“IDENTIDADE TRANS” – intervenções poéticografadas

por Projeto Matilha + Agência Ficcional (EIA).

AGENTES & TRANSCENDENTES

vestir a fantasia de si mesmo. despir-se, revelando o devir. brincar de ser, sendo.

IDENTIDADES EM TRÂNSITO

Seria possível a identidade que nos acompanha no dia-a-dia transcender aquilo que acreditamos ser? Quais seriam os desejos pulsantes capazes de deslocar a nossa identidade primeira, constituída pelas condutas sociais? Quantas combinações variantes de identidade cabem num corpo? E como isso se dá? O projeto Matilha inicia sua investigacão artística a partir dessas questões, para abordar dizeres poéticos do indivíduo através de seu auto reconhecimento.

Quando movida pela ação do desejo, a identidade em trânsito aponta para novas subjetividades dentro do contexto onde está inserida. E sempre aos olhos alheios, pois a noção de identidade é inseparável do conceito de altetridade. É o outro que reconhece, nomeia e autoriza (ou não) aquilo que somos e representamos no âmbito social. Ao propor o conceito de Transcendentidade, lançamos novas questões sobre cruzamentos e influências na construção de uma identidade transcendente àquela que nos foi atribuída. Ou ainda, no reforço afirmativo sobre aquela identidade que talvez passemos a vida a negar. Como nos dizermos? Como nos reconhecermos? Como podemos transcender aquilo que sabemos a respeito de nós mesmos? Como expressar a superação de nossas identidades constituídas, ou ainda afirmá-las, a fim de nos reconhecermos no campo poético-relacional? Como dar forma ao transbordamento dos nossos contornos? Como e por que reiventarmo-nos?

CARTAS NA MESA

Sentar-se à mesa para um jogo com outras pessoas. Falar de si. Mentir-se. Inventar-se. Revelar segredos. Dizer verdades. O jogo de cartas e algumas questões: Quem é o desconhecido? O que sabemos a respeito dele? O que lemos na imagem do outro? O que a presença do outro suscita em nós? Como habitar um tempo/espaço juntos pela cidade hoje?

Jogar é o verbo que se apresenta à Matilha faminta por respiros, encontros e afetos. Momento em que a arte se disfarça de vida ou a vida contornada pela arte?

Seduzidos por jogos de disfarces, de exposições e encontros a Matilha escolheu um catinho da cidade repleto de fluxo e já imantado pelo calor da disponibilidade: mesas de jogos no Largo Santa Cecília (centro de São Paulo) na saída do metro. Ali junto aos grupos EIA e Ocupacidade realizamos a intervenção CARTADA SANTA CECILIA. A partir da ludicidade presente nos jogos, estabeleceu-se um território livre de diferenças entre o artista e receptor de arte.

Na ação as cartas na mesa revelavam segredos, ideias, proconceitos e vontades. Uma espécie de “Buraco das identidades”, onde o objetivo é montar uma canastra de si mesmo. Quatro jogadores recebem 7 cartas cada um. O montinho fica no meio e os jogadores compram e descartam. A primeira carta comprada do monte na mesa é preferência sexual “homosexual”. A reação vem de forma violenta:
_ Eita diacho de jogo! Não quero isso não! O homem se levanta e não quer mais jogar, mas logo volta à mesa, curioso para bisbilhotar o jogo…
Alguém descarta o time “Corinthians“ e o outro compra o monte todo:
_ Este é meu!
A moça loira pega a carta de etnia “negro”. Alguém reage:
_ Mas você não é negra!
_ É que eu gosto! Ela afirma.

E assim, meio sem saber, fomos nos reconhecendo entre regiões da cidade, comidas preferidas, preferências sexuais, times, crenças e outros detalhes de cada um que, postos na mesa, revelavam as múltiplas escolhas associadas ao discurso identitário. Stuart Hall em A Identidade Cultural na Pós-modernidade contextualiza a mutabilidade do sujeito pós-moderno:

A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia (…) à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente.

No entendimento da arte como campo de troca e expansão perceptiva, a teatralidade da acão artística faz emergir um corpo-poético dentro do espaço público A simplicidade da proposta desperta o prazer de um jogo quase pueril de “vestir a fantasia de si mesmo”. Ao assumir identidades, desejos e potencialidades de maneira poética, estamos ao mesmo tempo refletindo sobre os papéis sociais que nos são impostos e sobre o hibridismo que sofremos durante todo o processo da vida.

A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. É definida historicamente, e não biologicamente. (…) Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas.

Identidade e cultura como dinâmicas inseparáveis, movidas pelos desejos, que alimentam nossos sonhos. Estética da (re)invenção constante de si. Como um outro e como o mesmo. Seja no fluxo da contemporaneidade – como reiteração da polifonia; ou seja nas bordas, onde podemos criar linhas de fuga na rota do pensamento obliterado pelas imposições que nos oprimem.

O que seria então aquela gente ali fantasiada? A moça de peruca, o moço de cartola, a mulher com pele de onça… Um carnaval fora de época? Uma festa à fantasia? Ou apenas o gesto expressivo criando um verdadeiro dizer estético sobre quem somos?  Somos todos estes e outros ainda por revelar-se. (…) Aqui opera a Agência Ficcional, projeto irmão da Matilha, atenta aos fluxos da imersão e convocando agentes e desejos secretos, na escuta e na legitimação dos devires. Dialogar com a linguagem da arte contemporânea é também pensar a intervenção artística como espaço vivo de relacionamento.

ESPELHOS MUTANTES

A contemporaneidade, marcada pela abundância de desejos, necessidade de consumo, mutação e experimentação constantes, reproduz em nós como um de seus sintomas mais incisivos a identidade volátil.

Ao sujeito contemporâneo cabe o papel de trocar infinitamente de pele sem a garantia de vir a ser o que quer que seja. O tempo inteiro vivenciamos a projeção de uma série de imagens consumíveis, baseada em padrões que muitas vezes em nada dialogam com a potencialidade de nossos verdadeiros afetos e desejos.

Diante de tal contexto, nossa própria identidade – como cidadãos-artistas – e nossos lugares de atuação são muitas vezes apoderados pela vertigem de um tempo impertinente. Os espaços sociais de encontro e compartilhamento migraram para o cyberespaço, onde a virtualidade como potencial do acontecimento nos mantem sempre à espera.

Na tentativa de encontrar lugares possíveis de trocas, nós como propositores, trazemos para o plano horizontal aquilo que entendemos como nosso material de criação: a relação humana na coletividade e a afetivação dos territórios. O estético como vivência de intersubjetividade onde “a vida não se distingue da obra como campo de experimentação”, aponta Marli Ribeiro em Filosofia da Criação.

COLETIVIDADE: MATILHA

Atuar no campo da coletividade artística hoje é também perguntar como lidar com a capacidade de instaurar um espaço onde seja possível criar arte com base na poética do coditiano. Na configuração de novos processos artísticos a potência das relações sociais vem sendo destacada por alguns pensadores da arte assim chamada pós-moderna. Nicolas Bourriaud em Estética Relacional, fala da obra de arte como interstício social e conceitua arte relacional como

a arte cujo substrato é dado pela intersubjetividade e tem como tema central o estar-junto, o  “encontro” (…) a elaboração coletiva do sentido.

O trabalho desenvolvido pelo projeto Matilha junto ao grupo EIA, orientou-se pelos conceitos da estética relacional ao privilegiar o encontro lúdico com o público e junto a ele fazer uma construção sensível das ações em tempo real. Muitos foram os momentos de encontro estético e troca de saberes vários. Identidades multiplicadas, cruzadas e confrontadas entre si, sentaram à mesa e beberam (literalmente) das ideias oferecidas como brincadeira mas levadas a sério por cidadãos-artistas dispostos a “diluirem-se” por um tempo no espaço da cultura urbana.

Talvez no modo híbrido da arte contemporânea estejam latentes algumas pistas para a retomada do “lado de fora”. Voltar-se ao espaço público como lugar de uma expressão estética genuína que se lança ao mundo para além da lógica neo-liberal do resultado e do produto. Processo gerando processo ou work in progress. Risco, incerteza e variedade de leitura.

Longe das verdades absolutas no terreno estético a Matilha lança suas proposições criativas ao outro, apontando algumas formas de ver e fazer, mas deixando espaços permeáveis ao modo de criação coletiva, que é unica e não se repete, dado que uma das maiores belezas deste processo artístico é ser tão vivo quanto inacabado.

 

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