O Corpomídia e a Prática da Intervenção Urbana

por Fafi Prado

A origem da Intervenção Urbana está remotamente localizada nas relações entre o Futurismo, o Dadaísmo, o Surrealismo e a Bauhaus como movimentos que deslocaram seus preceitos artísticos de lugares comuns e questionaram de forma incisiva os papéis atribuídos à arte, ao artista e ao público.

Jorge Glusberg em A Arte da Performance, analisa os pontos de contato destes movimentos com as artes performáticas: “(…) o que se buscava era uma vasta abertura entre as formas de expressão artística, diminuindo de um lado a distância entre vida e arte e, por outro lado, que os artistas se convertessem em mediadores de um processo social (ou estético-social)[1]”. Surge daí a filiação de práticas como o happenning, a performance e a live art que se relacionam intimamente com a Intervenção Urbana como propostas atuantes em um território de fronteira, onde está em movimento a questão artística como necessidade vital: a apreensão da arte como uma aventura ontológica.

Nesse contexto a Intervenção Urbana introduz a premissa da arte como meio para questionar e transformar a vida urbana cotidiana. Os sujeitos são ativos e criadores e a realidade passa a ser não mais reproduzida e sim produzida. As propostas de ação nascem de estudos de campo, apoiados na percepção do fenômeno urbano como um todo e nas situações potenciais que vão
catalizar os elementos da criação. As ações visam intervir diretamente no entorno onde se desenvolvem, alterando assim os fluxo do cotidiano e gerando novos códigos de leitura.

Nesse sentido, a Intervenção Urbana marca a tomada do espaço público como campo de conexão direta entre o sujeito e a sociedade. Esta proposta entende o exercício do desejo e da democracia, como via emancipatória das ditaduras mercadológicas e outros modos coercitivos do poder.

Em meados dos anos 60, experiências artísticas importantes marcaram a cena norteamericana, especificamente no bairro do Greenwich Village, em Nova York[2]. Ocupações genuínas do espaço comunitário abriram caminho para uma vasta e interessante produção artística ao instituir modelos de produção cultural e artística baseados em novos paradigmas e sobretudo na convivência dinâmica entre artistas e cidadãos envolvidos.

Em São Paulo, nos anos 70, grupos como o “Viajou sem Passaporte” e o “Três nós Três” já apontavam para a necessidade de romper com dispositivos artísticos estabelecidos, como a curadoria de museus e o uso do edifício teatral, através de intervenções no espaço público que visavam uma “crise na normalidade”, questionando de maneira pungente os limites da arte.[3]

No cenário paulistano nos dias de hoje, a cena da Intervenção Urbana vem configurando-se em uma organização de grupos conectados em redes (reais e virtuais) para discussão e execução de propostas voltadas ao espaço público. Já são muitos os grupos que vem sistematizando a diversidade dessa linguagem e refletindo sobre seus contornos dentro do panorama da arte contemporânea.

Partindo de uma reflexão da experiência prática e de exemplos de trabalhos realizados nos últimos dez anos, buscamos com este trabalho elucidar relações intrínsecas entre corpo e espaço e abordar procedimentos de criação dentro da Intervenção Urbana. Para tal, utilizamos o conceito de Corpomídia que considera o corpo não como um depositário de informações, mas um agente de relações processuais com o ambiente no qual está inserido. Em termos de criação artística, é a partir da apreensão senso motora do mundo que o corpo sintetiza as situações potenciais de criação, fazendo uso assim do que o espaço público pode oferecer como disparador de ações da Intervenção Urbana.

CORPOMÍDIA E INTERVENÇÃO URBANA

A imersão do corpo no ambiente é base de criação da Intervenção Urbana. Uma relação construtiva a partir da percepção amplificada do espaço e suas pulsações incessantes. Movido por uma força motriz “encarnada”, a experiência opera como base de criação e aprofundamento das relações com o meio. Corpo que interfere no espaço e elabora as interferências recebidas num ciclo incessante de criação.

Sendo o corpo o mediador dos processos de conhecimento e comunicação, entendemos o artista aqui como agente expansor de sentidos criativos ao conectar sua plena atividade corporal (pensamento, imaginação, percepção, emoção, fisicalidade etc) ao espaço e às demandas sócio-culturais de seu tempo para redesenhá-las no ambiente sob forma de representação simbólica.

Ao produzir relações contíguas com o espaço em tempo real, o Corpomídia leva consigo as informações constituintes de seus processos de assimilação e produção de sentidos. Informações que atravessam corpo são processadas e, ao se proliferarem, constróem mapas ricos em multiplicidade.

Identificamos assim um ciclo onde o corpo captura informações do ambiente externo (espaço urbano), recorta daí os seus focos de interesse (situação potencial) para resignificar a realidade na construção de suas poéticas, em novos e diversificados estados.

Nesta linha, o corpo é ao mesmo tempo agente e resultante da experiência sensorial e motora envolvida no processo de apreensão da realidade. Dessa relação indissociável é que surge a construção artística tendo a ação direta como foco de sua vivência.

Christine Greiner (2003) em Da cozinha de Deus ás membranas virtuais do homem indica que a partir da construção de metáforas o corpo relaciona-se com o mundo e consigo mesmo, estabelecendo processos diversos de comunicação e em níveis diferentes. Ao construir metáforas, o homem age (aciona o sistema sensório-motor) e ao agir, abre a possibilidade de fazer ou desfazer o que foi conceituado antes, instaurando novas possibilidades de pensar e mover: corpo, idéias e mundo.

A essas intersecções entre corpo, ambiente e idéias, chamamos “situações potenciais”, ou seja, todo tipo de conflito, hábitos, práticas, fatos, objetos, cenários etc. que vão desprender-se de um fluxo contínuo para mesclar-se à construção simbólica proposta pelo artista. As informações, no entanto, nunca estão estanques. Serão devolvidas ao ambiente em formas diversas no qual “toda mensagem é emitida, transmitida e admite influências sob a sua interpretação, nunca é estático, mas uma espécie de contexto-sensitivo” [4].

Ao deslocar sentidos dentro do “contexto sensitivo” do espaço urbano, a Intervenção Urbana pode vir a configurar-se como prática disparadora de cognições em direções múltiplas, sendo que o corpo, no espaço público passa a ser também ele o próprio campo de experimentação.Deste modo, pensar os fundamentos da Intervenção Urbana é cogitar as inúmeras possibilidades de discurso de um corpo político e criativamente autônomo inserido em uma proposta coletiva de percepção e participação artística.

DOS PROCEDIMENTOS

Os diferentes procedimentos utilizados pelos grupos na Intervenção Urbana são pensados para produzir certos efeitos, mas estes nunca podem ser previstos, programados ou antecipados, pois é na atualidade da ação que a intervenção acontece desde o momento em que começa a ser elaborado.

Em O Corpo – pistas para estudos indisciplinares, Greiner (2005) propõe que o corpo muda de estado cada vez que percebe o mundo. “(…) desta experiência nascem metáforas imediatas e complexas que serão, por sua vez, operadoras de outras experiências sucessivas, prontas a desestabilizar outros contextos (corpos e ambientes) mapeados instantaneamentes de modo que o risco tornar-se-á inevitavelmente presente.”[5].

Na Intervenção Urbana, entra em jogo a disposição de alguns trabalhos para questionar certos princípios normativos da linguagem usual e para recolocá-los em um outro alinhamento, imprescindível ao entendimento conceitual e à expansão da linguagem. Ao abrir espaço para tal possibilidade, a prática da Intervenção Urbana reforça a noção de um pensamento engajado em suas multiplicidades de apreensão e transformação da realidade com avanço expressivo em novas vias de contato e interatividade com o público.

A atuação dos diversos grupos de Intervenção Urbana vem de encontro a uma produção cultural pluralística, trabalhando em um campo de intersecção entre o político, o social e o estético. A heterogeneidade que fundamenta a organização desses grupos e a própria hibridrez assumida como linguagem desloca-os de um lugar categórico dentro do panorama cultural para borrar seus limites no que se refere às temáticas introduzidas e aos modos de criação, o que nos leva a pensar no conceito de ambivalência delineado pelo sociólogo Zygmunt Bauman.

O ritmo irrefreável das metrópoles, a corrida ao consumismo, as injustiça sociais, as precariedade das condições de vida, a falência do Estado, o desaparecimento de espaços de lazer e cultura, a degradação da pólis como local do encontro, da troca e da convivência democrática, entre tantos outros, são temas de relevância para a produção artística neste contexto. Tudo aquilo que de alguma maneira é inclassificável, segregado, deportado, excluído ou invalidado pelo senso comum, é abarcado pela Intervenção Urbana.

Em Modernidade e Ambivalência, Bauman (1999) destaca o esforço da modernidade em eliminar a ambivalência em um mundo calcado na necessidade da ordenação. É justamente desta ambivalência que alguns grupos de Intervenção Urbana retiram sua matéria de trabalho, valendo-se de linguagens múltiplas, tais como, elementos oriundos das artes visuais, do teatro
e das artes do corpo. Deste modo, podem assim fazer emergir uma polissemia de sentidos quando interferem diretamente no que seria a “realidade consensual”.

Menos do que buscar respostas ou incorrer em armadilhas classificatórias, a prática da Intervenção Urbana busca instigar novas leituras. Trata-se de um terreno onde as linguagens artísticas vão estabelecer conexões entre si para criar permutas que potencializem cargas expressivas e fomentem novas apropriações da realidade.

Para efeitos de ilustrar a diversidade empregada em diferentes procedimentos na Intervenção Urbana, fizemos um recorte de trabalhos dos grupos Bijari, EIA e Matilha, todos atuantes em São Paulo. Dentro dos procedimentos utilizados, observamos uma grande variedade de técnicas, linguagens e objetivos, de modo que não podemos classificá-los de forma homogênea.

Um exemplo de trabalho em que predomina o caráter lúdico é o do EIA – Experiência Imersiva Ambiental que estende faixas de grama sobre as faixas de pedestres. A proposta constrói um jogo poético entre o público e a obra, sem que o artista represente o lugar do “saber”, mas antes figure como agente da experiência de uma arte ambiental como cita Jô Takahashi (2003) ao analisar relações entre arte e espaço público. “(…) o artista abre mão do domínio de sua obra, desarma-se do discurso. O observador, a partir de seu repertório, interage com a obra e constrói com o artista a trama lúdica e poética” [6].

O grupo Bijari em uma de suas intervenções,, solta uma galinha em um largo popular e depois na entrada de um shopping center para analisar reações distintas. A ação serve de exemplo para ilustrarmos a transposição de contextos a partir de um “elemento disparador”. No largo popular, a galinha representa o alimento, a “janta”, e na entrada do shopping center é uma ameaça à ordem e à higiene local, tendo sido acionado um segurança para retirá-la dali.

“Show Room”, do grupo Matilha, leva às ruas protótipos de abrigos para moradores de rua construídos com placas de empreendimentos imobiliários, numa inversão da natureza dos objetos, que permite a discussão da especulação imobiliária em oposição às lutas pelo direito à moradia popular.

Em “Liberte-se”, também realizado pelo Matilha (parceria feita entre a Cia.Cachorra e A Revolução Não Será Televisionada), balas deflagradas de revólver são vendidas nos semáforos da cidade, em uma ação mimética (a venda de balas como alternativa de ganhar a vida) usada para discutir questões como desemprego e violência. Aqui, os elementos escolhidos utilizam de uma linguagem irônica, ao valer-se do trocadilho das balas para discutir a realidade.

Analisando estes trabalhos aqui apresentados, concluímos que a partir do conceito de Corpomídia, pode-se elucidar as implicações entre a criação, o ambiente e o público, em uma vertente artística que encontra sua riqueza justamente na hibridação e na multiplicidade que isso propicia. Embora os procedimentos e as técnicas utilizadas sejam diferentes e ocorra em alguns casos um predomínio de certas linguagens sobre outras, existe na prática da Intervenção Urbana uma interferência corpórea constante tanto nos sujeitos que atuam quanto nos que interagem.

CONCLUSÃO

A relação entre o conceito de Corpomídia e a prática da Intervenção Urbana em um contexto sócio-político estabelece uma reatualização constante de fluxos empíricos conectados a uma visão crítica da realidade. A colaboração da criação na Intervenção Urbana é a de transformar os fluxos da realidade cotidiana na construção de uma arte libertária por excelência e não mais encerrada em sistemas fechados. Para tanto cabe ao artista “tornar corpo” seus próprios modelos de criação e mesurar suas potencialidades deste corpo enquanto interlocutor artístico na sociedade em que atua.

Em um contexto onde o questionamento sobre nosso destino coletivo torna-se pauta primordial na sociedade, a Intervenção Urbana vem colaborar para uma ação efetiva e direta em outros patamares da realidade. Estrategicamente é na formação de redes, diálogos, circuitos e conectividades que está a possibilidade de emergência de novos pensamentos sobre
estéticas, políticas, trocas e meios de informação.

Em um mundo liquefeito[7], onde os rumos políticos e sociais mudam de aspecto a cada instante, a prática da Intervenção Urbana pode vir a configurar-se como a explicitação da ambivalência de nosso tempo evidenciando assim a proliferação de novos sentidos e apontando para novos caminhos artísticos.

1 GLUSBERG, Jorge. A arte da Performance. São Paulo: Perspectiva, col. Debates, 2003, p.12.
2 BANES Sally. Greenwich Village 1963. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
3 BARROS, Teixeira Stella.“Out”-Arte? In Arte em Revista número 8. São Paulo: CEAC, 1984.
4 KATZ, Helena e Greiner, Christine. Por uma teoria do Corpomídia In O corpo: pistas para estudo indisciplinares. São Paulo: Annablume, 2005, p.129.
5 GREINER, Christine. O corpo: pistas para estudos indisciplinares. São Paulo: Annablume, 2005, p.123.
6 TAKAHASHI, Jô. Dimensões do corpo contemporâneo In Leituras do Corpo. Organizado por Christine
Greiner e Cláudia Amorim. São Paulo: Annablume, 2003, p.160.
7 BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. São Paulo: Jorge Zahar, 2001.

À minha família, que tem forma de matilha, e aos que venham juntar-se a nós.

“Quando o corpo não está inibido pelo intelecto, quando lhe é permitido falar, então o pensamento pode novamente se conectar com o sentimento”. (Eva Schmale)

 

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