Do constrangimento como meio de desarticulação social

por Lucas Bambozzi, Colaboração: Almir Almas e Rogério Borovik [grupo COBAIA]

Caso1:

Então o/a artista se vê finalmente dentro do sistema. Ele/ela tem consciência do feito, de que esse degrau na ascensão de sua reputação entre seus pares, tem um certo preço. Sabendo o que isso representa, ele/ela talvez não tenha a noção, ainda, de que deu um passo em direção a um ambiente ou patamar onde as estabilidades são mais relativas e frágeis. Ele/ela lamenta, pois justo “na sua vez”, há barulho, vozes e vaias lá fora… Há uma falta de consenso, aparentemente inexplicável para o caso. Nesse momento, algo então age sobre esse estado de euforia, que faz com que, de repente, atue como um puxar de rédeas, como um freio brusco em suas pretensões. Esse algo talvez seja constrangimento. Ele/ela percebe que aquilo não tem o sabor que esperava ter. É amargo, pode durar pouco. E seus pares já não estão por perto. Pode não mais conseguir ‘voltar pra casa’. Ouve vaias, agora internas talvez, percebe o cochichar perverso de uma turma da qual não pertence, e no meio – talvez apenas a entrada – desse suposto salão de glórias, perde o caminhar, e permanece estático.

O dissenso em 3 ou 4 casos.

Região central do Rio de Janeiro (foto de Rogerio Borovik)

 

Certas situações são constrangedoras. Todos sabemos ou já sentimos o que pode ser isso. O constrangimento pode ser um conflito interno, uma oscilação moral, uma dúvida que confronta uma certeza tida como autêntica. Vilém Flusser comenta que a dúvida, como exercício intelectual, é o berço da pesquisa, um estímulo ao pensamento, “mas como experiência moral, é uma tortura, o fim de todo conhecimento” (Flusser, 2011)[1]. Esse é o risco: a dúvida, aniquilando a convicção e a determinação, paralisa.

Mas é preciso questionar o consenso que nos sussurram. E entender o conjunto de sensações advindas do constrangimento através do viés político é um exercício complexo. Entre nós, integrantes do coletivo Cobaia, buscamos debater essas paralisias e dicotomias improdutivas, desde a formação do grupo, em 2004. As ações ligadas à reintegração de posse do Edifício Prestes Maia (2004-2006), e que levou a uma colaboração entre artistas e  movimentos sociais populares como o MSTC – Movimento dos Sem Teto do Centro, evidenciava alguns desses constrangimentos políticos, que escapam da vergonha individual e vazam para um coletivo em grande escala.

Ali, um prédio simbolizando as contradições urbanas e acirramentos da especulação imobiliária levou a questionamentos em torno do funcionamento do sistema da arte, da política, da mídia e da vida urbana e pública. O que nos movia eram urgências, e não uma estratégia artística de inserção no circuito da arte atenta à política. Mas vieram curadores, buscaram casos, especularam estéticas, levaram imagens, tomaram conceitos emprestados.

Esse constrangimento veio acompanhado da lisura, da validade ou da pertinência do “fazer arte” para tal situação específica. Para quem e como essa arte seria produzida? Para os moradores do edifício? (eles estariam desejando isso de fato?) Para a situação midiática que se apresentava? Como forma de aproveitar a visibilidade obtida com a situação? O que fazer de efetivo, para além da arte, diante daquela realidade? De um modo ou de outro, muitas perguntas ficaram sem resposta. E quando o veredito do despejo foi dado, a despeito de toda luta, a despeito de toda arte, demonstrando a força avassaladora do lobby empresarial e da especulação imobiliária, quando as famílias se foram, a maioria para lugares muito distantes do centro, o que pairou em comum, como um silêncio apertado e seco, foi um grande constrangimento. Teríamos feito a coisa certa? Teríamos feito da melhor forma?

Assim, o constrangimento que surge de um sentimento interno, de um conflito de valores, adquire uma proporção social, às vezes gritante. E desarticula movimentos, divide potências, contradiz ações e acirra o desentendimento. Em muitos casos, a imposição da lei pode ser menos eficaz que o constrangimento. Numa sociedade disciplinar, as situações panópticas podem ser menos eficientes do que a indução ao constrangimento. Em seus efeitos colaterais e desvios, o constrangimento pode ser uma arma social apontada na direção errada.

 

Vista da região chamada de Porto Maravilha a partir do Museu MAR (foto de Rogerio Borovik)

 

Caso 2:

Então um grupo de senhoras da sociedade em São Paulo passou a se reunir em torno de uma causa comum: criar formas de barrar e desarticular um outro grupo, que havia passado a se reunir com preocupante frequência: suas próprias babás. As empregadoras criaram então o Gatb, Grupo Anti-Terrorismo de Babás, uma espécie de mutirão fechado. Argumentando sobre a necessidade de se protegerem da “petulância” das funcionárias reinventaram o que seria um sindicato patronal para trocar informações e dicas sobre como fazer em caso de “abuso de direitos” por parte das empregadas. Assim as reuniões de umas passaram a ter função controladora enquanto a de outras, controladas. Para estas últimas, reunir passou a ser ilegal, subversivo e arriscado. E assim passaram a ser consideradas “terroristas”.

Tendo o movimento divulgado pela mídia oficial, os leitores passaram a se afinar em particular com a facção das empregadoras supostamente oprimidas ou “lesadas” pelo direito de… direito (!) das empregadas.

No mundo online, as posições mais reacionárias ganham destaque em tom de valentia. Um leitor escreve:

 

“Eu sei o seguinte, se eu tivesse uma babá e uma delas fosse essa da reportagem, estaria na rua no dia seguinte. Se elas estão na pracinha de papo, não estão olhando meu filho. E segundo, aqui no Brasil virou moda nego sem formação querer ganhar bem… (anônimo).”

 

O que temos em comum, a ver com este texto, a ver com os editores deste site, com a continuidade de propostas que se fazem em torno de questões como essa que agora envolve o MAR? Algum constrangimento, talvez.

 

Detalhes do entorno do Museu MAR (foto de Rogerio Borovik)

 

 

Caso 3:

O crítico de arte Sergio Bruno Martins em seu artigo, O MAR de cima a baixo[2], descreve a incerteza da política habitacional e urbanística da area que vem sendo conhecida como Porto Maravilha. Sergio aponta a ausência de debates minimamente aprofundados que possam sugerir alternativas à ocupação ou “revitalização” da região. Em um link para o Youtube que mostram um video institucional com renderings do que se planeja para a região, há uma revelação sintomática: em meio a cerca de 32 mil visualizações, há no momento apenas 16 comentários. Em sua maioria elogiosos, alguns denotam o pensamento típico associado à região:  

 

Agostinho fernandes peres 4 days ago

Se for como está na maquet, será um porto fora de série, de país adiantado.

Rodrigo Araujo 1 month ago

vai fica muito lindo!!!!

TheJhFisher 2 months ago

(…) Espero que essa obra seja só o começo e a reurbanização se estenda para as outras regiões. A capital fluminense está cercada de favelas.

PEPE EL GRANDE 2 months ago

Achei ótimo o projeto… Mas e aquela nojeira e fedentina da rodoviária novo Rio e entornos?

sérgio júnior 2 months ago

Falou tudo.

Ernesto São Thiago 2 months ago

Maravilhoso.

 

Pois bem, há pouco dissenso aqui. Ouve-se, por mais que não acreditemos, uma opinião pública genericamente a favor de estratégias de limpeza urbana e social. Não há sequer cuidado da imprensa em utilizar essas palavras. Sabe-se que o museu Mar não está devidamente conectado ao seu entorno, mas sim ao poder que viabiliza sua gestão. E sabe-se o quanto os dispositivos culturais são, em todo o mundo, a porta de entrada para estratégias de “revitalização” que levam a cabo processos de gentrificação, sempre violentos, por definição, mas desejado por muitos que vem a cidade como mera paisagem. Nada de novo. Então refaçamos algumas perguntas:

Qual a função da arte para os habitantes e frequentadores da Praça XV ou Praça Mauá? No que eles estão interessados? (apontem por favor, alguma pesquisa consistente nesse sentido?) Ha alguma intervenção cabível nesse ambiente? A favor de quem que não seja o próprio artista ou coletivo? Quem quer a intervenção? Quem quer a arte, que arte se quer?

Questões como essas endossam uma premissa: é preciso ressignificar a relação entre artistas e movimentos sociais. Mesmo que as questões que envolvem a responsabilidade da arte para além da produção simbólica não produzam no momento reverberações relevantes há que se reinventar essas conexões. Pois os processos de legitimação de uma arte política já estão demasiadamente arraigados ao sistema da arte, como estratégia, como verniz. Hoje, um artista que evita a política pode ter maior reverberação política do que os tidos como “artivistas”.

As ambiguidades e contradições são muitas, mais do que dão conta as ações esboçadas. Se fossem outros curadores, cujo histórico e seriedade não conhecêssemos, poderíamos ter afirmado que o que houve foi cooptação simples e eficiente. O que aconteceu porém decorreu de uma tentativa de arranhar o sistema estando dentro dele. Por parte de muitos dos envolvidos, inclusive grupos e coletivos que deveriam ter assumido uma posição mais explícita, as tensões foram lançadas como adereço político, não como articulação transformadora.

Ser bem intencionado parece não bastar. Como agem os antídotos, as ações que arranham apenas superficialmente o mecanismo capitalista apenas o tornam mais forte. Segundo os pesquisadores canadenses Andrew Potter e Joseph Heath, em vez de funcionar como força de oposição à economia de mercado, a contracultura, o ativismo antiglobalização  acaba sendo motor dela.[3] Segundo os autores “os símbolos da rebeldia não são apenas cooptados pelo ‘sistema’, mas impulsionam efetivamente o capital e seus poderes, gerando as novidades para a competição entre os consumidores” e o público ávido por novidades.

Talvez haja um ponto onde as ambiguidades levantadas em debates como este que aqui ocorre, possam explicitar possibilidades efetivas e permitam ensejar novas perspectivas para antigas contradições. É o que se espera, apesar do constrangimento latente. Assim, em algum momento ou situação específica, essas práticas podem ganhar a contundência e o poder da transformação. Uma transformação necessária ao redimensionamento de processos culturais e práticas correntes

Novos conceitos na sociedade surgirão na medida em que os porta-vozes desses conceitos tiverem de fato voz ativa e comprometimento com as causas que seus artistas articulam.

 

O cartaz com os dizeres “algumas coisas você nunca vai saber pela mídia’ foi criado pelo grupo Formigueiro em 2004 se estendeu a ações do grupo Cobaia nos anos seguintes. A foto acima, tirada no Edifício Prestes Maia, representa a inserção do grupo Cobaia junto ao coletivo Poética do Dissenso, que participa da Mostra O Abrigo e o Terreno no Museu MAR. (foto de Rogerio Borovik)

 

Caso 4:

Suponhamos um grupo formado por indivíduos capazes e ativos, porém insatisfeitos com a condição que lhes é dada. Falemos de um indivíduo estimulado pelo mercado, pela sua condição de consumidor ativo, pela sua participação nas redes sociais e fora delas. Suponhamos ainda este indivíduo como consciente de sua eventual capacidade de engajamento. Se essa pequena multidão tem dentro de sua constituição, algum poder da rebelião, se há uma potência de articulação latente ali, por que este grupo permanece ali, apático, à margem?

Talvez porque não perceba a urgência de uma ação, talvez porque pese sobre si a expiação de um pensamento que lhe foi entranhado pela educação servil, pelo que imagina de seu Deus ou religião, pela primeira comunhão que agora lhe é saudosa, pelo respeito ao pai direitista que já se foi, pelo que julgue antecipadamente proibido. Talvez nesse momento tão importante, sinta-se sozinho… Ou talvez hajam algumas urgências, em levar dinheiro pra casa, em assumir uma dívida, em cuidar do filho(a) pequeno(a) que chegou sem a estrutura ideal – e isso urge, de fato. Ou talvez também porque, ao perceber o olhar do outro, e sua dúvida oscilante, o indivíduo constituinte dessa multidão, sente que vai ser em vão, e negando toda tragédia, abdica finalmente de sua condição sísifica, e agora, diante desta normalidade que o acomete, ele/ela de seguir adiante, prefere não mais avançar. E assim, olha para os lados e abaixa a cabeça.

 

Sente então constrangimento. E não sabe o que fazer com isso.

 

[1] Flusser, Vilém, A Duvida, Anablume, 2011 (pgs 21-22)

 

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