cuidado com o fogo

por Túlio Tavares

A(r)tivismo é brincadeira? O Ar(r)ivismo é sério?

Com quantos umbigos se faz um coletivo? Um(b)iguismo?

Tudo começa no início dos anos 2000. Estávamos em um grande devir tentando criar táticas de sobrevivência por meio das trocas de interesses, conteúdos e afetos. Produzíamos fora do circuito financeiro, trabalhando coletivamente, criando coletivos, participando de outros coletivos, articulando uns com os outros. Fui parar no meio de um furacão e um furacão só acontece se estiver tudo preparado para ele acontecer; não existe um furacão que surja do nada; os elementos estavam todos lá: a quantidade certa de umidade, a quantidade certa de ar, a transformação de temperatura daqui para lá, um vento x, y que vai passar ali por baixo e, pum!, explodiu um furacão. O que eu digo é: estava tudo no ar para que houvesse essa aproximação, cidade caótica, artistas organizados em coletivos e movimentos sociais. Toda a lógica do que viria a acontecer já estava lá antes mesmo desse furacão que aconteceu livre, sem amarras, sem contratos, sem 13º. Sabíamos da força simbólica que essa rede de resistência urbana poderia ter nas esferas micro e macropolíticas.

Posicionávamo-nos radicalmente contra a cultura espetacular e a espetacularização em geral, ou seja, contra a não participação, a alienação e a passividade da sociedade. Propúnhamos a participação dos indivíduos em todos os campos da vida social, principalmente na cultura.

Muitos desses coletivos, até hoje, produzem ações que são práticas de intervenção em espaços públicos, mesclando arte e ativismo, que se disseminam por meio de redes virtuais e presenciais. Utilizando-se da comunicação em rede, naquele momento, passaram a organizar ações contra os ícones do sistema neoliberal.

A arte produz imagens, sons, memória, reverbera na sociedade e nas pessoas, que reverberam em outras pessoas ainda, metáfora biológica, disseminação. A arte fala do tempo social, muda os rumos do tempo histórico, transforma a sociedade.

Vivemos em guerra na cidade de São Paulo. Parte-se aqui da hipótese que existiu algo em comum entre os coletivos artísticos que se utilizam do espaço público como terreno de ação. Projetos artísticos coletivos indagam sobre as relações entre arte, política e questões da vida nessa cidade que produz um espaço estrategicamente excludente. Operam em um campo minado, onde talvez não seja possível entrar sem arriscar-se.

Por isso a procura por movimentos populares, ir para a cidade, para as ocupações, para lugares abandonados, lugares que ninguém vê. Sabíamos que novos símbolos poderiam ser produzidos, mesmo que fossem símbolos que perdessem a categoria de ”arte”. Porque esses grupos deixaram de ser um movimento de arte e se tornaram um movimento da cidade, ambiental, político, social, aproximando o campo da arte àquele do ativismo político por meio de intervenções em espaços não institucionalizados e de caráter eminentemente crítico.

O mundo da arte não compreendeu, naquele momento, o que estava acontecendo: acaba-se com a referência à arte. Não éramos mais compreendidos por teóricos nem por nós mesmos. Resolvemos nos perder. Eram barricadas simbólicas contra a polícia; placas de propagandas imobiliárias roubadas das ruas, repintadas com formas e desenhos pelo coletivo EIA. As coisas estavam sempre fora de qualquer ordem, fora de qualquer coisa reconhecida. Como fazer barricada simbólica de arte que interrompe a ação da polícia em dia de despejo? A polícia teria de retirar obras de arte de seu caminho para invadir a ocupação e arrancar as pessoas de dentro dela. Aquelas barricadas com placas imobiliárias foram se repetindo, até que foram repintadas pelo coletivo Elefante e ganharam a palavra “DIGINIDADE”. Agora era possível entender um pouco melhor. Já não é obra de arte tentando barrar a chegada da polícia, é a palavra “DIGNIDADE”. Eram barricadas porque aquelas placas tinham tamanho físico para isso e a gente imaginava a tropa de choque chegando e tendo de tirar um monte de coisas de dentro. E, principalmente, agora teria de retirar a palavra “DIGINIDADE”.

Os artistas que faziam arte, naquele momento, manipulavam a informação, manipulavam como certo grupo social de moradia seria visto pela mídia. Tudo muito plástico, tudo muito imagético.

Não foi fácil, não foi simples, foi um momento de muita tensão. Estava no ar o perigo de ter de sair correndo no meio de qualquer madrugada. Estávamos lá fazendo arte, experimentando.

Acredito que o movimento desses coletivos será famoso quando não oferecer mais perigo, quando não cheirar mais a merda, quando virar fotos, filmes, livros, mestrado, doutorado, pós-tese, estiver em grandes bienais e museus para dizer o quanto aquele ato simbólico foi importante. Nesse momento em que o movimento parecer perfume é que o vírus, implantado lá atrás, no primeiro instante, antes do furacão se formar, estará eternamente desequilibrando, desarrumando, desorganizando e atrapalhando. Novas pessoas lá na frente, mesmo com o negócio embrulhadinho, serão cooptadas por esse vírus desorganizante. Elas pensarão coisas poderosas, potentes e continuarão desagregando. Essa é minha grande intenção, que toda essa história seja um elemento desagregador eterno de valores absolutos. Um processo viral de agenciamento coletivo de zonas autônomas temporárias, produzidas a partir de incessantes recomposições dissensuais e não a partir da lógica do consenso. São fatos que apontam para os limites entre a potência de subversão e o poder de cooptação dentro do sistema de arte e da vida, artigo de consumo; um momento em que o sistema de arte, o sistema político e econômico conseguem apropriar-se de todo movimento crítico de ruptura.

São devires de construções históricas, ações e interferências absurdas ou surreais no tempo e em algum lugar no espaço do universo que é infinito.

Neste texto estão presentes as vozes de Sebastião de Oliveira Neto, Ricardo Rosas, André Mesquita, Fabiane Borges, Flavia Sammarone, Milena Durante, Ricardo Basbaum, Platão.

Túlio Tavares

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Trabalho de arte Cuidado com o fogo, 2003, Túlio Tavares

O trabalho consistiu em uma colagem com letras que formam a frase “CUIDADO COM O FOGO”, realizada em uma parede no terraço do último andar da Ocupação Prestes Maia, com vista para a cidade. Era uma clara referência ao incêndio que sucedera no edifício em setembro de 2003, portanto, três meses antes da exposição ACMSTC, que resultou na destruição de quatro andares e na morte de uma menina de 4 anos. Fica clara aqui a tensão da situação: se por um lado há uma referência direta a uma tragédia ocorrida no prédio, por outro coloca em evidência o risco daquele evento-acontecimento. “Pegar fogo” tinha a ver tanto com o incêndio quanto com as explosões e as repercussões que um acontecimento daquele poderia gerar.

 

BE CAREFUL WITH THE FIRE

 

 

Is a(r)tivism a joke? Is a(r)rivisme serious?

 

How many belly buttons make a collective? Belly(b)uttonism?

 

Art goes beyondthe perception that we have of it in real time. In fact, what is seen isn’t exactly art, but a kind of distorted reflection. Therefore it is easy to be blinded in the moment that we want to understand it.

 

It all began in the early 2000s. We were in a greatseries of transformations, trying to create survival tactics through the exchange of interests, content and affections. We produced outsidethe financial circuit, working collectively, creating collectives, taking part in other collectives, articulating with each other. I ended up in the middle of a hurricane, and a hurricane only happens if everything is ready for it to happen; a hurricane never comesout of nowhere, the elements were all there: the correct amount of humidity, the right amount of air, the change in temperature from here to there, wind x passes just below wind y and, boom!, a hurricane exploded. What I say is this: everything was in the air for this coming together to happen,a chaotic city and artists organised in collectives and social movements. Allthe logic that would cause this to happen was there, before even this hurricane,which happened freely, with no strings attached, without contracts andwithout the 13th monthly wage that Brazilian workers are entitled to at the end of each year. We knew the symbolic

force that this urban network could have in the micro and macro political spheres.

 

We radically positioned ourselves against spectacular culture and spectacularisation in general, or rather, against the non-participation, alienation and passiveness of society. We proposed the participation of individuals in all fields of social life, especially in culture.

 

Even nowadays, many of these collectivesproduce actions that are practices of intervention in public spaces, combining art and activism which are spread through virtual and face to face networks. Using network communication back then, we ended up organising actions against icons of the neoliberal system.

 

Art produces images, sounds and memory. It reverberates in society and in people, who then reverberate with even more people. Biological metaphorand dissemination. Art speaks of social time,it changes the course of historic time and transforms society.

 

We live in war in the city of São Paulo. It starts here, with the hypothesis that the art collectives using public space as the field of action all had something in common. Collective artistic projects question the relationship between art, politics and issues of life in this city,which produces a strategically excluded space. They operate in a minefield, where it might not be possible to enter without putting themselves at risk.

 

Hence the searchby grassroots movements, to go to the city, to the squats, to abandoned places, places that no one sees. We knew that new symbols could be produced, even if they were symbols that might fall out of the category of ‘art’. Because these groups stopped being an art movement and became a movement of the city, environmental, political and social, bringing the field of art closer to that of political activism,as a result of interventions in non-institutionalised spaces and with an eminently critical character.

 

The art world didn’t understand then what was happening: thereference to art is annihilated. We weren’t better understood by theorists or even by ourselves. We ended up losing ourselves. Therewere symbolic barricades against the police; signs advertising real estate were stolen from the streets, repainted with forms and designs by the EIA collective. Things were never inany form of order, far from anything recognisable. How do you create a symbolic artistic barrier which interrupts the actions of the police on a day of eviction? The police would have to remove artwork from their path, to invade the squat and take people out. Those barriers made from real estate signs were being repeated, until they were repainted by the Elefante collective and ended up with the word ‘DIGNITY’. Now it was possible to understand a little better. Now it is no longer a work of art trying to block the arrival of the police, it is the word ‘DIGNITY’. They were barriers because those signs had a physical size for this, and we imagined the riot police arriving and trying to take many things from inside. But now they would mainly have to remove the word ‘DIGNITY’.

 

The artists that produced art at that time used to manipulateinformation, they would manipulate how a certain group of social housing would be seen by the media. Everything very plastic, everything very imagetic.

 

It wasn’t easy, it wasn’t simple. It was a moment of great tension. In the air was the danger of having to leave running in the middle of the night. We were there producing art, experimenting.

 

I believe that the movement of these collectives will become famouswhen they no longer pose a threat, when it no longer smellslike shit, when it becomes photos, films, books, master’s degrees, PhDs, post-theses, to appear in large biennales and museums in order to say why that symbolic act was important. Right now, when the movement appears to be perfume is when the virus, implanted there at the back, right at the start, before the hurricane forms, will be eternally unbalancing, messing things up, disorganising and disrupting. New people there at the front, even with things neatly packaged, will be co-opted by this disorganising virus. They will think powerful, potent things and continue to disintegrate. That is bigger intention, that all this history is an eternal disintegrating element of absolute values. A viral process of collective agency of temporary autonomous zones, produced starting from incessant dissenting recompositions and not from a logic of consensus. They are facts that point to the limits between the power of subversions and the power of co-option within the system of art and life; a moment in which the art system and the political and economic system manage to take ownership of every critical movement of disruption.

 

They are‘becomings’of a historical construction, actions and absurd or surreal interferences in time and some place in the universe that is infinite.

 

Present in thistext are thevoicesof Sebastião de Oliveira Neto, Ricardo Rosas, André Mesquita, Fabiane Borges, Flavia Sammarone, Milena Durante, Ricardo Basbaum, Plato.

 

Túlio Tavares

 

 

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Artwork Becareful with the fire, 2003, Túlio Tavares

 

This work consisted of a collage of letters that formed the phrase “BE CAREFUL WITH THE FIRE”, which was carried out on a wall on the terrace of the last floor of the OcupaçãoPrestes Maia squat, with a view to the city. It was a clear reference to the fire that happened in the building in September 2003, three months,therefore, before the exhibition ACMSTC, which resulted in the destruction of four storeys and the death of a four year old girl. The tension of the situation is clear here: If on one side there is a direct reference to the tragedy that occurred in the building, on the other it highlights the risk of that event-occurrence. “To catch fire” had as much to do with the fire as with the explosions and repercussions that an event like that could cause.

 

 

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