QUE CORPO É ESSE Performance 1

por Mariana Marcassa

Quando em crise, sai para passear a noite e ao voltar à consciência já está em outra cidade, a quilômetros de casa. Colhe a carcaça dos animais devorados no pasto, por entre as cidades. Porco, boi, cachorro. Dá aos ossos um tratamento especial. A casa fede osso, cal e formol.

Já em São Paulo, vira mendigo, trabalha como limpador de pratos num restaurante em Santa Cecília. Passa a dormir no restaurante. Tempos depois vem a surpresa de uma carta de amor que o chama de volta para o cerrado. Em Goiânia, investe em parcelas infinitas a moto que lhe permite trabalhar na ocupação de moto-boy. Mas o corpo em crise continua sua vida entre os passeios da noite, a bebida e os comprimidos. Bebe muito, guia a moto bêbado pelas ruas da cidade. Cai. A ponte tem quinze metros. O acidente o leva ao coma e depois há o esforço por voltar à vida. É preciso ajuda. Dão-lhe comida à boca, lavam-lhe o corpo, limpam-lhe a bunda. E depois o trabalho duro do locomover só, do comer só, do falar bem. Com o esforço de sua reeducação tem a oportunidade de trabalhar como peão de fazenda. Cuida das vacas e se masturba por entre os pastos. Uma masturbação exaustiva para saciar o mundo que lhe rasga o corpo. Um mundo cheio, um mundo farto que lhe atira para longe da sua pequena realidade da vida no interior, entre a roça e a cidade. Enfia a fralda de pano por entre as pernas e deixa a ansiedade vir. Um tesão que molha tudo, encharca a coxa. Sua. Um dia inteiro até a exaustão do corpo. Até o seu cansaço, onde a mão já não pode mais, dedos doem, uma buceta dói, um pau dói, um corpo dói. Chega, a masturbação já cheira o pasto inteiro, a ansiedade se foi. Como peão de fazenda perde um braço e ganha a vida. Partido de braço triturado pela máquina de cortar capim compra o carro com a indenização e dirige com um só braço. Caga de cócoras em cima da privada, vem do hábito da vida no mato. Gagueja ao ler em público, tem muita dificuldade de pensar bem, um corpo colapsado. O olhar repressor, mudo, sem palavras, atormenta os sonhos. Grita de modo a causar surdices. Bebe todos os dias, tanto quanto for necessário para esquecer o câncer de alguém bem próximo e a sua vida miserável de merda. Há o constrangimento de acordar gozado ao lado dela. Só fala em sexo e grita aos sete ventos a ejaculação precoce. Bebe muito, cai na sarjeta. Espancado, roubado e estatelado na rua, na manhã do dia seguinte. Sai para passear a noite e carrega as carcaças que fedem nos pastos. Mas num dia qualquer encontra o bicho vivo. Passa a conversar com ele, fazem amizade. Leva-o para casa como se levasse a carcaça. Bota-o na cozinha da lavadeira. Empurra aquele cavalo enorme, inteiro, para dentro da casinha que fede osso, cal e formol. Toma comprimidos de tarja preta e bebe com eles. É então que é acometido por doença rara, tem que se proteger do sol. Corpo escondido naquela roupa longa e seu jeito de criar distância. Mas aquele sangue endurecido da aristocracia local lhe causa paralisia: aristocracia latifundiária, das criações de gado, das posses de terra, dos massacres das gentes, do catolicismo redentor. O corpo dói com isso, tende a escapar de si, quer fugir. Vai do esquizo ao paranóico. Um corpo paralisado, gago, descompassado. Corta-se inteiro: a faca afiada de cima a baixo abre rasgo de sangue do corpo marcado. Dentro da pele desenha todo o corpo e traz a evidência de sua própria dor. Toma comprimidos para se comportar bem. Por vezes, se aperta numa roupa justa, afetada, exótica. Não sabe bem como agir a sua homossexualidade naquela cidade de machos. Tantas roupas justas, tantas vestimentas. Vai do revolucionário ao reacionário. Corpo arisco, difícil de chegar perto. Contorce por isso. É gago cheio de tiques. Entre o caminhoneiro e a dona de casa fode a cadela da roça. A cadelinha grita. Mas para quem? Por toda a parte melancolia. O calor é intenso e pelos ares sobrevoam palinhas carboretadas do fogo que consome a mata seca do inverno sem chuva. E como um antigo camarada das campinas goyanas, procura abrigo na sombra de uma árvore retorcida: com a água molha os lábios ressequidos ao mesmo tempo em que come a farinha de mandioca adoçada com rapadura. Sabe ele que desta foda nada sairá, nenhum ser estranho poderá nascer e dar vida longa a sua raça. Raro são seus pensamentos. No descanso, rememora uma experiência que não é sua e cheira o couro úmido da tropa que num tempo distante passava ali. Aquele cheiro de pelo de mula suada mistura-se com o seu, com o cheiro do seu pau que acabara de enfiar na cadela. E toda esta sensação, junto ao calor forte, o faz derreter. Agoniado olha o céu sem nuvens e pensa nada. Tagarela feito cantador e procura uma calma inexistente, uma terra firme qualquer, um chão, um lar. Solidão quase absoluta. Em sua volta cupinzeiro, calango e sol. A queima do mato próximo insiste e o convida mais uma vez, na fumaça ardida misturada a suor, memorar um tempo que não é seu, mas é seu. Imagens lhe tomam as vistas como se o corpo pudesse fazê-las sair pelos poros anunciando-as como marcas que lhe pertencem ao fundo: a bunda assada das viagens longas no lombo do animal, os dias áridos mato dentro, o abrir terras. Homens fedidos babentos pelo ouro. Índios fodidos, escravos, desapossados. O som mudo do sofrimento das gentes em fazer surgir vilas na beira do rio. Vila Boa latifúndio. A capela, o padre, a missa. E mais uma vez o suor, o mau cheiro da dor: pretos escravos, trabalho braçal, corpóreo, duro, rijo. Dos Goyáses resta o nome e algo fundo na pele desse corpo. Aqui, a cadelinha é uma mulher, uma escrava e uma índia. A cadelinha grita, mas para quem? O fogo cessa e a poeira vermelha levanta, irrita os olhos e faz o corpo sofrer. Corre em direção ao riacho. Encontra água límpida, fresca, suave. As piabas do pequeno rio sussurram o ditado popular: coma piabas vivas para aprender a nadar. Não hesita, abre a boca e enfia piabas vivas para dentro da garganta que leva ao estômago. Se joga na água e nada como bicho do mato. Já é noite. Tempos depois vem o porco que anseia engordar para um trabalho qualquer. Compra o porco e o leva para roça. O porco é seu animal de estimação. Cuida do bicho como lulu de madame, alisa, acaricia, dá-lhe comida, banho, leva-o passear. Tem amor pelo porquinho, mas engorda-o e tão logo fará dele boa refeição. Um banquete onde o porco é o convidado de honra que sabe gozar e goza pra caralho. Escreve por ele, pensa por ele. Grita por ele: o porco não é uma metáfora! Numa noite religiosa resolve acompanhar a procissão a pé, de Goiânia à Trindade. Com um cajado enorme encontrado à rua feito osso do pasto, olha toda aquela gente que carrega a cruz para pagar os pecados. Mas os olhos riem toda aquela religiosidade translocada. Chega a Trindade, bebe algumas e volta para trás. Exausto, cansado. Em Goiás Velho se joga contra as paredes da igreja, tantas e tantas vezes, parecendo libertar os sons dos mortos daquela terra. E o corpo grita no embate com a parede. Porrada bruta do corpo exalando o mau-cheiro da dor de seus antepassados: Goyases, Acroá, Kayapó, Karajá, Xambioá, Yavaé, Avá-Canoeiro, Kalungas. A voz escandalosa da defunta Maria Grampinho ao enfiar toda a sujeira da rua nos cabelos. Obcecada pelos grampos que encontrava nas fissuras entre as pedras da calçada, entocada no porão de Cora Coralina, maltratada, largada às traças. Preta louca passa a vida a procurar ramonas[1] e as enfia na cabeleira. Cabeleira suja cheia de grampos. De Cora Coralina, o porão úmido, escuro e suas bruxarias culinárias. Quando feliz, o corpo bebe um tanto a mais e gago já não consegue dizer. A fala vem para expulsar o som. A cabeça treme e o sorriso ocupa a face. Só Jesus! Ele canta. Só Jesus! Nas ruas diz aos berros que ele próprio, o corpo, é um hotel de quinta categoria. Grita noites em claro, no desejo de que alguém o escute e o arranque dali, para muito longe. Bebe por isso. Dança por isso. Roda por isso. É preciso um cansaço. Decide furar os próprios pés num Serão Performático. E aquele sangue espesso espalhado no chão cheira vida e morte, causa espanto e mal estar. Mas por quê? Perguntam. Por quê?

Parou.

É que o corpo velho vê o mar pela primeira vez. Com a onda branda que acalma os nervos o corpo passa a vestir-se somente de branco. Raspa a cabeça e costura as estrias que marcam o ventre feito fissura aberta de animal rajado de listras. Aprende a controlar o próprio descontrole: vômitos na hora certa, mastigação com alargadores de boca, movimentação do corpo retorcido, chicotadas sobre corpo escravo açoitado. Engole mechas inteiras do cabelo à frente, até perdê-lo de vista, e devolve na certeza que já não pode ir além. Enfia agulhas por entre a unha e a carne – gesto sutil e delicado – já não se sabe onde está a beleza e o horror. Joga-se nu contra as paredes. Mede forças com o outro: tapa na cara, grito exaustivo, pedra no cabelo. Uma medição de forças que nada tem a ver com a afirmação de si, nada se pode dizer sob uma dialética, se homem ou mulher, se branco ou preto, se rico ou pobre. A medição de forças vem do próprio esforço que o corpo tem de fazer para se expressar. É mais que uma medição, é todo um esforço em que o corpo entra, uma tensão que ele habita, expressando-se ali com todas as marcas, os colapsos, as dores e gagueiras das desgraças de um corpo. E cria com isso. O corpo gago, acidentado, ansioso agarra a roça, a bosta de vaca. A morte, os ossos, os instrumentos cirúrgicos, o sofrimento e o sangue, o sangue aristocrata e a religião endurecida, o sexo, o nu e a pele, a ejaculação precoce e a masturbação, a dor, a pedra, a tensão. E de uma vida que insiste, a arte.

[1] Ramonas: palavra usada pelos goianos e que significa grampos de cabelos.

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