Escolas ocupadas: Um relato, um pedido

por Rodrigo Araujo

Ontem fui convidado por um amigo, Fernando Sato (do coletivo Casa da Lapa e Jornalistas Livres) para junto com outros artistas-ativistas fazerem um workshop para os alunos da escola ocupada EE João Kopke, no bairro da Luz. Já tinha algum conhecimento do que se passava nas escolas ocupadas mas me surpreendi com tudo o que vi.

Quando cheguei notei a fachada da Escola com diversos cartazes, faixas e“stencils” com dizeres: Ocupada, Escola de luta, Não fechem nossas escolas, Nós não desistiremos, Podem destruir nossas escolas mas não podem destruir nossos pensamentos, entre muitas outras.A que me chamou mais atenção era uma faixa amarela de 5 metros com o escrito ocupado pendurada na empena cega do edifício que utilizava dois livros didáticos como contrapeso para não voar. Do lado de fora havia uma barraca com algumas pessoas sentadas. Enquanto aguardava a fila para entrar me dirigi a barraca e descobri que eram as professoras dos alunos em vigília apoiando a causa. Tomavam café e se aqueciam com cobertores doados por um frei do bairro. Elas não podiam ficar lá dentro com os alunos pois configuraria adesãoa ocupação e possível demissão,mas se solidarizavam com um protesto tático acampadas na rua.

Já na entrada, um aluno de 13 anos coordenava o fluxo de pessoas, indagava o que seria feito lá dentro, anotava o nome e R.G. de cada visitanteem um caderno e principalmente abria e fechava o grande cadeado do portão principal. Entrei e logo me deparei com o cartaz convidativo: Bem vindo a nossa luta, agradecemos pela companhia! e me dirigi ao pátio coberto no qual já se encontravam diversas pessoas para iniciar uma roda de conversa. Ali se apresentaram os alunos da escola e em seguida os artistas e jornalistas dos workshops. Após as apresentações nos dividimos em 4 grupos: o de jornalismo – que propôs um workshop de como fazer uma matéria em vídeo, o de artes – que propôs a criação de intervenções comunicativas, o de ilustraçãoe caricaturas – que propôs a criação de charges e memes para divulgação na internet, e o de drones – que propôs o manuseio e entendimento do funcionamento dos mesmos.

Fiz parte do grupo de artistasformado por integrantes dos coletivos ( Bijari, Casa da Lapa, Projeto Matilha, Ocupeacidade, CasaRodante, Laura Guimarães e Jornalistas Livres)para junto com os alunos pensarmos em alguma intervenção prática. Após uma primeira roda de conversa fizemos perguntas e escutamos com maiores detalhes como estava a ocupação. Eles nos contaram como estão se organizando junto com as outras escolas para criar uma comunicação maior – tinham feito pela manhã uma reunião na EE Fernão Dias com dois representantes de cada escola ocupada. Relataram como estão apoiando uma escola a outra com comidas e pessoas na hora que a polícia chega. Falaram como estão se organizando para fazer as assembléias diárias, a comida, a limpeza, o dia a dia da ocupação. Revelaram também das pequenas rixas entre escolas vizinhas que acontece nesses momentos – por diferenças e protagonismos frente a idéia de ocupação. Expuseram como se sentem em conflito por lutar por seus direitos e ver o Estado e a polícia contrários ao seu movimento. Explicitaram a angústia que é ter que ir para casa e deixar os amigos na escola, pois nem todos tem autorização dos pais para ficar tantos dias na ocupação. Contaram com orgulho como estão conseguindo ficar firmes e cada vez mais conscientes de seus direitos. Depois de uma grande rodada de conversa iniciamos uma dinâmica de palavras e frases feitas por todos e elegemos algumas para a criação de peças de comunicação. As mais diretas e sintéticas foram selecionadas(Nossas escolas nossas escolhas. A gente ocupa, a policia invade. Alckmin mata aula)e transformadas em cartazes, faixas e projeções na fachada.

Mas o que mais me chamou a atenção foi tudo aquilo que fazia a ocupação funcionar, e que não consegue ser capturado por uma frase de efeito. Eu entrava no dormitório para conhecer as instalações e via todos os cobertores dobrados e empilhados perfeitamente, entrava na cozinha e dois meninos de 13 anos com toucas de cozinheiro eram os responsáveis pelo fogão que fazia a comida dos 60 e poucos que ali estavam. Faziam comida, cantavam, pediam ajuda para mais quatro da cozinha, e se divertiam. A sutileza de servirem sucos e sanduíches para todos no meio de uma reunião longa. Olhava os banheiros mega limpos, alguns alunos jogando pingue-pongue, vôlei, outros empenhados na portaria, todos atentos para a assembléia, participando das oficinas, cantando e lutando em uníssono. Vi um menino afirmar: ta vendo, eles falavam que eu não tinha talento, e olha só eu recebendo um elogio da artista por pintar esse cartaz!

Essas imagens me mostraram um engajamento com a vida muito poderoso que segue com eles e conosco. São jovens que fazem uma outra escola nesse momento de suspensão da normalidade, fazem uma escola na qual é o sentido de estar junto e criar coletivamente é mais forte que as regras instituídas.

Quando saía da escola, já na calada da noite, lembrei que algumas escolas estaduais que não passariam pela “reorganização” também haviam sido ocupadas em solidariedade as outras. Nesse momento me perguntei porque outras escolas mesmo sendo particulares ou municipais não poderiam prestar seu apoio a essa causa?

Gostaria muito que toda e qualquer escola pudesse de alguma maneira apoiar essa luta. Seja escrevendo uma carta apoio aberta, ou qualquer ato que amplie a possibilidade de mais pessoas entrarem em contato frente essa situação absurda que passa a educação, afinal isso é algo que temos em comum.

Um abraço, Rodrigo Araujo

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