SER OU NÃO SER NÃO É UMA OPÇÃO

por Juny Kraiczyk texto e Olivier Boër/ETNOFOCO foto

Você sabia que o Brasil é o país que mais mata travestis no mundo?

Entre janeiro de 2008 e março de 2014, foram registradas 604 mortes no país. Os dados da rede europeia de organizações que apoiam os direitos da população transgênero, TransgenderEurope (TGEU), é a cereja amarga de um bolo que é feito com ingredientes cuidadosamente selecionados, para que você mal perceba que faz parte desta história.

Você já contratou uma travesti para trabalhar na sua empresa? Não?

A invisibilidade das travestis no seu/nosso dia-dia realça a negação da sua humanidade, a segregação e a violência às quais elas estão, por nós, submetidas.

O JOGO DOS SETE ERROS

Violências banais como olhar para uma travesti como uma espécie de“Jogo dos Sete Erros”, onde as regras são claras: perde-se um ponto a cada característica inconveniente. Qualquer coisa que fuja ao que é considerado próprio à tal “mulher de verdade”.

Quer jogar? É fácil: observe atentamente o tamanho do pé, os pelos, as mãos e o tom da voz.

Mas não se perca com os detalhes banais, como as semelhanças entre o transfeminicidio e o feminicidio, ou a violência praticada pelos “homens de bem”, que se dispõem, com socos e pontapés, a apresentar a conta pelo mau comportamento sexual de certas mulheres transexuais e travestis, assinaladas igualmente como “putas” ou “loucas”.

O mais relevante para jogar bem este jogo é a adivinhação inicial! Procure olhar atentamente no meio das pernas e descubra que órgão está escondido embaixo das roupas íntimas? Vagina? Pepeca? Buceta?

Ei, cuidado! Jamais confunda com pau, cacete ou falo.

Lembre-se é só este inigualável órgão que importa!

Se todo o resto, gestos, vivências, amores, desejos e sonhos for muito, muito semelhantes à grande maioria dos seres assignados como pertencente ao gênero feminino, esqueça. É mera ilusão!

Afinal, mulher de verdade é pura, natural, meiga, feminina, frágil, passiva e blá, blá, blá. Bela, recatada e do lar. Não é?

E se é, pelo jeito, é tudo culpa da “pepeca”.  Assim se explica a obsessão em adivinhar sua existência, ou não, entre as pernas das pessoas.

A QUESTÃO DE SER OU NÃO SER

Depois de esclarecidas as regras do jogo, voltemos à vaca fria: considerando que travestis se constituem a partir de um ato transgressor, não porque queiram necessariamente, então não há opção. É imperativo contrariar a norma e transgredir a constituição corpórea, dada biologicamente, para poder adequar o aspecto de seu corpo ao que ela sente e deseja.

A “transgressão”, no entanto, relacionada ao ato de tornar-se uma travesti, não é lá muito bem vista pelos nobres valores desta nossa sociedade.

Apontar alguém que escapa da norma heterossexual e binária de gênero como “estranho”, “anormal”, é uma forma de torná-lo(a) um “ser abjeto”, “menos humano”, cabendo-lhe (quase como um destino) apenas as margens e as periferias sociais como sempre nos repete a teórica americana Judith Butler.

Neste caso, a concepção patológica atribuída às travestis reproduzem relações de poder e de dominação de diversas matizes, de classe, de “raça” e de gênero.

E como todos sabem, para manter os poderes estabelecidos, épreciso que o indivíduo permaneça na tal situação de “heteronormatividade” e isto não ocorre de maneira natural, como muitos acreditam.

MUITAS REGRAS PARA QUEBRAR

Para manter um indivíduo numa dada ordem social de gênero e sexualidade, é indispensável que as normas que regulam e materializam a ordem(por exemplo: “sexo biológico, masculino, por exemplo = homem = prática sexual com mulheres”)  sejam normatizadas e que se estabeleça antes mesmo de seu nascimento (meninos de azul, meninas de rosa), e que sejam continuamente reiteradas, vigiadas e quando necessário, impostas com punição.

Como algumas igrejas que prometem a cura gay, a sociedade que resiste ao uso do nome social e ou projetos de lei que querem impor que o tema identidade de gênero seja retirado das escolas.

É assim que se mantém a “heteronormalidade” como regra, que tudo parece se justificar no pressuposto da indigência de “normalização”.

E ainda que as normas sejam ratificadas e endossadas a todo instante, a existência de pessoas que escapam e não se ajustam às mesmas, tais como as travestis e os/as transsexuais, é importante para reafirmar e definir, por contraposição, uma referência entre quem se adequa (os ditos “normais”) e os “outros”. Neste caso, os corpos trans são pensados por parte da sociedade como a materialização do fracasso do “homem e/ou da mulher de verdade”.

As travestis são portanto as que questionam com a própria existência este modelo homogeneizante, hierarquizado e binário, desorganizam as normas e provocam um desajuste no discurso da imposição “normal”.

Em termos de políticas públicas (e também privadas), sob a ótica de “vigiar e punir”(temos de lembrar Foucault!), enquanto nas instituições escolares inexistam programas que discutam o direito universal ao estudo, diretores e alunos se perguntam “que banheiro se destinará às travestis?” alguém logo pensa “melhor não usar nenhum”. A parte visível (instituições) e a invisível (o dispositivo), perversamente enamoram-se na criação de técnicas minuciosas e detalhadas do poder sobre o corpo, da vigilância e da punição, em prol da normalização dos sujeitos.

As pessoas trans colocam para nós, o desafio de escapar de tal regime socialmente construído e a possibilidade de criar um novo modelo de sociedade que seja capaz de acolher e legitimar as demandas dos diversos corpos, de diversas subjetividades e diversas expressões de gênero e sexualidades.

INCLUSIVE A SUA!

 

Marcelly Malta

Renata Peron

 

 

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