Desaparecido

por: BijaRi

Desaparecido é uma pessoa que secretamente(ou não) é abduzida ou presa pelo estado ou organização política, parapolítica ou paramilitar com autorização, apoio ou consentimento do estado, seguida por uma recusa no reconhecimento do destino ou paradeiro, com a intenção de remover a vítima da proteção da lei.

Homo sacer(“o homem sagrado” ou “o homem amaldiçoado) é uma figura da Lei Romana, uma pessoa que é banida da sociedade, tem seus direitos como cidadão revogados e pode ser morta por qualquer um com impunidade, mas não pode ser sacrificada em ritual religioso.

Os Desaparecidos Políticos são uma prática que imaginamos abandonadas em um passado remoto de nosso continente. O sequestro e prisão arbitrários realizados pelo estado via forças armadas ou força policial foram uma prática recorrente das ditaduras militares nos anos 60/70, de brutal violência nos países do Cone Sul. A redemocratização procurou acabar com os porões da ditadura, mas ainda existem elementos saudosos desse período e dessas práticas….

NORMALIDADE

Uma manhã quente e úmida, típica do verão paulistano. Cidade em congestão. Pressa paralisada. Em meio as ladeiras de pinheiros, entre o vai e vem apressado da ida ao trabalho em meio ao calor abafado, chuva e indignação pela tortura do dia a dia, estava ele lá, plantado, sem saber que um plano sinistro estava em andamento.

O Carro Planta é uma instalação nossa(BijaRi), um dos suportes utilizados para ocupação de objetos urbanos com vegetação da nossa plataforma Natureza Urbana, que ocupou ícones urbanos representativos do grande capital: Outdoors(publicidade), caçambas(mercado imobiliário) e automóveis(rodoviarismo). Estava estacionado em frente a galeria Choque Cultural como obra integrante da exposição Estado do Sítio que abordou através de objetos, instalações e mappings a violência consentida instaurada no cotidiano enquanto modos de resistência são criminalizados.

DENÚNCIA

Uma ação orquestrada por pessoas não tão inocentes, que fazem do sequestro, detenção e desaparecimento um modo de vida.
Estava estacionado na Rua João Moura 997 em frente a galeria Choque Cultural, como fazia desde o dia 10 de fevereiro, quando chegou lá rebocado para fazer parte da exposição Estado do Sítio, do BijaRi. Estacionado junto ao ligustro, amplificava a vegetação da rua em um jardim móvel.

Na manhã de 22 de março um cidadão faz a denúncia anônima de uma carcaça de veículo abandonada na rua, como mais centenas a solta pela cidade para a rádio Sul-América Paranóia. A rádio, sempre prestativa em turbinar a neurose rodoviária entre os moradores da cidade, repassa a denúncia para a militarizada Sub-Prefeitura de Pinheiros, que imediatamente envia sua tropa de especialistas em remoção de veículos abandonados.

SECUESTRO E PRISÃO

11:30 da manhã
Baixo Ribeiro(um dos proprietários da Choque Cultural) liga para o BijaRi e avisa que os fiscais da prefeitura estão na choque e dão 3 horas para a remoção da obra. Combinamos com ele então de chamarmos um guincho para remover o carro e trazer para o nosso estúdio. O que foi combinado seria que o guincho estaria no local por volta das 13 horas para a remoção.

12:00
Nova ligação da Choque, a equipe de remoção chega ao local e inicia o processo de remoção da obra, passando por cima do acordo prévio. Pedimos para eles na choque começarem a tirar fotos da prisão, enquanto não chegávamos lá.

12:15
Rodrigo chega de bicicleta na Choque, o carro já tinha sido removido. Volta para o BijaRi e sai de moto com o João atrás do caminhão que levava nossa obra. Da moto eles tiram fotos e seguem o caminhão até o pátio da Sub-Prefeitura de Pinheiros.

12:40
Chegada a Sub-prefeitura de Pinheiros e inicio das tratativas com a burocracia policial/estatal. Em conversa com um acessor de lá, conversamos sobre a matéria da Revista Veja sobre carcaças abandonadas (Frota de carros abandonados cresce na cidade). Matéria essa na qual temos participação e comentário.

Enfim, de modo oral, sem qualquer notificação ou documento, foi exigida uma multa, ou melhor um resgate, de R$ 12.000,00 – doze mil reais – valor da multa para abandono de carcaças de veículos em vias públicas, para a devolução do refém tomado pelas forças policiais. Tudo isso sem notificação, multa ou qualquer tipo de documento com timbre da prefeitura ou qualquer outro órgão oficial.

BATALHA

A partir desse momento é iniciada a batalha pela libertação de nosso preso político. De um lado está a kafkiana burocracia estatal turbinada pela infiltração militar de sua cúpula. De outro os artistas e a batalha midiática que passa a ser travada com amplo apoio dos meios de comunicação.

Em breve o absurdo se espalha pelas redes sociais, mídia de massa e atravessa as fronteiras municipais e depois, nacionais. A notícia do sequestro do carro chega a china.

Obra de arte em São Paulo? Sujeita a guincho – O Estado de São Paulo
Carro é transformado em jardim em obra de arte e causa polêmica – SPTV/Globo
Metrópolis – Obra do grupo Bijari é removida pela prefeitura
Obra de arte é guinchada na zona oeste de São Paulo – Folha de São Paulo
Prefeitura Apreende Carro Verde – Jornal da Tarde

Grupo tenta recuperar carro transformado em obra de arte que foi guinchado em São Paulo – UOL
Prefeitura de SP guincha carro que faz parte de exposição de arte – G1

Grupo tenta negociar liberação de carro guinchado em exposição em SP – G1

Prefeitura guincha obra de arte e causa indignação em SP – Jovem Pan

BLOGS

Prefeitura de São Paulo guincha obra de arte – Cultura e Mercado
Prefeitura “sequestra” obra do Coletivo Bijari – Blog Da Rua
OBRA DO BIJARI FOI GUINCHADA – ArteEducação Online 
Obra do Coletivo Bijari é guinchada pela Prefeitura – Vila Mundo

CHILE
Remolcan auto que formaba parte de una instalación artística en Sao Paulo

DINAMARCA
Bizar skæbne for kunstværk i São Paulo

CHINA
epochtimes.com

Yahoo- Taiwan

New Tang Dynasty Television

Enquanto isso, no front físico a batalha continua. na segunda-feira 26 pela manhã foi agendada uma reunião com o coronel reformado da Polícia Militar e atual Subprefeito de Pinheiros, Sérgio Teixeira Alves.
Nessa reunião foi apresentado o histórico do carro e do projeto Natureza Urbana, as fotos das exposições que ele participou: Annenviertel em Graz, Bienal de Arquitetura, Virada Cultural de 2010, Zona de Poesia Árida na Matilha Cultural, em Araraquara, SWU(configurado como Ônibus Verde) e na Choque Cultural. O Subprefeito percebeu o erro, mas não poderia admití-lo, transformou a multa de abandono de carcaça de veículo em abandono de entulho em via pública, diminuiu o valor do resgate para R$500,00(quinhentos reais) mais diárias de pátio.

Obra vira “entulho” e ganha multa menor

A partir daí foi iniciado o processo de não liberação da nossa obra. O procedimento para a liberação da instalação entrou num labirinto burocrático de formulários, protocolos e prazos inexistentes. Teóricamente perdemos um prazo de entrada do processo de retirada do carro e fomos expropriados de nossa obra. Não poderíamos retirar o carro, só as plantas. A carcaça iria para leilão de carcaças para ferro-velho.

Com toda a repercussão do sequestro fomos convidados a participar de um evento, Jardins Suspensos, dentro do projeto baixo-centro. Uma Zona Autônoma Temporária foi instalada no Minhocão de São Paulo(Elevado Costa e Silva, mais um militar nas ruas de São Paulo) que transformou o viaduto em um jardim, com grama artificial, tendas, piscinas infláveis, sistema de som e pic-nic. Compareceram centenas de pessoas. Fomos convidados a participar dessa mesa-redonda junto com o Baixo Ribeiro, o coletivo Arte Fora dos Museus e outros. A pauta era a presença da arte no espaço público. Nada mais adequado.

A pauta passaria pelo Carro Planta(aliás, está até no anúncio do evento no Facebook – Jardins Suspensos). Com a ausência dele e no caso seria uma mesa redonda sem suporte para imagens, criamos a versão viral do carro planta, o carrinho-de-feira planta. Agora assim, a vegetação pode se espalhar em jardins móveis a prova de militares. Botamos as plantas no carrinho e levamos elas pra passear e ver a cidade do minhocão.

ESTADO ATUAL

Em nível oficial, nada nos foi dito do que aconteceu, como, por que, quem, quando? Não há nenhum documento da sua detenção, a não ser o testemunho fotográfico de seu sequestro e prisão realizada pelas truculentas forças do estado, agindo como sempre em prol da ordem pressionado pela mídia burguesa. O carro continua lá no pátio de carcaças da Subprefeitura. Conseguimos ir lá visitá-lo. Encarcerado, torturado e mal-tratado. Sua lataria está toda amassada, os retrovisor tá quebrado, a pintura arranhada. As plantas continuam vivas, graças as chuvas que caíram no período.

 

 

 

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