Cantareira Salve-se Quem Quiser.

por Julieta Benoit e Projeto Matilha

Canto o desencanto da Cantareira.

A paisagem lembra o chão seco do sertão nordestino. Rachado, com pequenos montinhos de terra emergentes como na superfície de um planeta alienígena do próximo filme de ficção científica.

Um grupo de moradores dos arredores estão ali para um passeio tranquilo, outros arriscam uma tímida pescaria no que restou da represa quase seca. Famílias, casais de amantes, crianças, idosos. O hábito dominical, os carros de época, a música ao longe, as garrafas de bebida popular, a água turva, as vagas notícias na televisão, o mato seco, alguns ranchos abandonados.

Temos ouvido dizer que “o mundo acabou”. Nós podemos acabar? O mundo continua mesmo sem nossa presença?

Salve-se quem quiser.

Quem sabe o cataclisma e a hecatombe sejam os salvadores de nossa patética dependência do petróleo e da compulsão ao consumo desenfreado sem nenhum tipo de cautela ou preocupação com o descarte.

Que a redefinição de nossos comportamentos e valores a partir de mudanças climáticas radicais nos empurrem para novos paradigmas.

Salve-se quem quiser.

Que sejamos salvos de nossa vontade suicida de consumir tudo que vemos pela frente. Essa vocação de nuvem de gafanhotos que chamamos de livre mercado.

Salve-se quem quiser.

Que sejamos salvos do nosso egocentrismo individualista que aprendemos a chamar de competitividade ou empreendedorismo.

Salve-se que quiser.

Que sejamos salvos da apatia que constrói a nossa intolerância, nosso medo, nossa violência. A crença de que o inferno é sempre os outros e que em algum momento algo maravilhosamente mágico e divino descera dos céus nos conduzindo ao paraíso.

Salve-se quem quiser.

Que sejamos salvos da incapacidade de sermos colaborativos e amistosos.

O dito popular já dizia: A pessoa aprende a nadar quando a água bate na bunda. Vivamos o momento em que, numa nova versão,as pessoas comecem a se ajudar agora que a água já mais não abunda, nesse prenúncio de deserto afetivo-político-efetivo.

 

texto: Pedro Guimarães e Fafi Prado (Projeto Matilha).

 

 

 

Ensaio fotográfico:

Cantareira Salve-se Quem Quiser.

Concepção: Projeto Matilha e Julieta Benoit.

Participação especial: Monika Bernardes e Edu Zal.

Fotos: Julieta Benoit.

Produção: Projeto Matilha.

 

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