédios, parques, praças, complexos empresariais, áreas de comércio e escolas. À medida que as elites se retiram para seus enclaves e abandonam os espaços públicos para os sem-teto e os pobres, o número de espaços para encontros públicos de pessoas de diferentes grupos sociais diminui consideravelmente. As rotinas diárias daqueles que habitam espaços segregados – protegidos por muros, sistemas de vigilância e acesso restrito – são bem diferentes das rotinas anteriores em ambientes mais abertos e heterogêneos.

Moradores de todos os grupos sociais argumentam que constroem muros e mudam seus hábitos a fim de se proteger do crime. Entretanto, os efeitos dessas estratégias de segurança vão muito além da garantia de proteção. Ao transformar a paisagem urbana, as estratégias de segurança dos cidadãos também afetam os padrões de circulação, trajetos diários, hábitos e gestos relacionados ao uso de ruas, do transporte público, de parques e de todos os espaços públicos. Como poderia a experiência de andar nas ruas não ser transformada se o cenário é formado por altas grades, guardas armados, ruas fechadas e câmeras de vídeo no lugar de jardins, vizinhos conversando, e a possibilidade de espiar cenas familiares através das janelas ? A ideia de sair para um passeio a pé, de passar naturalmente por estranhos, o ato de passear em meio a uma multidão de pessoas anônimas, que simboliza a experiência moderna da cidade, estão todos comprometidos numa cidade de muros. As pessoas se sentem restringidas em seus movimentos, assustadas e controladas; saem menos à noite, andam menos pelas ruas, e evitam as “zonas proibidas” que só fazem crescer no mapa mental de qualquer morados da cidade, em especial no caso das elites. Os encontros no espaço público se tornam cada dia mais tensos, até violentos, porque têm como referência os estereótipos e medos das pessoas. Tensão, separação, discriminação e suspeição são as novas marcas da vida pública.[19]

 

O carro, para além do veículo de transporte, para se tornar um dispositivos de isolamento, uma armadura para as cidades marcadas pela “tensão, separação, discriminação e suspeição”. No caso brasileiro, assim como em outros países da América, esta armadura ganha o reforço da blindagem a prova de bala. O Brasil atualmente tem a maior frota de veículos blindados do mundo. Atualmente nada menos do que 120 mil carros com proteção reforçada contra violência das armas de fogo. Resistente a disparos de armas de fogo, os blindados surgem como recurso militar de proteção em situação de guerra e são popularizados no uso civil para a proteção a alto executivos de multinacionais. Com a escalada da violência e do medo, passaram a serem usados por profissionais de nível médio incluindo suas famílias, mulheres e filhos. Em 2013, o Brasil superou o posto de líder do setor, que antes era do México[20].

 

Brasil # 1 Futebol mais vitorioso do mundo

Futebol: orgulho nacional! O maior campeão de Copas do Mundo! O maior esporte nacional, fervor nacionalista verde amarelo, desempenha também importante papel no imaginário brasileiro, seja na questão racial ou de gênero. Em termos raciais, o futebol funciona como metáfora da Democracia Racial. O Brasil como um “cadinho de raças” como prega Gilberto Freyre[21]. O futebol com sua seleção multiétnica sendo uma representação em micro escala da identidade macunaímica[22] da nação: a junção crioula entre as heranças européias, africanas e ameríndias a gerar o drible, a malemolência e a vitória. A nação vira-latas vence diante do purismo europeu. O negro herói coroado rei pela rainha dos elfos.

O espetáculo semanal futebolístico busca também representar o papel feminino na sociedade patriarcal. Durante 120 minutos televisivos no horário nobre, vemos somente homens em competição atrás da bola, e do chute à rede. Talvez o esporte se configure como principal bastião do patriarcado, já que o espetáculo esportivo é narrado a partir da perspectiva masculina. Neste sentido o futebol é apenas a ponta de lança do esporte como discurso. O Brasil, mesmo sendo sede da Olimpíadas de 2016, teve que categorias esportivas dos Jogos, seja masculina ou feminina, narradas pela voz feminina? É o modelo do protagonismo masculino da batalha de nações, sejam de identidades locais, nacionais, regionais ou continentais.

 

Brasil # 1 Maior carnaval do mundo

O Carnaval é uma festa que é marcada pelo “adeus à carne” que a partir dela se fazia um grande período de abstinência e jejum, como o seu próprio nome em latim “carnis levale” o indica . Para a sua preparação havia uma grande concentração de festejos populares. Cada lugar e região brincava a seu modo, geralmente de uma forma propositadamente extravagante, de acordo com seus costumes.

Pensa-se que terá tido a sua origem na Grécia em meados dos anos 600 a 520 a.C, através da qual os gregos realizavam seus cultos em agradecimento aos deuses. Passou a ser uma comemoração adotada pela Igreja Católica em 590 d.C. antes da Quaresma. É um período de festas regidas pelo ano lunar no cristianismo da Idade Média. O Carnaval moderno, feito de desfiles e fantasias, é produto da sociedade vitoriana do século XIX. A cidade de Paris foi o principal modelo exportador da festa carnavalesca para o mundo. Cidades como Nice, Santa Cruz de Tenerife, Nova Orleans, Toronto e Rio de Janeiro se inspiraram no Carnaval parisiense para implantar suas novas festas carnavalescas.

(…) O Carnaval do Rio de Janeiro está atualmente no Guinness Book como o maior Carnaval do mundo, com um número estimado de 2 milhões de pessoas por dia nos blocos de rua da cidade.[23] Em 1995, o Guinness Book declarou o Galo da Madrugada, da cidade do Recife, como o maior bloco de carnaval do mundo.[24]

 

Em par com as estatísticas de extrema violência (maior quantidade de assassinatos no mundo e polícia que mata e morre no mundo) temos no carnaval o contraponto da multidão como transbordamento, festa como sublimação e fantasia sexual como catarse. No carnaval representamos em gozo o ideal da Democracia Racial na nação brasileira. Mas ao mesmo tempo reconhecemos a falência deste projeto nos diversos dispositivos de segregação impostos as multidões pelo Brasil a fora. Seja nos dispositivos “corda e cordeiro”, que no carnaval de trios de Salvador que separam a “pipoca” negra dos portadores de “abadá”. Seja nos destaques brancos das escolas de samba do Grupo Especial do carnaval carioca.

 

Brasil # 1 Mais cirurgias plásticas no mundo

O Brasil liderou o ranking de realização de cirurgias plásticas estéticas em 2013. Mais de 1,49 milhão de cirurgias plásticas para fins estéticos no ano, quase 13% do total mundial.

 

O aumento de seios é a cirurgia mais popular no mundo, com 1,7 milhão de casos (15%). No que se refere à cirurgia de nariz, porém, o Brasil é o primeiro colocado no mundo, com 77,2 mil casos em 2013. O México vem em segundo lugar, seguido pelos EUA, México e Irã.[25] As cirurgias mais realizadas no Brasil foram lipoaspiração e colocação de próteses mamárias. Em comparação aos outros países, o Brasil é campeão em cirurgias da pálbebra, redução das mamas, aumento do bumbum por implante ou por tranferência de gordura e cirurgia íntima feminina.[26]

 

A manipulação do corpo pode ser vista pelo viés do hibridismo entre humano e máquina. Entretanto impossível não com pensar como o padrão colonizador cria um corpo desejado que não corresponde ao corpo vivo. O olhar atento a liderança do Brasil, não só na quantidade mas ao tipo de cirurgia pode apontar esta distância entre o que é o corpo e o que se deseja do corpo. Como analisa Frantz Fanon em relação às subjetividades colonizadas:

 

Todo povo colonizado — isto é, todo povo no seio do qual nasceu um complexo de inferioridade devido ao sepultamento de sua originalidade cultural — toma posição diante da linguagem da nação civilizadora, isto é, da cultura metropolitana.[27]

 

As cirurgias de nariz levantam a hipótese de recusa do fenótipo étnico não-branco. O discurso hegemônico sobre a beleza branca é reiterado diariamente e envolve nossa concepção de gênero e etnia. No Brasil o embranquecimento ocupa as nossas subjetividades fragilizando a autoestima e reconhecimento. Como coloca Lilia Schwarcz: “O embranquecimento é uma ideologia que visa ao branqueamento cultural e biológico. Quanto mais branco melhor. A alusão ao embranquecimento como ‘uma benção’ é significativa até os dias de hoje.”

 

Brasil # 1 Mais cesáreas no mundo

A cada 10 partos realizados em maternidades particulares no Brasil, 8,5 são cesáreas – a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda 1,5. É essa discrepância na rede privada que faz com que o Brasil ainda ostente o triste título de país com mais cesarianas do mundo.

A diretora de Desenvolvimento Setorial da ANS, Martha Oliveira, diz que é preciso reorganizar todo o sistema. “Trabalho há mais de 10 anos com o tema parto na ANS, mas nada dava certo. Isso porque nosso sistema de saúde nesse setor está preparado para (que partos) tenham como desfecho uma cesariana. Precisamos mudar isso.”

(…) Segundo Martha, outro ponto importante é a capacitação da equipe médica para fazer um parto normal. “Ao longo de todos esses anos, eles foram treinados para fazer cesarianas. Precisam reaprender a assistir a mulher em um parto normal. E o médico também precisa reaprender a trabalhar em equipe, valorizando a importância dos outros profissionais.”

(…) “Há mais de 30 anos que os números [de cesáreas] vêm aumentando”, diz Eduardo Cordioli, da Sogesp (associação de obstetras de SP). “É um problema crônico que está chegando a um limite insuportável para o sistema.” Ele e outros especialistas ouvidos pela Folha apontam alguns dos motivos para o crescimento: medo de sentir dor no parto normal, falta de leitos nas maternidades e de profissionais, baixa remuneração dos médicos e falta de informação às gestantes. A lista vai além. “Os médicos passaram a organizar a agenda em função de fazer partos cesáreas, os hospitais deixaram de ter lugar para parto normal e ampliaram a UTI neonatal, e as mulheres passaram a entender o parto cirúrgico como uma tecnologia.”, diz Martha Oliveira, diretora da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar).

Ela lembra que a situação “é mais grave” nos planos de saúde -chega a 84,6%. Em 2015, a OMS (Organização Mundial da Saúde) recomendou a adoção de um sistema universal de classificação da taxa de cesáreas. Com base nessa classificação, o ministério estima que a taxa de referência para o Brasil seria entre 25% e 30%.[28]

 

A ruptura com o corpo vivido também se expressa na recusa social do processo de parto que ocorre no Brasil nas últimas décadas. Uma cultura de afastamento de um possível parto normal já estava contida nas maternidades que até hoje tem altos índices de violência obstétrica. Grande parte das mulheres brasileiras já estava submetida, na vivência do parto, a uma recusa do tempo e cuidado que parto exige. Entrar numa maternidade até hoje, para grande parte, significa estar submetida a um mundo cultural que, seguindo os passos do patriarcado, impõe violências obstétricas. Segundo pesquisa da Fundação Perseu Abramo, uma em cada quatro mulheres afirma ter sofrido maus-tratos durante o parto[29].

A operação cesárea então expressa esta ponta de lança do processo de desumanização do parto. Novamente aqui podemos buscar a simetria entre humano e máquina no sentido de observar que nas sociedades que sofreram o trauma da colonização esta simetria pode significar o caminho não de erguer a cultura não-humana, maquínica, ao status de agente positivo de uma rede técnico-social mas antes a simetria significa, nesta rede, rebaixar o outro a categoria de coisa, de número, de não-digno do tratamento humano.

 

Brasil # 1 Maior uso de antidepressivos do mundo

O maior consumidor de antidepressivos do mundo nos comunica o ritmo voraz e a disfunção entre vida e desejo. As funções cotidianas tornam-se tão insuportáveis diante de tamanha precarização da vida que somente com a medicação generalizada é possível manter máquina-capital funcionando. A demanda pela manutenção do ciclo incessante de trabalho e consumo é explorada pelo mercado farmacêutico. Quem lucra com esta dessincronia entre forças vitais e cotidiano maquínico?

Podemos espreitar este mundo distópico novamente pela lente da simetria entre humano e não-humano. Tomando a metáfora dos infinitos filmes que pipocam sintomaticamente nestes tempos, podemos imaginar que a fome antropofágica zumbi, fome de corpo e cérebro, afinal é a fome pela força vital, pelo corpo vibrátil. Numa simetria espelhada, somos os sobreviventes e os zumbis. E na luta pela sobrevivência do ser humano em nós, eliminamos o outro monstrificado.

 

Avanço na venda de antidepressivos e ansiolíticos ultrapassa 42 milhões de caixas e põe o país na liderança mundial. É como se um a cada cinco brasileiros tomasse esses remédios. (…) Só no ano passado [a venda de antidepressivos] movimentou R$ 1,85 bilhão, junto com os estabilizadores de humor. A alta é de 16,29% em relação a 2011, quando movimentou R$ 1,59 bilhão. Os dados fazem parte de levantamento feito para o Estado de Minas pelo IMS Health, instituto de pesquisa que faz auditoria para o mercado de medicamentos. Foram 42,33 milhões de caixas vendidas em 2012 dos remédios que ajudam a amenizar desde depressão até a insônia de quem não consegue relaxar, tamanho o estresse do dia – alta de 8,72% em relação a 2011, quando foram vendidas 38,94 milhões de caixas. É como se um a cada cinco brasileiros consumisse uma caixa de antidepressivo ou estabilizador de humor por ano. Com preços que podem ir de R$ 8 a mais de R$ 200, a venda de antidepressivos e ansiolíticos coloca o Brasil na liderança mundial. Medicamentos como o clonazepam, princípio ativo do ansiolítico Rivotril, estão entre os mais vendidos do país, à frente até mesmo de pílulas anticoncepcionais e analgésicos. Depois de investir bilhões de dólares, a indústria farmacêutica, para muitos, desvendou a química da felicidade. No país, o faturamento com a comercialização desses medicamentos cresceu mais de 200% nos últimos seis anos.[30]

Desde 2008, a venda de antidepressivos no Brasil subiu 48%. As estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) para os próximos 20 anos são preocupantes. Segundo levantamento da instituição, em 2020 a depressão será a segunda doença mais prevalente do mundo, atrás somente do infarto agudo do miocárdio. Além disso, estimase que em 2030 o transtorno psiquiátrico já ocupará a primeira colocação de enfermidades, à frente inclusive do câncer e da AIDS.[31]

 

Brasil # 1 Maior uso de agrotóxicos do mundo

Seja na relação entre natureza e agrotóxico, seja entre humano e antidepressivos, vivemos no Brasil e no Mundo a realização da distopia moderna. Jamais fomos modernos senão na distopia[32], no oposto da purificação entre cultura e natureza, razão e emoção, humano e não-humano. Nos alimentamos e somos, juntos com a química forjada em séculos de desenvolvimento tecnológico, o ser híbrido parte corpo e parte droga. Um encontro complementar não para formar uma coesão em torno da vida mas sim como encontro complementar para emular a satisfação da vida.

 

Imagine tomar um galão de cinco litros de veneno a cada ano. É o que os brasileiros consomem de agrotóxico anualmente, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA). “Os dados sobre o consumo dessas substâncias no Brasil são alarmantes”, disse Karen Friedrich, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Desde 2008, o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de consumo de agrotóxicos. Enquanto nos últimos dez anos o mercado mundial desse setor cresceu 93%, no Brasil, esse crescimento foi de 190%, de acordo com dados divulgados pela Anvisa. Segundo o Dossiê da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco)  – um alerta sobre o impacto dos agrotóxicos na saúde, publicado nesta terça-feira no Rio de Janeiro, 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão contaminados por agrotóxicos. Desses, segundo a Anvisa, 28% contêm substâncias não autorizadas.[33]

Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer José de Alencar Gomes da Silva (INCA) e da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO) o Brasil é o maior mercado de agrotóxicos do mundo, ultrapassando a marca de 1 milhão de toneladas por ano, o que equivale a um consumo médio de 5,2 kg de veneno agrícola por habitante. É assustador saber que a partir de 2008 a taxa de crescimento da importação de princípios ativos para composição de produtos com essa finalidade foi de 400% e a de produtos já formulados foi de 700%.[34]

 

Brasil # 1 Maior biodiversidade do mundo

Dentre as 200 nações do mundo atual, apenas 17 países possuem em seus territórios cerca de 70% da biodiversidade, representada pelas espécies animais e vegetais hoje existentes. Esta e outras conclusões estão em um estudo e no mapa de megadiversidade apresentados pela organização ambientalista Conservation International. O estudo traz boas e más notícias para nós brasileiros. O Brasil é o campeão mundial em biodiversidade __ dono da maior parte das florestas intactas do planeta, é o país mais rico do mundo em plantas e animais __, porém, não só utiliza pouco os recursos internacionais existentes para a proteção dos seus ecossistemas, como também é um dos países que mais destrói o meio ambiente. Os dados do estudo foram extraídos da bibliografia existente sobre o assunto e da consulta a especialistas. O resultado está no livro Megadiversidade: As Nações Biologicamente mais Ricas do Mundo, com 300 páginas, publicado em inglês e espanhol, lançado em dezembro de 1997 em Washington. O estudo enfatiza que os esforços conservacionistas nestes 17 países são cruciais para proteger a grande maioria das espécies de animais e plantas da Terra.

(…) O Brasil possue 56 mil espécies, cerca 22% do total de 250 mil plantas existentes em todo o planeta. Segundo Gustavo Fonseca, presidente da Conservation International no Brasil, o principal critério de classificação foi o número de espécies de plantas superiores que só existem em um país, isto é, que são endêmicas desse país. O número de espécies de plantas endêmicas no Brasil __ uma espécie é chamada de endêmica quando sua ocorrência está restrita a apenas uma área delimitada do planeta __ alcança 7% de todas as plantas catalogadas até hoje no país (3.850 espécies). A riqueza animal, que confere ao Brasil a primeira colocação em alguns outros quesitos, é representada por 524 espécies de mamíferos, 70 espécies de pássaros da Ordem Psittaciformes (araras, papagaios e piriquitos), mais de 3 mil espécies de peixes de água doce e algo entre 10 e 15 milhões de espécies de insetos (a grande maioria ainda não foi descrita pela ciência). Estes dois últimos grupos e ainda os peixes e invertebrados marinhos e as plantas inferiores não foram computados na classificação do ranking da biodiversidade. Apenas quatro países __ Brasil, Congo, Indonésia e Madagascar __ possuem 75% das espécies de primatas (macacos) do mundo.[35]

 

Podemos enxergar a distinção de mundos quando consideramos o maior uso de agrotóxicos e a maior biodiversidade do planeta. Este conflito fundante da nossa sociedade já estava marcado nos ciclos econômicos iniciais do Brasil colônia. A extração de Pau-Brasil, as plantations (monoculturas) de cana-de-açúcar e a mineração. Todas formas modernas da técnica como desafio e exploração somado à exploração na força de trabalho escrava. A diversidade biológica era então um obstáculo a ser transposto. E assim também a diversidade social era uma obstáculo a planificação e normatização da vida colonial. A tentativa moderna de purificação da cultura versus a natureza expressava a distância entre perspectivas de mundo diante de europeus e ameríndios. Uma das diversas expressões contrárias à concepção moderna de mundo se encontra no discurso de 1855 do cacique Seattle (o famoso Touro Sentado), da tribo Suquamish, em resposta à oferta de compra de terras indígenas do presidente dos Estados Unidos (Francis Pierce):

 

“O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar a nossa terra. O grande chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Nós vamos pensar na sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra.

(…)Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão, que nós, peles vermelhas matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo quanto fere a terra, fere também os filhos da terra.”

 

A simetria proposta entre bisão e trem (cavalo de ferro fumegante) põe a natureza e cultura num mesmo plano de relação. E o que nos parece óbvio foi a denúncia de uma tragédia em curso do qual hoje as terras americanas brasileiras são um indesejado exemplo.

Mas a maior biodiversidade do planeta cercada nos nossos limites territoriais nacionais é o anúncio de um outro mundo possível. Um devir Brasil do Mundo pelo qual  a biodiversidade pode ser pensada como uma rede entre natureza e cultura. Uma rede bio-técnica-social que nos forma dentro de uma biodiversidade natural e social. A nossa perspectiva revolucionária desta equação entre biodiversidade natural e cultural gera novas formas de vida híbridas no presente e aponta ao futuro. Não à toa lutamos contra a hegemonia, pois esta é o apagamento e sobreposição das diferenças. Nesta batalha biopolítica somos atravessados não somente pela substância das forças de controle e planificação da vida mas também, em oposição, somos atravessados pela subsistência da diferença. Para superar a desumanização colonial, a biodiversidade nos propõe uma outra humanização, a reconquista da relação entre humano e não-humano.

 

 

 

[1]     LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica [tradução de Carlos lrineu]. _ Rio de Janeiro: Ed. 34, 1994.

[2]     Recupero ideia desenvolvida na minha dissertação de mestrado Nós: Microcrises (PUC SP 2011) sobre o conceito criado de Investigação-Acão.

[3]     SANTOS. Boaventura de Souza. Um discurso sobre as ciências. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2009.

[4]    Terra Brasilis como nomeado no mapa de 1519 (Tesouro dos Mapas. Instituto Cultural Banco Santos, 2000).

[5]    HEIDEGGER, Martin. A Questão da Técnica. Tradução de Marco Aurélio Werle. São Paulo: Revista Scientia Studia, 2007.

[6]     Martin Heidegger. A questão da técnica.

[7]     MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Tradução Marta Lança. Lisboa: Antígona, 2014.

[8]     NASCIMENTO, Abdias. Quilombismo: um conceito emergente do processo histórico-cultural da população afro-brasileira. In: NASCIMENTO, Elisa Larkin. Afrocentricidade: uma abordagem epistemológica inovadora. São Paulo: Selo Negro, 2009.

[9]     ROLNIK, Suely. Arquivomania. In:  “NA BORDA – NOVE COLETIVOS, UMA CIDADE”  Organização Daniel Lima e Túlio Tavares. São Paulo: Invisíveis Produções, 2012.

[10]    Privilégios Ancestrais. Márcio Ferrari. in Revista Pesquisa Fapesp 234. São Paulo: Fapesp, 2015. Sobre livro de GONCALVEZ, Adelto. Direito e Justiça em terras d’El Rei na São Paulo colonial 1709-1822. Imprensa Oficial. São Paulo, 2015.

[11]   http://observatory-elites.org/wp-content/uploads/2012/06/newsletter-Observatorio-v.-2-n.-9.pdf

[12] http://justificando.cartacapital.com.br/2016/04/26/populacao-carceraria-brasileira-cresceu-270-nos-ultimos-catorze-anos/

[13] http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2016/03/brasil-bate-recorde-no-numero-de-homicidios-segundo-ipea.html

[14] http://www.fafich.ufmg.br/nuh/2016/12/28/brasil-e-o-pais-que-mais-mata-travestis-e-transexuais-no-mundo/

[15] http://www.huffpostbrasil.com/2015/09/08/policia-brasileira-e-a-que-mais-mata-no-mundo-aponta-relatorio_a_21685039/

[16]http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/06/1783898-stj-concede-liberdade-a-policiais-acusados-de-matar-jovens-com-111-tiros.shtml

[17] https://pt.wikipedia.org/wiki/Massacre_do_Carandiru

[18]    https://www.youtube.com/watch?v=TmydGfJNoCc

[19]   CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo, Editora 34/Edusp, 2000.

[20] http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-e-o-pais-com-mais-carros-blindados-imp-,1579064

[21]    Gilberto Freyre defendeu a perspectiva racial miscigenada no Brasil em seu livro Casa Grande & Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal (1966) como expresso no trecho: “A miscigenação que largamente se praticou aqui corrigiu a distância social que doutro modo se teria conservado entre a casa-grande e a mata tropical; entre a casa-grande e a senzala. A índia e a negra-mina, a princípio, depois a mulata, a cabrocha, a quadrarona, a oitavona, tornando-se caseiras, concubinas e até esposas legítimas dos senhores brancos, agiram poderosamente no sentido de democratização social no Brasil.

[22]    O escritor brasileiro Mario de Andrade publicou Macunaíma, o herói sem nenhum caráter em 1938.

[23]   Largest Carnival (http://www.guinnessworldrecords.com/records-11000/largest-carnival/) Guinness World Records.

[24]       https://pt.wikipedia.org/wiki/Carnaval

[25]    http://istoe.com.br/375115_BRASIL+LIDERA+RANKING+DE+CIRURGIAS+PLASTICAS+NO+MUNDO/

[26]       http://www2.cirurgiaplastica.org.br/de-acordo-com-a-isaps-brasil-lidera-ranking-de-cirurgias-plasticas-no-mundo/

[27]   FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas (1952). Tradução de Renato da Silveira . Salvador : EDUFBA, 2008.

 

[28] http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/06/1785592-numero-de-partos-por-cesarea-cresce-40-e-consolida-dominio-da-pratica.shtml

[29] http://www.spm.gov.br/area-imprensa/ultimas_noticias/2011/03/fundacao-perseu-abramo-disvulga-pesquisa-201cmulheres-brasileiras-e-genero-nos-espacos-publico-e-privado201d

[30]    http://www.em.com.br/app/noticia/economia/2013/01/26/internas_economia,346135/brasileiro-gasta-r-1-8-bi-com-antidepressivos-e-estabilizadores-de-humor.sh

[31]    https://setorsaude.com.br/category/mundo/

[32]    Estamos mais pertos das distopias proposta por autores como George Orwell e Philip K Dick. Na verdade sempre vivemos esta distopia na maior parte do mundo moderno. Nós do terceiro mundo jamais fomos moderno. Este ideal moderno só foi realizado em uma apenas parte das cidades e desejados por todos. Como coloca o professor Nicolau Svechenko em entrevista para o coletivo Frente 3 de Fevereiro: “A formação dos bolsões de exclusão tem a ver com a lógica da cidade moderna, no sentido em que ela é uma área altamente planejada e que já traz, implicitamente no próprio planejamento, o princípio da segregação e da exclusão social. Está na origem do problema. É constitutivo da cidade moderna na medida em que ela se define dessa maneira, há uma dimensão – aquela que o planejamento alcança – que é o moderno, e ali onde o planejamento não alcança é o não-moderno. Aí você já por tabela exclui o que é a parte da população integrada na modernidade e a parte que está excluída ou segregada dela e, nesse sentido, o próprio crescimento da cidade é o contínuo processo de identificação desse mesmo problema.”

 

[33]    http://brasil.elpais.com/brasil/2015/04/29/politica/1430321822_851653.html

[34]    http://sustentabilidade.estadao.com.br/blogs/alessandra-luglio/consumo-de-agrotoxicos-no-brasil/

[35]       http://blogcienciasbio.blogspot.com.br/2012/02/biodiversidade-as-nacoes-mais-ricas-em.html

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