TODXS SOMOS NEGRXS

Por Eugênio Lima, Imagem Retrato Ancestral de Cristina Maranhão

Texto inspirado no Teatro Negro do Mundo, de José Fernando Peixoto de Azevedo

(E se X[1] também for Malcolm X ?)

Malcolm X sobre a sua própria morte:

“Quando acordo pela manhã, vejo o novo dia como um presente do céu. Independente da cidade em que estou e o que eu faço ali, eu fico observando continuamente as pessoas negras, que observam todos os meus movimentos e ficam esperando a oportunidade de me matar. Eu já falei o suficiente e abertamente que eu sabia que eles tinham ordens. Para os caçadores de homens eu digo: A selva não camufla só os caçadores, mas também os caçadores de caçadores.

 

Eu sei que posso ser assassinado por racistas brancos ou por negros, que foram corrompidos pelos homens brancos. Também imagino que eu posso ser assassinado por algum negro enganado, que me mate porque acha que assim vai ajudar o homem branco que eu desgraço. Em poucas palavras, eu vivo como se já estivesse morto e por isso, eu quero manifestar aqui meu último desejo.

Prestem atenção, quando eu estiver morto – e falo isso porque pude receber todos sinais possíveis de que não irei presenciar o lançamento deste livro, vejam se eu não tinha razão com a seguinte afirmação: O homem branco vai me usar, também depois da minha morte, como um símbolo de ódio. Ele vai me explorar como um símbolo de ódio, como ele já fez quando eu ainda estava vivo – e ele vai fugir de novo da realidade.

Eu, na verdade, só coloquei o espelho na sua frente, no qual ele viu os crimes indescritíveis que sua raça cometeu à minha raça. No melhor cenário possível, eles me chamarão de “irresponsável“. Nesse caso, eu sempre acreditei que um líder negro que é chamado pelos homens brancos de “responsável“ nunca conseguirá nada. Um homem negro só conseguirá algo quando os homens brancos o chamarem de “irresponsável“. Isso eu já entendi quando era um garotinho. Depois que eu cresci e me tornei um líder dos negros na sociedade racista norte-americana, os ataques dos homens brancos, cada recriminação, me satisfizeram profundamente, porque, dessa maneira, eu ganhei confirmação de que eu estou, como um advogado dos negros, no caminho certo.

As recriminações dos racistas brancos me revelaram, em todos os casos, que eu dei algo bom aos negros. Sim, eu gostei da minha função de “demagogo“. Eu sei que a sociedade, já muitas vezes, matou aqueles que contribuíram na sua transformação.

E se eu puder, com a minha morte, iluminar a escuridão, se eu puder esclarecer uma verdade que vai eliminar o câncer do ódio das raças, que envenena o corpo americano, o agradecimento disso será para Allah. Somente os meus próprios erros, que eu fiz no caminho, são meus.”

(Malcolm X e Alex Haley: Autobiografia de Malcolm X)

 

  1. E se?

“No meio desta tormenta o Negro conseguir de fato sobreviver àqueles que o inventaram, e se, numa reviravolta de que a História guarda segredo, toda a humanidade subalterna se tornar negra, que riscos acarretaria um tal devir negro do mundo a respeito da universal promessa de liberdade e de igualdade de que o nome Negro terá sido o signo manifesto no decorrer do período moderno?”

(Achilles MBEMBE: Crítica da Razão Negra)

 

  1. E se?

O medo Branco, for o medo da volta do cipó de aroeira no lombo de que mandou dar? Se assim for? Quem  tem medo Planeta Negro?

Fear of a Black Planet (MEDO DO PLANETA NEGRO) é o terceiro álbum de estúdio do grupo de rap estadunidense Public Enemy, lançado em 1990. Ele está na lista dos 500 maiores álbuns de todos os tempos da revista Rolling Stone. A faixa “Fight the Power”, a mais conhecida do álbum, está presente também na trilha sonora do filme Faça a Coisa Certa do diretor Spike Lee, lançado em 1989.

 

  1. E se?

Se você ao se considerar um negro pra negro será MANO?

Eu tenho algo a dizer E explicar pra você Mas não garanto porém Que engraçado eu serei dessa vez Para os manos daqui Para os manos de lá Se você se considera um negro Pra negro será MANO!!! Sei que problemas você tem demais E nem na rua não te deixam na sua Entre madames fodidas e os racistas fardados De cérebro atrofiado não te deixam em paz Todos eles com medo generalizam demais Dizem que os negros são todos iguais Você concorda… Se acomoda então, não se incomoda em ver Mesmo sabendo que é foda Prefere não se envolver Finge não ser você E eu pergunto por que? Você prefere que o outro vá se foder.

(Racionais Mc’s: Voz Ativa)

 

  1. E se ? Consciência Negra for…

“Em nosso manifesto político definimos os negros como aqueles que, por lei ou tradição, são discriminados política, econômica e socialmente como um grupo na sociedade sul-africana e que se identificam como uma unidade na luta pela realização de suas aspirações. Tal definição manifesta para nós alguns pontos:

  1. A) Ser negro não é uma questão de pigmentação, mas o reflexo de uma atitude mental;
  2. B) Pela mera descrição de si mesmo como negro, já se começa a trilhar o caminho rumo à emancipação, já se está comprometido com a luta contra todas as forças que procuram usar a negritude como um rótulo que determina a subserviência.

Os negros – os negros verdadeiros – são o que conseguem manter a cabeça erguida em desafio, em vez de entregar voluntariamente a alma ao branco. Assim, numa breve definição, a Consciência Negra é em essência a percepção pelo homem negro da necessidade de juntar forças com seus irmãos em torno da causa de sua atuação – a negritude de sua pele – e de agir como um grupo, a fim de se libertarem das correntes que os prendem a uma servidão perpétua. Procura provar que é mentira considerar o negro uma aberração do “normal”, que é ser branco, a Consciência Negra. Procura infundir na comunidade negra um novo orgulho de si mesma, de seus esforços, seus sistemas de valores, sua cultura, sua religião e sua maneira de viver a vida.

A inter-relação entre a consciência do ser e o programa de emancipação é de importância primordial. A libertação tem importância básica no conceito de Consciência Negra, pois não podemos ter consciência do que somos e ao mesmo tempo permanecermos em cativeiro. Queremos atingir o ser almejado, um ser livre.”

(Steve BIKO: Eu escrevo o que eu quero)

 

  1. E se? Negrxs, Negritude, Negrura, for uma porta para uma outra Humanidade possível…

“A explosão não vai acontecer hoje. Ainda é muito cedo… Ou tarde demais.

Não venho armado de verdades decisivas.

Minha consciência não é dotada de fulgurâncias essenciais. Entretanto, com toda a serenidade, penso que é bom que certas coisas sejam ditas.

Essas coisas, vou dizê-las, não gritá-las. Pois há muito tempo que o

grito não faz mais parte de minha vida.

Faz tanto tempo…

Por que escrever esta obra? Ninguém a solicitou.

E muito menos aqueles a quem ela se destina.

E então? Então, calmamente, respondo que há imbecis demais neste

mundo. E já́ que o digo, vou tentar prová-lo. Em direção a um novo humanismo…

À compreensão dos homens…”

(Frantz Fanon: Pele negra, Máscaras Brancas)

  1. E se? Estes forem os Europeus da peça (isto é ironia): Angela Davis, Sojourner Truth, Malcom X, Amílcar Cabral, Chimamanda Ngozi Adichie, Aimé Cesarie, Achille Mbembe, Racionais Mc’s, NWA, Frantz Fannon, Marcus Garvey, Maurinete Lima, Lélia Gonzalez, Clóvis Moura, Abdias do Nascimento, Frances M. Beal, James Baldwin, Stokely Carmichael, Carolina Maria de Jesus, MV Bill, Karol Conka, Miles Davis, Pixinguinha, Bob Marley, Colonia Daz, Buraka Som Sistema, Da Leste, ‘Negro Prision Songs’[2], ‘Toiy Toiy’[3], Youssou N’Dour, Spike Lee, Branford Marsalis, Povo Dogon, Neo Muyanga e Legítima Defesa.

 

  1. E se? Sempre for Em Legítima Defesa…

Sobre a Pantera Negra.

“A pantera negra é um animal preto e bonito, que representa a força e dignidade do povo negro; um animal que não ataca até ter sido apanhado, estar sem saída e a não ter outra solução a não ser pular para frente. E quando pula, não há nada que a pode parar.”

(Stokely CARMICHAEL: palestra na Universidade de Berkeley- CA, 1966)

 

  1. E se? E se? O Essencialismo for centro da desumanização?

Todo essencialismo é fruto da mentalidade colonizadora, foi ele, o colonizador, que interditou a humanidade de todxs no mundo vivo.

Colonialismo é Nazismo, já dizia Aimé Cesarie.

E em 2017 ainda estamos envoltos nisso, o colonialismo é uma realidade e o racismo é estrutural e estruturante.

Ninguém foge da história e como disse Sasportas: “Nossa escola é o tempo, ele não volta atrás e não há fôlego para a didática, quem não aprende também morre.”

De resto, lamento que ainda existam pessoas que imaginam possuir a autoridade de definir quem é o Negro(a) Legítimo(a) e de como deve ser a Negritude de cada um. Existem Negrxs em quase todos os países do mundo.

Ser negrx extrapola os limites de tempo, clima ou nacionalidade.

A Diáspora Negra é um olhar sobre o futuro:

 

Como uma alternativa à metafísica da “raça”, da nação, e de uma cultura territorial fechada, codificada no corpo, a diáspora é um conceito que ativamente perturba a mecânica cultural e histórica do pertencimento. Uma vez que a simples sequência dos laços explicativos entre lugar, posição e consciência é rompida, o poder fundamental do território para determinar a identidade pode também ser rompido.”

(Paul GILROY: O Atlântico Negro)

 

Brasil é um país.

África é um continente.

E todos os seu estados nacionais carregam a geografia colonial, bem como nas Américas, não existe país que não carregue a marca do sistema escravocrata.

Para mudar a narrativa é preciso ter Voz.

É preciso escuta.

É preciso que as vozes que já existem falem e sejam escutadas.

A Coralidade é a voz coletiva.

Só para lembrar a África do Sul é chamada de o país da Voz, pelos seus Corais Polifônicos. Várias vozes são necessárias para desconstruir o legado escravocrata/colonialista.

Múltiplas vozes são fundamentais para imaginar e construir outro legado: Um legado de liberdade.

No palco/ território da Missão: TODXS SOMOS NEGRXS

E na platéia? Quem somos? Somos?

No mais…

Deixem que digam Que pensem Que falem

O Bando nômade segue.

[1] X designa a ausência de gênero pré determinado, ou mesmo seu abandono, X para falar do coletivo, usando a linguagem não sexista como um alerta para a desigualdade de gênero existente na sociedade, incluindo todxs.

[2] Cantos tradicionais gravados por prisioneiros negros norte americanos.

[3] Canção de protesto contra o Apartheid na África do Sul.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.