Mar ou Abismo?

por Eduardo Verderame

A abertura do Museu de Arte do Rio foi um evento divisor de águas. A mostra que juntou quatro curadorias no mesmo espaço no recém inaugurado museu na Praça Mauá foi inaugurado sob forte protesto. Mesmo antes da abertura a tensão entre ativistas cariocas e os artistas que encararam montar um trabalho que remetia a atuação de artistas dentro da Ocupação Prestes Maia era escancarada.

Por estranho que possa parecer, a própria existência do museu foi bastante questionada. Pode acontecer de algum motivo nos deixar contra um museu ou uma instituição. Vivemos uma época onde qualquer movimento por mais bem intencionado que pareça pode esconder uma outra verdade. E faz bem desconfiar de intenções. Dá para ser contra a cultura no Brasil? Dá. Depende do que se entende por cultura e a serviço de quais interesses ela se presta.

O motivo é claro quando se trata de um projeto da Fundação Roberto Marinho. Será possível atuar através dela, ou através de seus recursos diretos ou indiretos? Isso significaria alinhar-se a um projeto de gentrificação em andamento nas imediações, desmobilizando movimentos sociais do Rio de Janeiro, causando graves consequências aos moradores. Igualmente complexo julgar a pertinência de um novo museu na cidade, quando vários outros minguam ante a falta de incentivo.

O MAR se defende por ele mesmo. Como qualquer instituição, se propõe a um papel e podemos imaginar que tente cumpri-lo. Um Museu que declaradamente se coloca a “missão de inscrever a arte no ensino público” é bem vindo em toda parte, e deveria ser no Rio de Janeiro. Imagino que a idéia de diferenciá-lo através da educação tenha sido estratégica no sentido de buscar os própria identidade, e seu potencial não tenha passado desapercebida pelos idealizadores e mantenedores da empreitada.

 

O MAR está inscrito em um projeto de requalificação da zona portuária, que foi primeiramente proposto pela prefeitura do Rio em 2001 e que transformou-se num segundo projeto chamado Porto Maravilha. Este último pretende revitalizar a área que vai da Praça Mauá até a Rodoviária, incluindo o Morro da Saúde e a Gamboa. Isso implica em demolições, remoções e grande interferência nos bairros atingidos.

Somando-se ao Porto Maravilha, outro projeto das imediações, a remoção da Perimetral, finalmente sai do papel. A remoção até então era um antigo tópico que dividia urbanistas e historiadores, visando a recuperação da praça XV como marco histórico da cidade. Sua execução seria algo similar a remoção do Minhocão em São Paulo que igualmente divide opiniões e teria fins similares. O Museu MAR foi construído em dois edifícios existentes na Praça Mauá, que já foi um lugar de importância cultural na cidade, seja por hospedar o prédio da Radio Nacional, ou pela proximidade do antigo porto, há tempos vive em decadência.

Para a comunidade artística o projeto de um novo museu na área era aventado desde 2001 quando o projeto de uma filial do Museu Guggenheim era planejada onde será construído o Museu do Amanhã. O projeto do arquiteto francês Jean Nouvel não saiu do papel assim como o projeto anterior. A idéia do MAR surgiu depois de uma frustrada tentativas de se criar uma Pinacoteca no local. O que permaneceu foi a proposta de um Museu no local, que pudesse gerar interesse simbólico na região, um motivo para se ir a Praça Mauá. A Escola do Olhar foi planejada junto ao MAR, pensada para agir em sintonia com a programação do Museu com a proposta de incluir visitas de alunos da rede pública ao museu em número estimado em 100.000 estudantes por ano.

Sendo assim não se pode ignorar o cruzamento de interesses na qual a região está inserida. O Projeto Porto Maravilha prevê grande transformação na região impulsionado pelos eventos que a cidade sitiará nos próximos anos. Plataformas de negócios e parcerias acontecem entre o governo e iniciativa privada. O governo federal possui mais de 60% da área em questão.  Apenas podemos imaginar os interesses envolvidos. Não se nega a necessidade de investimentos e melhorias na região, mas o processo pelo qual isso é executado é bastante controverso.

Um empreendimento desta natureza e magnitude não se realiza sem a plena aprovação de (no mínimo) uma Câmara Municipal. E a Câmara Municipal do Rio de Janeiro aprovou em caráter de urgência o projeto do Porto Maravilha, antes mesmo do Plano Diretor, que deveria abarcar o tema, diferentemente do projeto Porto do Rio (anterior ao Porto Maravilha) menos interessante aos interesses do mercado. A exemplo do que foi visto em São Paulo no Projeto Nova Luz, os interesses da sociedade civil pouco foram ouvidos. A sociedade foi apenas “informada” em algum estágio do processo, sem possibilidade de interferência no processo.

Por tudo isso,  inauguração do Museu foi conturbada. Manifestações e cobranças, inclusive aos artistas presentes na abertura, somado a uma grande confusão com a presença da presidenta e seu aparato de segurança. Os manifestantes estavam contidos pelo batalhão de Choque e não houve enfrentamento apenas provocação e muito barulho. O coletivo Opa-Vivará, parte da programação oficial, teve seu trabalho inviabilizado na abertura em nome da segurança.

Do outro lado do vidro uma legião de celebridades e autoridades tentavam ignorar a batucada e os protestos do lado de fora. Era a culminância de processos já estabelecidos de antemão. Diálogo impossível e indesejável. Todas decisões já haviam sido tomadas.

A questão que nos cabia responder era se a arte “de dentro” teria capacidade de gerar qualquer tensão passível de discutir um processo aparentemente monolítico de interesses milionários sobre a cidade?

Pessoalmente prefiro acreditar que essas respostas se dão em momentos distintos, e que a arte serve a muitos outros propósitos do que simplesmente “legitimar” processos hegemônicos e antidemocráticos. Essa leitura – insinuada, por sinal- excluiria qualquer possibilidade de uma atividade criativa dentro de uma instituição que se propõe cultural. Ou seja, a participação dentro desse processo não foi uma equação fácil desde o começo.

Cada um tem seus critérios para participar ou não de eventos de arte, que obviamente são patrocinados pelos mais diversos interesses. Alinhar-se ou não a eles pode definir trajetórias. O fato do MAR ser concebido pela Fundação Roberto Marinho trouxe bastante resistência. Alguns artistas nunca participariam desta mostra. Eu tenho meus pontos e nenhum deles me fez deixar de participar na mostra “O Abrigo e o Terreiro”. Mas houve certo mal-estar com o rumo que o processo de feitura desse projeto tomou entre algumas pessoas bem próximas, e mesmo das conseqüências pessoais que surgiram.

Se questionar atitudes e posicionamentos é uma das palavras chave dos processos artísticos contemporâneos, e a pluralidade de opiniões deve ser incorporada nas práticas ditas democráticas, igualmente a possibilidade de uma postura contrária ser posta em ação acaba tendo de ser admitida dentro de processos coletivos sem necessariamente ser uma posição cínica ou desonesta.

Mas mesmo entre as pessoas que levaram a cabo o projeto de apresentar uma cartografia artística dentro da Ocupação Prestes Maia ocorrida já faz quase dez anos, o consenso não foi possível. Isso de certa maneira determinou o formato final, mais centralizado na concepção do Túlio Tavares e do desenho geral meu e do Rodrigo Araújo.

O convite surgiu da parte da Clarissa Diniz que junto ao Paulo Herkenhoff foram responsáveis pela curadoria da mostra em questão, uma das quatro a que se propunha o MAR na sua abertura. A concepção foi a de fazer uma exposição histórica no sentido de pontuar momentos onde a interação entre artistas e a ocupação aconteceu de maneira mais evidente. Apesar de não ter sido a pessoa mais envolvida com tudo o que aconteceu na Ocupação, aceitei o convite de organizar a mostra com o Túlio Tavares.

Não foi a primeira vez que o acervo produzido dentro da Ocupação foi apresentado. Já se realizaram mostras de fotos (inclusive de gente que pegou literalmente carona no processo de abertura da ocupação), teses de mestrado, livros, reportagens. Desde os tempos de atuação dos artistas na ocupação havia essa vontade de expandir os limites do interior daquele prédio, pois isso servia como uma plataforma comum que ajudava os que viviam lá e os de fora.

A mostra dentro do MAR surgiu de um projeto livro organizado pelo Túlio e por mim que nunca foi lançado, e corresponde a sua visão do assunto. Visão de quem como ele, conheceu por dentro e foi fundamental no processo, aliado a outros que igualmente tiveram contato com a Ocupação e atuaram lá dentro.

Isso nos fez revirar diversos acervos, recuperar vozes. Organizar vídeos e seqüencias fotográficas, material de imprensa da época, buscar o material gráfico e objetos com diversos coletivos, o que nem sempre é coisa fácil. Contar com o próprio acervo e de amigos próximos neste caso foi fundamental.

As quatro paredes da mostra englobam o trabalho de dezenas de artistas e coletivos assim como de gente alheia a qualquer noção do que seja arte. Não houve nenhuma interferência da curadoria ou de quem fosse sobre nosso conteúdo, além de acomodações técnicas.

A proposta que se seguiu era de incluir um círculo de pessoas que tiveram papel determinante na atuação dos artistas dentro do Prestes Maia, especialmente Rodrigo “Cabelo” Araújo, Fabiane Borges e Mariana Cavalcante, ouvir suas opiniões e de alguma forma atualizar o conteúdo tentando conectar o que aconteceu faz quase dez anos com o que acontece hoje. Da reunião com este grupo com outros interessados que surgiu a idéia de tentar uma interlocução com movimentos a pessoas atuantes cariocas, e dar voz a sua causa, através de um canal aberto providencialmente chamado VAZADOR, inicialmente um blog ou um canal de vídeos dentro do espaço expositivo. Outra idéia seria levar remanescentes do Movimento dos Sem Teto que habitaram o Prestes Maia para o Rio, para de alguma forma personificar o que era mostrado dentro do MAR.

O VAZADOR tornou-se motivo de grande controvérsia e foi rechaçado por ativistas do Rio de Janeiro, por sua terminante renúncia em estar conectado ao Museu MAR, coisa que descobrimos em seguida, ser impensável para certo grupo. Essa reação enérgica igualmente criou dúvidas entre nós e seus argumentos e longas discussões por internet chegou a desmobilizar alguns de nós e de certa forma polarizou o processo. O trabalho teve de ser repetidamente defendido em muitas instâncias e de maneiras diversas. A solução acabou sendo focar na produção do que já havia sido acordado entre os participantes e assumir o risco de torná-lo real.

O problema da legitimação de um trabalho acaba sendo da instituição que o acolhe, e mais adiante a quem recebe esta mensagem. No caso milhares de estudantes e moradores que visitam a Escola e o Museu MAR. Ignorar esse lugar é abrir mão de interlocução. Levando em conta que não existe vácuo, deixar esse espaço serve apenas para ceder lugar para algum outro conteúdo ser instaurado. Foi seguindo este raciocínio que pensamos ser mais interessante atuar de dentro dessa instituição do que simplesmente ignorar o convite.

Não colaborar em um projeto que se coloca neste Museu-Escola seria não apenas perder uma oportunidade única, como deixar invisíveis projetos importantes para se pensar as cidades contemporâneas, abdicar da crítica no momento e no local onde ela pode ser pertinente. E isto não se aplica apenas ao projeto que foi desenvolvido por nós, mas a todos que estão ali também.

Sobre aqueles que questionam nossa ética no proceder e uma possível má-fé, posso apenas responder que respeito suas posturas de colocarem-se contrários a quaisquer envolvimento com o projeto do MAR, mas não as vejo como as únicas possíveis, nem mais ou menos questionáveis. O trabalho está morto quando não é visto ou feito conhecer. Ali está sua possível vida.

 

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