Parque para brincar e pensar

por Contra Filé

Entendemos que o Parque para brincar e pensar, na integração de inúmeros saberes e fazeres, tem como objetivo criar uma intervenção poética que torne visível a realidade de um território com todas as suas contradições e que, ao mesmo tempo, seja descobridora de sonhos, perspectivas e projetos de futuro. Assim, o Parque se configura como um grande símbolo, daquilo que é e, ao mesmo tempo, daquilo pode vir a ser.

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 (…) potencializada pela idéia de tornar a cidade disponível para todos os grupos, a prática crítica inclui dentre seus propósitos estéticos o desafio a certos códigos de representação dominantes, a introdução de novas falas e a redefinição de valores como abertura de outras possibilidades de apropriação e usufruto dos espaços urbanos físicos e simbólicos.[1]

De fevereiro à junho de 2011, o Parque para Brincar e Pensar se constituiu como um acontecimento produzido pelo coletivo Contrafilé, o Jardim Miriam Arte Clube (JAMAC), a comunidade Brás de Abreu e diversos parceiros. Neste tempo-espaço, uma área abandonada no meio de uma favela da zona sul de São Paulo (na qual a Eletropaulo colocou abaixo diversas casas que estavam construídas sob fios de alta tensão) foi re-apropriada pelas pessoas da comunidade, no interior de um processo criativo que foi, em si, um verdadeiro território de invenções.

Nesse processo, vivemos o embate pela produção da cidade como um “jogo situado de escalas”[2], por vermos ali operarem diversas dimensões de poder: desde a mais concreta e específica, que coloca em movimento redes locais, até a relação com o Estado em sua forma de pensar e construir o espaço. Para nós, tem ficado cada vez mais claro que, para poder operar em escalas de proliferação, influência e inscrição mais amplas, precisamos sempre partir de nossos próprios corpos e da capacidade de nos colocar à prova no embate direto com a cidade. Porque é na ação direta, escala 1:1, onde aparece de forma evidente a tensão entre o corpo e a cidade em seu fundamento; que é, por excelência, a tentativa de homogeneizar a diversidade dos corpos que ocupam um mesmo território e que lutam, cotidianamente, para construir uma cidade na qual se sintam representados.

O Parque para Brincar e Pensar nasceu de outro trabalho do grupo Contrafilé[3] iniciado em 2005 e nomeado por nós como “A Rebelião das Crianças”, a partir do qual tornou-se perceptível que o direito à uma cidade plena, como construção social permanente, só se realiza quando diferentes grupos e gerações dialogam e produzem juntos devires – ao imaginá-los e executá-los.

A brincadeira passou a ser entendida como prática, mas também como metáfora de uma possibilidade muito particular e bastante saudável de rompimento dos muros e segregações sociais, geracionais e espaciais tão arraigados em nossa sociedade  – e na atualidade global de modo geral -,  ao inscrever-se como espaço de elaboração de diversas camadas de vida, tanto individuais quanto coletivas, tanto subjetivas como objetivas. Que territórios sociais, culturais, físicos e simbólicos as brincadeiras constituem?

Sob a hipótese de que vivemos em uma sociedade na qual a presença da criança e da juventude se reduzem à algumas imagens, tais como a de futuro, vitalidade, consumo ou perigo potencial, é uma tarefa não só importante como necessária, no caminho de transformar os estigmas que moldam os espaços identitários, gerar experiências “extra-geracionais” de produção crítica.

As experiências nomeadas aqui como “extra-geracionais” questionam e buscam superar aquelas nas quais adultos ensinam e crianças e jovens aprendem. É um tipo de experiência que instaura um território de existência no qual todos brinquem juntos (tanto ao imaginar o brinquedo que irão construir como ao experimentá-lo) e, ao fazê-lo, colocam-se como corpos frágeis em estado de criação. É, portanto, um território onde um enxerga e apreende o outro e, assim, tem condições de compreender melhor o estado do mundo atual, respeitá-lo, transformar-se e transformá-lo.

A condição das crianças contemporâneas é uma condição carregada de uma espécie de maturidade. Um saber fazer, um saber estar no mundo, um saber orientar-se quando existem muitos imprevistos, quando não existem regras precisas. Este saber deles hoje é uma referência para compreender o mercado de trabalho, a precariedade e a imprevisibilidade dos usos e costumes contemporâneos.[4]

Ao longo deste processo de pesquisa, trabalhamos algumas vezes criando jogos com crianças que vivem nas ruas. Situações que revelaram, criando uma espécie de estranhamento por quem passava na rua que, ao contrário do estabelecido no imaginário social, aqueles meninos e meninas são crianças e não criminosos. Dentre estas brincadeiras, instalávamos balanços em viadutos da cidade, nos quais brincávamos juntos em meio ao caos. Os lugares escolhidos eram estratégicos: ao mesmo tempo em que destacavam a situação que ali ocorria e todas as tensões que ela envolvia, criavam uma imagem visualmente inquietante.

Poderíamos nos perguntar qual a diferença entre uma montanha-russa na qual pessoas de todas as idades brincam juntas e estes brinquedos que propomos. A principal diferença é o aproveitamento deste espaço de desejo e de diversão como espaço de troca, diálogo e invenção. É a expansão da situação, transformada em processo.

Numa cidade onde os espaços do comum e da fantasia estão desvalorizados e o jogo da convivência é regido pelo valor imobiliário do mercado, as pessoas se vêem fora da possibilidade de se pensarem criadoras e gestoras de seu próprio ambiente. Assim, o “Parque para Brincar e Pensar” parte da crença de que a elaboração coletiva dos conflitos com todas as suas contradições e mistérios, possa ampliar as possibilidades de compreensão ao criar um espaço de fala, escuta, ação e reflexão.

 

A liberdade da cidade é, portanto, muito mais que um direito de acesso àquilo que já existe: é o direito de mudar a cidade mais de acordo com o desejo de nossos corações[5].

 

[1] Pallamin, Vera M., Arte Pública como Prática Crítica (pg. 107) in Cidade e Cultura: esfera pública e transformação urbana, Pallamin, Vera M. (org). São Paulo: Editora Estação Liberdade, 2002.

 

[2] Conceito desenvolvido pela socióloga Ananya Roy para falar sobre as diversas escalas que operam nos “campos de disputa” que se configuram nas cidades contemporâneas.

[3] Coletivo de arte que trabalha criando intervenções no espaço público, principalmente em São Paulo, desde 2000. Nos últimos anos o grupo vem desenvolvendo várias experiências de jogos e brinquedos, como um balanço gingante, de 15 metros de altura, construído em bambu e instalado no Parque Ibirapuera em 2008.

 

[4] Idem nota 1.

[5] Harvey, David. “A Liberdade da Cidade”. Revista Urbânia 3, Ed. Pressa, 2008.

A Rebelião das Crianças, Praça da Sé, São Paulo, 2005 – fotos: Peetssa

A Rebelião das Crianças, Praça da Sé, São Paulo, 2005 – fotos: Peetssa

 

A Rebelião das Crianças, instalação de balanço no Viaduto Okuhara Koei, São Paulo, 2005 – fotos: Peetssa

A Rebelião das Crianças, instalação de balanço no Viaduto Okuhara Koei, São Paulo, 2005 – fotos: Peetssa

A Rebelião das Crianças, faixa colada no Viaduto Okuhara Koei, São Paulo, 2006 – Fotos: Antônio Brasiliano

A Rebelião das Crianças, faixa colada no Viaduto Okuhara Koei, São Paulo, 2006 – Fotos: Antônio Brasiliano

Ato contra a tortura na FEBEM (atual fundação CASA) organizado pela AMAR (Associação de Mães e Amigos dos Adolescentes em Risco) em parceria com o Contrafilé, Patio do Colégio, São Paulo, 2006 – Fotos: Peetssa

Ato contra a tortura na FEBEM (atual fundação CASA) organizado pela AMAR (Associação de Mães e Amigos dos Adolescentes em Risco) em parceria com o Contrafilé, Patio do Colégio, São Paulo, 2006 – Fotos: Peetssa

Balanço de Bambu, Parque do Ibirapuera, 2008 – Foto: Peetssa

Parque para Brincar e Pensar, Contrafilé em parceria com JAMAC, comunidade Brás de Abreu e colaboradores. Jardim Miriam, São Paulo, 2011. www.parqueparabrincarepensar.blogspot.com Foto: Peetssa

Parque para Brincar e Pensar, Contrafilé em parceria com JAMAC, comunidade Brás de Abreu e colaboradores. Jardim Miriam, São Paulo, 2011. www.parqueparabrincarepensar.blogspot.com Foto: Peetssa

Parque para Brincar e Pensar, Contrafilé em parceria com JAMAC, comunidade Brás de Abreu e colaboradores. Jardim Miriam, São Paulo, 2011. www.parqueparabrincarepensar.blogspot.com Foto: Antonio Brasiliano

 

 

 

 

 

 

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