Divagações sem pretensões – 16 pontos para pensar a arte, a mendicância e a ruidocracia.

por Fabiane M. Borges

Arquivamento, institucionalização da arte, remoções e despejos, imponência dos prédios de turismo, Copa do Mundo, tudo isso visto-falado no boteco em frente ao MAR (Museu de Arte do Rio de Janeiro), enquanto um mendigo, desses bem machucados e tristes, dava um discurso de ser uma pessoa honesta e de bem,  que não roubava e nos mostrava um buraco feito de facada que levou no peito enquanto dormia. Pedia dinheiro, remédio, comida e atenção. Você está representado lá dentro do MUSEU, eu dizia a ele, nós traduzimos você para a História da Arte naquele museu branco e gigante, tá vendo? Lá é lugar de gente rica, ele respondeu.

1– Então segue-se o canto: do ponto de vista da miséria radicalizada, o museu imponente não serve para traduzir nenhuma dor. A história da arte não matará a fome do mendigo. Ele sabe da sua desimportância, mas quer comer, conversar e ser tratado como gente.  Sabe que vive em exílio dentro da sua própria terra – a que não lhe pertence.  A riqueza se alimenta da miséria, ela é o signo constante do holocausto, sem ela a sociedade não se mantém. Pobre do mendigo, traduzido dentro do museu e ficando cada vez mais mudo, mais invisível, mais capacho expiatório. Vive em estado de sítio.

2– O museu está para os artistas como as casas de acolhimentos e abrigos estão para os mendigos. Existe um buraco que separa a instituição dos seus actuantes. Os donos dos museus ouvem o barulho dos artistas excluídos como um ruído longínquo, que atrapalha, incomoda mas não se comovem ainda – não são todos que podem entrar. As portas se fecham, a polícia se monta na frente. Aqui seu trabalho não entra. É um espetáculo triste. Os artistas são mais expressivos que os mendigos e fazem alarde, criam modos de fazer-se ouvir. Mendigam de um outro jeito. Também querem comer, conversar e serem tratados como gente. As camadas de urgência se sobrepõem umas às outras. Os mendigos olham de longe aquela gente batendo tambores na frente do museu. As hierarquias não tem fim. O artista militante está para o mendigo como o dono e o curador do museu está para o artista-militante … longe. Um pequeno abismo separa todos eles. Para o mendigo os artistas-militantes e os donos do museu são a mesma coisa – gente rica. Mesmo que dance ao som da batucada, e se alegre com a festa na praça. Mas de algum modo aquilo não lhe pertence, se pertencesse era dele.

3– O albergue dos mendigos é cheio de hierarquias. Quem ganha os louros é o dono do museu, seus curadores, os artistas mais famosos. Quem  ganha os louros é o diretor do albergue, o homem de bem, que tem função de cuidar do lixo humano, produzido pela sociedade desenvolvimentista. Os artistas entram nos espaços de arte, fazem número, mostram trabalhos, e esperam com urgência serem reconhecidos. O mendigo tem que virar gente, o artista tem que virar profissional do flerte. Fazer caras e bocas para apertar a mão do curador, do colecionador, do empresário, do dono da empresa, do público, ele muda sua cara para uma cara de artista. Precisa se higienizar, se comportar, se equilibrar, servir ao sistema, para ser famoso e passar sua mensagem. O mendigo precisa virar gente, tomar banho, trocar de roupa, dormir cedo, acordar cedo, trabalhar por um salário mínimo, não se revoltar, se equilibrar, se conformar. O albergue não lhe tem como participante efetivo de nenhum processo, na perspectiva do albergue, este presta favor ao mendigo. Olha como somos bons em acolher você!! E seu número representa dados para minha prosperidade!! O museu tal qual o albergue, nao reconhece o artista como parte da sua estrutura, somente se alimenta dele, o utiliza para sua manutenção, e o coleciona. Para ser colecionado o artista precisa ser mendigo publicitário.

4– É que urgência tem várias camadas. Essas camadas se misturam, viram um lodo indecifrável da sociedade ruidocrática. Tudo quer fazer-se ouvir. Tudo urge. As urgências tem ritmos diferentes. Algumas urgências invalidam outras. Há apropriação de urgências por todo o lado.  A multidão quando se junta quer fazer-se ouvir, mas quem escuta? Escuta o quê? Quais filtros aplicados? Que tipo de programa amplifica os dados?

5– O Estado burocrático não é bom de escuta, assim como não é bom de escuta o museu, o abrigo dos moradores de rua, as instituições. A escuta não está preparada para a ruidocracia.

Ouve te digo, daria para ser agora? Abre a porta das tuas igrejas e dos teus museus!

Paloma Kliss

6– A miséria grita mas é silenciosa. Não há ouvidos para ouvir certas urgências. São gestos comuns que não comove nem cria tensão na maioria dos vivos. Morre-se na calçada em frente ao museu sem nunca ter-se entrado nele. O mendigo vira cidade, vira tijoleta, desaparece nela, como um papelão desaparece, como uma pintura que vai sumindo. Só se consegue ouvir e ver quando se chega bem perto, tão perto que se pode entrar dentro da aura que envolve o morto-vivo. Tem que se sentir o fedor, ele dá náuseas, o fedor demonstra toda a urgência, o cheiro urge. Mas a urgência da miséria também se imiscui em urgências de outros tipos, e formam um lodo. Tudo que existe urge e quer algo imediatamente. Mas só alguns existirão. Só alguns tem entrada no museu. A urgência do mendigo desaparece na calçada quando a gente se afasta dele. Quando o fedor diminui, esquece-se a urgência da miséria – a imagem não tem mais força que o cheiro. E mesmo o cheiro, tem sinal fraco.

7– Porque o lugar da residência também é disputa. Artista e sem teto querem residências. Cada qual com sua perspectiva do que isso significa. Um para habitar, outro para produzir e conhecer gente. Ambos querem ir e vir com liberdade. Quem ousaria decifrar todas as possibilidades de uma residência?

8– O lugar do reconhecimento está a um milimetro do lugar do esquecimento. A decadência está em todos os lugares, e a qualquer momento um ataque de ansiedade feroz pode sufocar os corações mais puros. Pânico. Todo lugar é instável, todo poder precisa ser sustentado. Sustentar algo requer disposição, adaptação e esquecimento. Não há tranquilidade nos lugares de poder, há tensão e disputa, como na rua – de um outro jeito. Mas os ruídos do poder são mais fortes que os outros ruídos, salvo os momentos de levante.

9– O museu não serve o artista assim como as casas de acolhimento não servem os mendigos. Existe uma gap, um buraco, um valão entre essas casas e essas urgências. Arte e instituição de arte deveriam ser acessíveis aos artistas, assim como as casas de acolhimento deveriam ser acessíveis aos moradores de rua e se moldarem a eles. A cidade e seus espaços de acolhimento deveriam funcionar como passagem, troca de ambiente, não como interrupção de um modo de vida.

10– O que significa para o artista entrar para o sistema de arte? Primeiro lugar significa profissionalizar seu modo de vida. Toda a angústia, revolta, vontade de mudar o mundo, a crítica que faz aos modos de produção e reconhecimento, sua vontade de produzir outros sentidos para a existência humana vão saindo de cena e no seu lugar começa nascer um profissional da arte. Orgulhoso do reconhecimento que lhe é oferecido, sua imagem começa aparecer ao lado de pessoas importantes dentro das redes de arte, começa a cumprir agendas de jantares, conversas interessantes, começa a ser visto com admiração e respeito, seu trabalho começa ser comentado, vendido, passa a ser chamado para diferentes lugares para expor suas obras, os críticos de arte começam a escrever sobre seu processo, analisar sua proposta estética. Começa conhecer gente interessante e se sentir vencedor. Seu caminho é arriscado, para manter esse status precisa trabalhar com mais afinco, precisa continuar a exercer o grau de influência recentemente conquistado, é preciso profissionalizar mais suas ações, medir seus passos, fazer conchavos e ampliar o alcance da sua obra. Qual poder existe sem risco? Nessa caminhada ao sucesso e reconhecimento suas antigas urgências vão dando lugar a uma sensação de que habita um lugar ainda arriscado, mas sua urgência já não é pela vida em si mesma, nem pelo mundo, é por si mesmo. Vira uma marca, um logo, precisa fazer esse logo dominar o mundo, ou a queda iminente se apresentará com suas garras de abismo. Ele urge, de um outro jeito, ainda reconhece possuir a pressa, o desespero, a vontade de poder e de mudança, mas precisa fazer tudo isso caber dentro do seu deadline.

11– A urgência do artista confinado em um espiral descendente de editais e projetos, que lhe tomam tempo e pensamento. Só queria criar, mas precisa tornar-se profissional na mendicância. Está engolfado em um clima burocrático, em um buraco negro sangue-suga. Quer expressar, resolver algo esteticamente, exercer linguagem poética  no mundo, mas só faz competir, escrever orçamentos, viver por conta de textos de editais que lhe dizem o que e como pedir, o que e como mendigar. Mendiga o artista, mendiga o mendigo. Alguns ganham editais, alguns ganham esmolas, outros não. Como constituir um plano de criação e sobrevivência sem burocratizar a vida?

12– Os artistas que não entram no $istemão da arte se confrontam com uma precariedade criativa, com suas redes afetivas, com suas festas de final de semana, e só alguns conseguem criar alternativas concretas para fazer vingar sua arte, com propostas mais autônomas, tentando construir um amparo através das redes sociais, das mídias digitais e dos encontros promovidos por editais. Tentam criar um mercado próprio, e muitas vezes acontece de não conseguirem sustentar a façanha e acabam por se conformar com a precariedade. Sua revolta contra os sistemas de arte continua urgindo, mas luta para exercer seu ativismo, sua raiva e urgência dentro dos trabalhos que produz. Aos poucos vai sentindo-se compelido a abandonar a brincadeira, porque a vida urge de outra forma, e se não for o sistema de arte que lhe abarca, será o mercado publicitário, o banco, a universidade, ou qualquer outro dispositivo de manutenção. A vaidade também opera nesses sujeitos, e em escala proporcionalmente menor, sente o orgulho do seu empoderamento, por oferecer as festas mais loucas, os trabalhos mais ousados, ter o reconhecimento das suas redes afetivas, seus editaizinhos mal pagos. Aprende muito cedo a usar o trabalho dos companheiros para endossar seu próprio nome, o nome da sua organização, da sua casa ocupada, do seu jornalzinho gratuito. Seu poderzinho lhe dá algum subsídio. Sua revolta lhe garante alguma admiração. Seu papel hierárquico sobre os outros não é devidamente notado, mas está lá triunfante, condizente com seu esforço. Busca na crítica dura seu lugar de reconhecimento. Lhe agrada ser temido, ser um crítico inteligente, usar suas armas para promover algum distúrbio. Seu nome atrelado ao distúrbio lhe dá tesão, e se masturba de orgulho. Ainda urge, talvez mais que nunca, e reivindica o seu lugar e os dos seus escolhidos em alguma história importante. Aos poucos se torna referência e começa ser notado por instâncias que lhe agradam, mas já não cabem todos da sua rede montada, cabe somente o si mesmo. Usa a base construída como plataforma do seu próprio lançamento, e sem trocar o tom, se mantém como o artista radical, ativista, furioso, cão de guarda, que vira juiz e passa a julgar os colegas que não foram pelo mesmo caminho. Sua mensagem é essa: Sejam como eu ou não sejam.

13– Não esquecer o aspecto mendicante do artista, que também é vítima da velocidade voluptuosa do sistema. Uns soam mais que outros, produzem mais ruído, são mais amplificados. Entre artistas também há abismos, hierarquias e dominação.

14– O museu é nosso!! Disse o filósofo olhando a arte de rua espalhada nas paredes do museu imponente, enquanto os ativistas ardentes batucavam do outro lado da rua, mas já não se podia ouvir. O museu é nosso!! O albergue é nosso. A rua é nossa. Mesmo que esse nosso nos levante outro problema: Nós quem cara pálida? Com tanto povo na rua, fica difícil atender todos princípios. Tudo urge. O museu é nosso, o museu deve ser destruído, o museu deve funcionar como um lugar de cuidado com as obras, fim do humano, fim da arte, fim do museu, a arte vive e é careta, rejeitamos esse bando de formalistas, nós somos os artistas! Assim os discursos desalinhados puxam brasa pros seus assados, viram matéria despedaçada, descentrada. Quem pode dar conta da ruidocracia da multidão? Quem representa o povo?

Quem representa o povo? Performance: Gira / Imagem: OlhoSeco

15–  As políticas de multidão, quem poderá coordená-la? Organizá-la? Os interesses mais vis, mesquinhos, direitosos e prepotentes também levam o nome de multidão, também urgem. A guerrilha não se extingue, convergência é um instante. Na maior parte do tempo o que temos é diferença se diferenciando entre si. E como organizar tanto ruído?

16- É preciso mexer em todas as camadas para fazer um ruído ser ouvido, nas matrizes do desejo, no pensamento alheio, na política institucional. A política exige pragmatismo, as revoluções precisam alcançar as estruturas.

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