Nosso desafio é seguir o nosso desassossego.

por Daniel Lima

Zona de Poesia Árida

Não somos o asfalto desta rua? Não somos o cimento destes muros? Não somos as janelas deste tempo que se escancara sempre, sempre e sempre? Viemos para marcar este território com outra poética. Criar outro mundo. Viemos para a prática de uma política impossível e infinita. Multiplicar histórias sem palavras em toda parte, nas ruas, nas casas, nas rodas de conversa, nos casais, no afeto, na luta. Nos damos a permissão de uma saída de emergência.

 

O nó, o emaranhado, o caminho. Não se trata de tentar desembaraçar e trazer ordem ao caótico. Mas, sim, encontrar no tumulto pontas de fios. Oferecer partidas.

 

 

“A esse fascismo do poder, nós contrapomos as linhas de fuga ativas e positivas, porque essas linhas conduzem ao desejo, às máquinas do desejo e à organização de um campo social de desejo: não se trata de cada um fugir ‘pessoalmente’, mas de fazer fugir, como quando se arrebenta um cano ou um abscesso. Fazer passar fluxos, sob os códigos sociais que os querem canalizar, barrar.”

 

Félix Guattari. Conversações, 1972

 

 

O perigo maior da intervenção: deixar de ser aparição e se tornar cena. Corre-se o risco constante de perder sua dimensão de desterritorialização e apenas assumir uma reterritorialização. Uma experiência que, em vez de apagar os contornos, os refaz em outro contexto, deixando apenas espaços para pequenas variáveis. A aparição – nunca sabemos se é completamente real, existe certa translucidez. É possível ver através, atravessar o fato. O surgimento da aparição permite ver juntos o contínuo e o descontínuo da situação.

 

 

Onde estão esses atalhos, essas passagens para as cidades por trás da cidade? Onde podemos achar essas veredas, esses caminhos estreitos? Em que situações podemos ser sugados, tomados para esse outro lado do espelho?

 

 

Diante de um campo aparentemente hegemônico, somos impelidos a criar passagens, atalhos, saídas de emergência, abertas pela pirotecnia de um terrorismo poético. Dispositivos autodestrutivos. Ao final, o homem se explode também. Explosões criadoras de cada conceito-vivo, cada ideia-criatura, cada inseto-pulador, cada vírus-criador.

 

 

Em algumas áreas, cava-se pouco e logo na superfície jorram incontáveis forças represadas. Muitos buracos levam a uma árida geologia. Vibrações indicam terrenos leves de areia, paredes profundas de granito, porosidades distintas. Nós arquitetamos complexos labirintos. Nos apertamos em túneis estreitos para, às vezes, abrir passagens para novos mundos.

 

 

‒ A organização coletiva vem como alternativa a este mundo extremamente competitivo e individualizado. Abre espaços para outros modos de vida, outras relações de afeto e de trabalho.

 

‒ Mas, também, o coletivo significa a exacerbação das características flexíveis do sujeito contemporâneo. Significa elevar a potência de lidar com as diversas demandas do circuito cultural.

 

‒ Mas os coletivos são uma estratégia de resistência. No sistema cultural, a prática coletiva possibilita uma trajetória transversal. Mas, mais importante, nos movimentamos de maneira a reunir certas vozes dissonantes…

 

‒ Incorporamos uma verdadeira reserva crítica de posições marginais e contraculturais…

 

‒ Para isso, estabelecemos alianças, trocas e atritos. Constituímos uma trama subterrânea de passagens entre movimentos sociais, pesquisas acadêmicas, artistas, coletivos, ocupações, instituições, redes…

 

‒ Essa movimentação, tanto institucional como não institucional, traz um imenso risco de perder-se. Alienar-se de si mesmo. Podemos facilmente não reconhecer o que estamos produzindo.

 

‒ Nosso desafio é seguir o nosso desassossego.

 

Daniel Lima

 

 

Arid Poetry Zone

 

Aren’t we the asphalt of this street? Aren’t we the cement of these walls? Aren’t we the windows of this time thatare always flung open, always and always? We came to mark this territory with another poetry. To create another world. We came for the practice of a politics that is impossibleand infinite. To multiply stories everywhere without words, on the streets, at home, incirclesof conversation, in couples, in affection, in struggle. We allow ourselves an emergency exit.

 

The knot, the tangle, the path. This is not about attempting to untangle and bring order to what is chaotic. But rather, to find the ends of wires in the turmoil. To offer departures.

 

 

“To this fascism of power, we oppose the positive and active lines of flight, because these lines lead to desire, to machines of desire and to the organisation of a social field of desire: it is not about escaping “personally”, but to make escape, like when a pipe or an abscess bursts. To allow streams to flow, under the social codes that want to cannibalise, to block them.”

 

Félix Guattari. Conversations, 1972

 

The greatest danger of intervention: to cease to be an apparition and become a scene. You run the constant risk of losing your dimension of deterritorialization and simplyassume a reterritorialization. An experience that instead of erasing contours, recreates them in another context, leaving only spaces for small variables. The apparition – we never know if it is completely real, there is a kind of translucence. It is possible to see through it, through the fact. The emergence of the apparition allows us to see together the continuous and discontinuous of the situation.

 

 

Where are these shortcuts, these passages to the cities behind the city? Where can we find these routes, these straight paths? In what situations can we be sucked in, taken to the other side of the mirror?

 

Faced with an apparently hegemonic field, we are driven to create passages, shortcuts, emergency exits, opened by the pyrotechnics of a poetic terrorism. Self-destructive devices. In the end, man also explodes. Creative explosions of each live-concept, each idea-creature, each insect-jumper, each virus-creator.

 

 

In some areas, you dig a little and soon on the surface gush countless repressed forces. Many holes lead to an arid geology. Vibrations indicate light lands ofsand, deep walls of granite, distinct porosities. We project complex mazes. We squeeze into straight tunnels in order to, occasionally, open passages to new worlds.

 

 

‒The collective organisationcomes as an alternative to this extremely competitive and individualised world. It opens spaces for other ways of life, other relationships of affection and of work.

 

‒But the collective alsomeans the exacerbation of the flexible characteristics of the contemporary subject. It means raising the power to deal with the various demands of the cultural circuit.

 

‒But collectives are a strategy of resistance. In the cultural system, collective practice enables a transversal trajectory. But, more importantly, we move in a way that brings together certain dissenting voices…

 

‒We incorporate a true critical reserve of marginal and counter-cultural positions…

 

‒To do this, we establish alliances, exchanges and frictions. We form an underground web of passages between social movements, academic research, artists, collectives, squats, institutions, networks…

 

‒This movement, as much institutional as it is non-institutional, runs a huge risk of becoming lost. Alienated from itself. We can easily not recognise what we are producing.

 

‒Our challenge is to follow our disquiet.

 

Daniel Lima

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