De onde vem essa cultura das bordas?

por Lucio Agra

Falar de bordas e fronteiras, de muros e limites é um tema antigo que voltou ao circuito das discussões intelectuais há algum tempo. Tanto quanto eu saiba, o termo Bordas aparece como categoria e sintoma de situação cultural, no texto “Heterônimos e Cultura das Bordas: o caso Rubens Lucchetti” de Jerusa Pires Ferreira, publicado no número 4 da Revista da USP de dez.jan.fev, 1989/90. Depois ressurge dando nome ao próprio livro da autora, Cultura das Bordas, em 2010, pela Ateliê Editorial.

 

Conceito urdido como noção nova, necessária ao estudo de uma obra que não cabia nos parâmetros do que se considera “erudito” ou popular”, a imensa produção de Rubens Lucchetti ( O papa do pulp, como o qualificou Carlos Adriano em seu filme de 2002), composta de um grande número de heterônimos, a categoria de “cultura das bordas” certamente corresponde a uma dessas percepções destinadas a povoar o pensamento das primeiras décadas do século 21.

Bordas acabou por nomear também a revista que o Centro de Estudos da Oralidade da PUC-SP, coordenado pela mesma profa. Jerusa, criou e de cuja elaboração tenho o prazer de ter participado (https://revistas.pucsp.br/bordas ).

 

“Bordas é hoje para mim quase marca e chancela. Esta ideia corresponde a um projeto, a uma atitude teórica qe vem de bem longe. Foi sendo construído o conceito de cultura das bordas, a partir da consideração de espaços não canônicos, trazendo para o centro da observação os chamados periféricos, privilegiando segmentos não institucionalizados.” (FERREIRA, 2010: 11)

 

Se algum leitor está a pensar em coisas como “Poesia Marginal” ou “arte periférica”, deve atentar para o sentido mais profundo de uma “cultura das bordas”: “Bordas também é um desafio, solução para alguns impasses e nomenclaturas como o de margens e marginalidade ou cultura periférica.” De um modo um tanto diverso, a discussão sobre as “bordas” foi levada adiante por autores como Bernadette Lyra que reconhece a precedência de Jerusa nos seus estudos sobre o que chama de Cinema de Bordas e que se transformou em uma mostra periodicamente realizada pelo Itaú Cultural (bordas no centro?).

O que é visto como excedente, desregulado por uma noção canônica de gosto, também não parece caber no conceito:  “Este conceito poderá, em certos planos, ainda confinar-se com o de kitsch, no entanto é bem diferente, na medida em que este se aplica a uma fenomenologia do gosto. Aliás, bem discutível.” (FERREIRA, Idem ibid.)

Jerusa torna visível desse modo, em seu texto introdutório ao livro, o quanto as formulações buscadas no Hemisfério Norte para a emergência de novas formas misturadas, mesclas de categorias ultrapassadas como erudito e popular, não foram percebidas em sua potência reversora. De certo modo, o kitsch e depois, mais generosamente, o camp, que Susan Sontag defendeu, diziam respeito a uma espécie de trânsito de fronteiras que não se detém em nenhuma. Mas o essas ideias de Moles e Sontag carregam consigo é a dificuldade em suportar o possível interesse despertado exatamente por aquilo que é, de saída, posto na categoria inferiorizante do “mau gosto”. A proximidade com o trash ou “o lixo sem limites” de um Bandido da Luz Vermelha (Rogério Sganzerla, 1968) pode vir a ter um aspecto subversivo mas mesmo assim mantém a distância que um cruzamento não respeitaria.  Dangerous bordercrossers, como se denominou e a seus companheiros do grupo “La Pocha Nostra”, o performer mexicano Guillermo Gómez-Peña.

Trata-se, aliás de uma atualíssima discussão sobre limites e fronteiras: “Implica toda a pertença múltipla e a dificuldade de estabelecer limites.” E mais: “Pode ser um contracânone (…) a liberdade de assumir heterodoxias e o equilíbrio precário daquilo que pode estar na beira dos sistemas” (FERREIRA, Idem ibid.)

O modo como se opera na cultura das bordas tem a ver com alguns atravessamentos. Recordo que Jerusa, em suas aulas, sempre citava o caso de Augusto dos Anjos, segundo ela o poeta mais popular do Brasil em qualquer botequim país a fora. Sempre se encontrará alguém capaz de citar um verso, ao modo de uma retórica bem aprendida pelos políticos da terra. Mas trata-se de um texto insubmisso à assimilação. Um político certamente evitaria pedir “escarra na boca que te beija” como está nos “Versos Íntimos” do poeta paraibano, possivelmente um dos seus poemas mais conhecidos.

O que Jerusa chama de “deslocação permanente do que passa a ser considerado” espraia-se por Cultura das Bordas nos capítulos dedicados aos livros de Magia, de Advinhação, de bruxarias e feitiços. Autora de O livro de São Cipriano, uma legenda de massas (Perspctiva, 1992), ela fez ali – e antes – escolhas muito difíceis para seu tempo: as relações entre os romances de cavalaria medievais e o cordel, os vários Faustos que a lenda produziu – dos quais o de Goethe é um, nas suas  várias etapas – e ainda partiu para a tradução da obra do suíço despaisado Paul Zumthor que só encontraria espaço para suas ideias sobre a voz e a performance no Canadá, junto aos seguidores de McLuhan.

Não se trata, tampouco, do que tradicionalmente se chama de “cultura de massas” pois

 

“em espaços não consagrados do mundo urbano, se desenvolve toda uma cultura que absorve e é absorvida, criando regiões imantadas que nos permitem pensar em temas, autores, textos a pedir sempre novos parâmetros de avaliação, em regime de movimento e descoberta.” (FERREIRA, 2010:12/13)

 

Uma “definição em equilíbrio como no fio da faca”. Permanentemente instável e duvidosa, um percurso que transita por dimensões políticas ao mesmo tempo conservadoras e progressistas, como de fato se passa na expressão dessas zonas de fronteira urbanas.

Hoje mesmo, eu pensava que cada uma das cidades brasileiras tem uma área “rica” e outra “periférica”, esta segunda sempre sendo aquela que não visitei mas de onde vinham as coisas “sub-urbanas” como a umbanda, a luta de karatê, as artes da conquista amorosa, os baralhos da sorte, o circo, a feira, os chás e as ervas, as plantas proibidas, as sabedorias fora do mundo letrado. Tudo isso, entretanto, faz um tráfico de fronteira, negocia zonas de contaminação que se estabelecem em meio à lógica geral do comércio. A cultura das bordas está na passarela da Basílica de Aparecida do Norte e no hip-hop “periférico”(instância instável) de São Paulo.

A linha de pesquisa que Jerusa Pires Ferreira inaugurou ultrapassa mesmo as disciplinas de uso tradicional para esses temas, da Sociologia à Semiótica, passando pelo Design, a Antropologia e pelos estudos de Estética.

Estar nessa borda requer um exigente exercício de compreensão de diferenças culturais que são fundamentalmente estéticas. Nada disso é fácil.

 

 

 

 

FERREIRA, Jerusa Pires Cultura das Bordas São Paulo, Ateliê, 2010.

LYRA, Bernadette “Horror, humor e sexo no cinema das bordas” in Ilha do desterro no.51 Florianópolis, jul./dez. 2006, pp 131-146

 

 

 

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