Intervir?

por Frente 3 de Fevereiro

Troca de e-mails para o Projeto Na Borda:  Em 5 de março de 2012 17:42, Daniel Lima <danielcflima@yahoo.com> escreveu:

Fevs, Na quarta passada fizemos a reunião do projeto Na Borda. Seguem as anotações abaixo:

Discutimos bastante as dinâmicas de segregação e exclusão da cidade de São Paulo (aplicada a várias outras metrópoles brasileiras). O que seria um jogo-paródia do “Banco Imobiliário”para São Paulo? Ande. Pule casas. Junte casas. Compre um shopping. Retorne ao início. Ocupe um terreno. Deixe a casa vazia. Espere a valorização. Vá a prisão. Volte ao jogo. Vença os outros. Vença a sociedade.

Espaços como shopping center e suas políticas espaciais (lojas populares x lojas caras), perfil do shopping elite e popular, etc. Também nesta linha veio a ligação com a Daslu e a morte recente da dona (Eliane Tran…). A Dona Daslu Morreu!

Como estas políticas de segregação são apoiadas pelo Poder Público em várias esferas? Como são reveladas em dimensões diversas, como o uso da calçada, a localização, acesso…?

A partir deste tema ACESSO, a ponte que faz uma passagem entre diferentes mundos, surgiram muitas reflexões. A Ponte Estaiada foi pensada como símbolo desta passagem, deste acesso exclusivo somente a carros (sem entrada e permissão a pedestres, ônibus, bicicletas, etc.). Assim como a Daslu, reproduz a chave-carro que permite a abertura de um portal. Só que neste caso é Poder Público que instaura está política de separação.

O metrô da linha amarela (Parceria Público Privado), que submete a todos o corredor estreito, buraco de rato. A multidão que caminha como enxurrada nas estreiras em baixo da terra. Novamente no metrô, a terra subterrânea que se abre somente diante da chave que destrava catracas e portas-guilhotina. ACESSO à trama subterrânea que anda mais rápido que a superfície.

O ACESSO está também nas portas giratórias dos bancos estão sendo retiradas pela força pelos processos civis. As portas giratórias de bancos que somente agora começam a serem consideradas instrumentos de humilhação e discriminação. As portas que travam e não te dão acesso. A porta transparente e travada. A porta constrangimento. E o porteiro-juiz da atitude suspeita.

Outros dispositivos de exclusão que proibem o ACESSO:

  1. o banco do ponto de ônibus, antes reto e possível de deitar, hoje com assentos individuais;
  2. as grades pontiagudas que nos impedem de sentar na frente de bancos, lojas, restaurantes, etc;
  3. as grades que protegem o lixo dos prédios e condomínios. Grade com cadeado para não revirar o lixo! Caixa forte do lixo;
  4. o “lixo humano” expulso até debaixo das pontes. Novas invenções contra o lugar do morador de rua. Nem mais embaixo da ponte se vai…

Por último, o ACESSO último, a última chave: a senha. É senha para computador, para internet, para email, para celular, para banco (várias), para as diversas lojas, para as redes sociais… a senha com segredo último e chave-mestra. A senha que substituiu a assinatura, marca da singularidade individual, pelo registro único e irreplicável. A senha que vc não fala nem para a sua confidente, para seu companheiro, sua mãe… senha que morre com vc.

O que seria uma terapia de senha? Compartilhe sua senha pelo menos uma vez na vida! Exorcise seu segredo final!

Enfim ACESSO único, ACESSO líquido, ACESSO carro, ACESSO suspeito, ACESSO avesso… CHAVE mestra, CHAVE única, CHAVE lúdica, CHAVE perdida,

“(…) As sociedades disciplinares têm dois pólos: a assinatura que indica
o indivíduo, e o número de matrícula que indica sua posição numa massa. É que as
disciplinas nunca viram incompatibilidade entre os dois, e é ao mesmo tempo que o
poder é massificante e individuante, isto é, constitui num corpo único aqueles sobre
os quais se exerce, e molda a individualidade de cada membro do corpo (Foucault
via a origem desse duplo cuidado no poder pastoral  do sacerdote – o rebanho e
cada um dos animais – mas o poder civil, por sua vez, iria converter-se em “pastor”
laico por outros meios). Nas sociedades de controle, ao contrário, o essencial não é
mais uma assinatura e nem um número, mas uma cifra: a cifra é uma senha, ao
passo que as sociedades disciplinares são reguladas por palavras de ordem (tanto
do ponto de vista da integração quanto da resistência). A linguagem numérica do
controle é feita de cifras, que marcam o acesso à informação, ou a rejeição. Não se
está mais diante do par massa-indivíduo. Os indivíduos tornaram-se “dividuais”,
divisíveis, e as massas tornaram-se amostras, dados, mercados ou “bancos”. É o
dinheiro que talvez melhor exprima a distinção entre as duas sociedades, visto que
a disciplina sempre se referiu a moedas cunhadas em ouro – que servia de medida
padrão -, ao passo que o controle remete a trocas flutuantes, modulações que
fazem intervir como cifra uma percentagem de diferentes amostras de moeda. A
velha toupeira monetária é o animal dos meios de confinamento, mas a serpente o
é das sociedades de controle. Passamos de um animal a outro, da toupeira à
serpente, no regime em que vivemos, mas também na nossa maneira de viver e
nas nossas relações com outrem. O homem da disciplina era um produtor
descontínuo de energia, mas o homem do controle é antes ondulatório, funcionando
em órbita, num feixe contínuo. Por toda parte o surf já substituiu os antigos
esportes.”

“(…)As antigas sociedades de soberania
manejavam máquinas simples, alavancas, roldanas, relógios; mas as sociedades
disciplinares recentes tinham por equipamento máquinas energéticas, com o perigo
passivo da entropia e o perigo ativo da sabotagem;  as sociedades de controle
operam por máquinas de uma terceira espécie, máquinas de informática e
computadores, cujo perigo passivo é a interferência, e o ativo a pirataria e a
introdução de vírus.”

Deleuze, Conversações (Post-Scriptum Sobre as Sociedades de Controle). 1990
(texto na íntegra em anexo)

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From: Felipe Brait <felipebrait@gmail.com>
To: frente3defevereiro@yahoogroups.com
Sent: Friday, March 16, 2012 7:49 PM
Subject: Re: [frente3defevereiro] Reunião II – Na Borda

Fevs,

Faço algumas reflexões complementares :

A lógica de se pensar o ACESSO passa por um ponto de investigação nosso tal qual a experiência de trabalhar com o muro. Como replicar ? ou como desenvolver um jogo a partir dessa idéia é o que estaria em questão aqui ? ou Pensar essa noção de ACESSO tb a partir de dados que ja passaram pelo universo do coletivo como : abadá x pipoca, caso Carrefour, caso Casas Bahia, MÃE PRETA, Lei de cotas, Babás-amas-de-leite, acesso publico ao julgamento dos assassinos do Flavio, invasão da bandeira na festa de abertura de COPA .. O ACESSO como ponto de ruptura me parece ser um caminho mais interessante e potente de trabalho do que esse caminho do ACESSO individual – compartilhado, não por medo de compartilhar senhas, mas pelo carater “individualizador” do conceito. Pensar ACESSO como CHAVE sim. Que o conceito de ACESSO seja o gatilho de disparo entre nossas vontades politico-estéticas(ação final) e nosso discurso F3F (reflexões etno-sociais) e dae vamos .. tomar essa base conceitual do ACESSO como gatilho e explorar as fissuras da sociedade de controle .. esta aí o texto do delleuze pra mostrar isso .. AÇÃO-CHAVE deflagrando o ACESSO … passagem, movimento, mutabilidade descontinua do homem pós-moderno … ACESSO entre a senha da individualidade e o adestramento da multidão ? seria o individuo nesse magma de multitudes ou seus destinos que nos interessa ? é uma operação interessante de jogo .. jogar com os ACESSOS seus pontos de origem, de passagem e de destino … é um caminho

Pensar tb nas questões do moradores de rua, numa ótica pós ação CRACOLANDIA janeiro-2012 e o espetaculo da brutalidade policial e no contexto especifico de São Paulo, deslocamento de população – remoções, especulação imobiliaria pós-Itaquerão, conflitos na USP, marchas na paulista, movimento acampa sampa, enfim .. atravessamento de percursos ..

sugiro a idéia de pensar também no CARRINHO, os carrinhos dos craqueiros, os carrinhos camelos, os carrinhos de catadores, são bons dispositivos pra jogar com a urbe .. enfim .. foi uma pirada .. mas creio que presencialmente a gente consiga produzir melhor nossa ação .. ela deve estar elaborada para a conversa pública no dia 28/03 ? como apresentar isso ? como vamos nos organizar ?

Abxx

Brait

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Daniel Lima <danielcflima@yahoo.com> escreveu:
Fala Fevs,

Muito boa colocação, Brait. Vc deixou mais claro que devemos pegar este mote ACESSO para ir longe.

Não creio que existe essa dicotomia entre ACESSO individual/individualizador e o ACESSO como ponto de ruptura/separação. Creio que são parte do mesmo processo. “Os indivíduos tornaram-se ‘dividuais’, divisíveis”. O que isso diz sobre o acesso? Antes tínhamos a assinatura que abria todos os mundos que precisassem de um comprovação de identidade. Isto colocava-nos, em todos os acessos, diante de uma mesma chave, uma mesma marca individual. Hoje, somos impelidos há criar infinitas chaves (senhas) para infinitos mundos. Pensemos em quantas chaves temos e quais mundos parciais elas abrem.

A Sociedade de Controle se sustenta na capacidade de restringir e dar acesso. Criar filtros, peneiras, tramas em que passam parte da parte daqueles que tem a chave. É fundamental que todas as instituições (que precisam da circulação destas individualidades) tenham sistemas que permitam a passagem de somente uma parte de nós.

O capitalismo atual necessita que toda sociedade entre no jogo do consumo. Com ou sem trabalho, todos tem que consumir. Por outro lado, o Estado vive no limite que exclui uma imensa parcela da sociedade de seu direito íntegro de cidadão. Então, como este sistema integrado Público/Privado pode controlar o que entra e como entra? Entre os diferentes fluxos que fazem parte do mundo, como criar portas seletoras automáticas? Aí entra o “Os indivíduos tornaram-se ‘dividuais’, divisíveis”.

Tornar-nos divisíveis quer dizer que temos acesso a parte de um mundo, em que entra apenas parte de nós. Nunca a senha abre todo o sistema. Nunca vc pode estar “inteiro” neste mundo. Continua a palavra de ordem: dividir para conquistar.

A lógica é a mesma do muros invisíveis mas com uma truculência distinta, com uma sutileza distinta, com um controle mais refinado no caso das estruturas digitais. Mas toda necessidade de controle nasce da mesma lógica. Talvez o que distingue é um controle bruto e um controle fino, mais imperceptível.

Veja a questão das portas giratórias dos bancos. Estes dispositivos barram o que consideram “suspeito”. É a falsa imagem da porta seletora automática, que seria como uma real porta detectora de metais. Mas, na maioria dos casos, é segurança apertando um botão de trava. Esse é o controle bruto. E que parte de nós não pode entrar? Aquilo que o segurança manda vc tirar! É o filtro tosco. Por isso está entrando em desuso. Saindo de circulação. É um dispositivo arcaico para nosso capitalismo.

No mesmo caso dos bancos, quando estamos diante de num caixa eletrônico, temos a porta seletora automática: a senha inicial. Depois de outras senhas, entramos no mundo da circulação financeira. Ali podemos movimentar. Levar valores de um lugar ao outro. Até valores que não são nossos (no caso de empréstimos, dinheiro do banco). Mas que parte nossa não entra? Tudo que não sejam números. Dentro deste mundo financeiro,  não podemos acessar infinitos outros mundos. Para investir na bolsa, por exemplo, outro fluxo financeiro, precisamos de novas chaves. Este é controle fino. Que se multiplica atualmente.

Como tornar visível estas chaves (bruta e fina)? Acho que podemos pensar numa sequência de ações que envolvam a visibilização da chave, do controle, do acesso. Tornar visível o invisível. Seja no campo físico, seja no digital. Assim poderíamos criar uma narrativa que envolve a discussão do acesso, as ações de ruptura…

abr
dcfl

 

A Sociedade de Controle se sustenta na capacidade de restringir e dar acesso. Criar filtros, peneiras, tramas em que passam parte da parte daqueles que tem a chave. Entre os diferentes fluxos que fazem parte do mundo, como criar portas seletoras automáticas?
Tornar-nos divisíveis quer dizer que temos acesso a parte de um mundo, em que entra apenas parte de nós. Nunca a senha abre todo o sistema. Nunca vc pode estar “inteiro” neste mundo. Continua a palavra de ordem: dividir para conquistar.
Como tornar visível estas chaves (bruta e fina)? Acho que podemos pensar numa sequência de ações que envolvam a visibilização da chave, do controle, do acesso.  O ACESSO como ponto de ruptura

 

 

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