Danças com caderno testemunho

por Gisella Hiche

No corpo junto a essas palavras.

Escrita de outra voz que se sente estimulada por ter as folhas em branco a sua frente, por poder chafurdar-se nessa lama, rolar no chão, no caderno, poder, acontecer e dar-se conta que cada vez que se escreve, vivifica-se. Voz ou escrita que gosta de estar no estado de larva, uma sensação de estar prestes a, e já se passaram muitas páginas.

A principal operação que propicia esta pesquisa são danças e outros estudos corporais. Durante as experimentações físicas, os pensamentos verbais, quando acontecem, são anotados, testemunhados, e tornam-se disparadores da presente escrita.

Na dança, o desafio é permanecer num estado suportável de vertigem, em que a consciência acompanha/é o corpo em movimento e perde seu protocolo habitual de organização da experiência. O pensamento passa a erigir-se de outro jeito, lambuzando-se no corpo, sendo o corpo.

É algo fresco, que me atrai irresistivelmente a atenção e pede elaboração.

Anotação I

Cada vez que se escreve, cada vez que se abre o caderno, inaugura-se um corpo.

O caderno precisa ser sem pauta e as canetas deslizantes.

O que está em jogo, já se joga.

 

Capítulo I

força da gravidade e idioma

Dança de um corpo compondo-se com a força da gravidade; vetor que conforme se experimenta, amplifica-se a impressão de se estar em outro idioma, estalado e irmanado com os ossos, menos sutil, mais gutural e de qualidade abissalmente diferente do português.

Anotação II

o português

sua mansidão acumulando-se pelas dobras do corpo

excedendo-se em um peso que é aquele do costume.

Engolindo-me em seus sentidos corriqueiros

enfastiando-me já no pensamento

Danço.

Frase rasgada.

Da sobra, irrompe um sopro nesta língua cansada.

Língua que se tonifica.

 

Incompletude do idioma reinaugurada.

 

Uma poesia pequena, de grão, insinua-se:

alívio.

 

Capítulo II

contextos

Chega-se até aqui. Aqui foi o que sobrou. Há graça e prazer ao afirmar que no final foi o corpo o vencedor. Corpo insistente, cansado, quase seco. Corpo que não pára, independente de minha opinião.

Anedota sobre o passado

Lembrei-me novamente daquela mesa em que todos estavam espumando e sem muita alternativa enxugavam com o guardanapo de pano a baba no canto da boca. Usá-lo era tão natural quanto a baba. Eu também usava o guardanapo e era horrível; completamente incompatível com o acúmulo de saliva. Como que essa mesa foi montada? Não queria atrapalhar ninguém, mas eu não estava conseguindo segurar o riso, a baba, o mijo, o sangue. Quando podia, levantava-me, saía, mas não havia nada ao redor da mesa, o jogo é aqui, entre palavras, saliva, vida.

 

escrevo

Do meu respiro, da minha presente quase embriaguez, da seriedade de ter raspado absurdo, daquilo que não é leviano, da leveza de não haver o essencial, da felicidade de em tal cenário não poder fazer nada além de digitar isso, dar testemunho e calar nos intervalos.

O corpo não foi sempre o território nomeado para as práticas. Mas sua incontestável presença, com seu tempo, dores, e impulsos, levaram-me a fazer um percurso que colocou em cheque a educação recebida, o jeito que se vive, que se pensa, colocando aos poucos o corpo e seus inomináveis na equação, autorizando-me a criar, ou melhor, deixando-me somente esta possibilidade.

Anotação III

E tu, arlequim,

enroscado em seus andaimes

descobre que sempre teve corpo

e que tantos canos, conexões e degraus

 

não eram necessários.

 

Anotação V

de passado basta termos nascido

 

 

Capítulo 3

presente

Escrita com o que restou depois de uma batalha.

O atual aprendizado é o grau de radicalidade que dou conta, uma vez feita a opção por dar conta. Caderno testemunho a celebrar qualquer coisa que alvejada e incoerente insistiu em sussurrar-me que era vida.

 

Levezas.

 

Corpo como ágora contemporânea: o quê está em disputa no mundo, na cidade, em São Paulo, também está em disputa no corpo, no pensamento, em como se pensa, na saúde que se tem. Dança e escrita inauguram e ensinam temporalidades, que misturam-se a outras resistências políticas em construção.

É tão pequeno, mas é tão vital escrever a vida enquanto ela acontece.

Dar conta com esta língua, com este corpo, aventurar a escrita no alongamento das articulações, dar atenção ao espaço criado, ir em direção a ele. O corpo em peculiar assimetria, algo que agora precisa ir bem rápido, deixar um rastro de desordem, de grunhido, respiração que agarra vento, aprende com ele a passar pela casa, não se olha nada, mas sabe-se o quê está por ali. Olho da pele, do bicho, animal em movimento, investigando o terreno, seguindo a indicação do que parece vir antes do pensamento, indicação que é o próprio espaço, não se pode dizer se dentro da cabeça, se no ar, no cheiro, deve ser no cheiro, na vontade de ir já indo, mas não é nada desbaratinado não, o corpo sabe, deve lembrar-se da infância. Ou é porque é do mundo? É matéria, peso e pulsão mais do que qualquer inteligência que depois quer arrumar o inarrumável?

Ganho a rua, ligeira entre os corpos, pequenos saltos, desvios, avanços, não pode encostar, só pode raspar, ganho velocidade, a cidade é assim, acelerada, o grito, a fruta, a loja, as roupas, ele, ela, o fragmento de conversa, dá até para correr____________

cidade

Adensado de gente, uma morando em cima da outra, todas precisando, cansadas, modernas, antigas, com pressa, vindas de cima, de baixo, do lado do mapa, urgentes, móveis… A cidade e seus insondáveis. Palavra que já vem com vidas inteiras, vias, demolições, tempos, pegajosa a intrometer-se e ser o sussurro dos casais, as negociações dos empresários, a descoberta das crianças. Território personificável demandante de atenção, escritas, estudos, intervenções, governo, protesto, indiferença, de ficar nela, empanturrar-se dela, dissipar-se, já não conseguir distinguir o corpo de vias, cheiros e helicópteros.

artista de rua

Aconteceu de tornar-se uma palhaça de trupe formada por um moço cumprido que toca sanfona, um fotógrafo de paredes, edifícios e quarteirões demolidos do bairro da Luz, uma mulher de Recife, feminista, o homem que morou dez anos na Inglaterra e interessa-se por filosofia da matemática e o estudioso de paisagem e poesia. Trupe de pessoas da cidade, pessoas de cantos, arestas, que com uma suficiência satisfatória de alegria saem com seu bloco pelas ruas, durante o Carnaval paulistano. Tudo beira, silenciosamente, a decadência. A cidade foi evacuada, o sol parece de inverno. A palhaça ainda acredita na potência de agitamento causado pela sua indumentária de bolas coloridas de vermelho, amarelo, verde, um babado, um dourado. Promessa ínfima e reticular no cenário de restos. Se não houvesse graça nisso, a palhaça derradeira não faria a travessia com o bloco carnavalesco.

 

Capítulo 4

cálcio e mineral

Sou irresistivelmente atraída pelos ossos, essa coisa dura onde a carne se gruda, se monta. São eles que fazem a dança, dão as direções e destronam habitualidades.

 

Anotação II

o cheiro das pedras quente do sol

sua secura porosa

descobrir carmins

cinzas

brancos

difusos em seus cortes

recortes

furos

 

estalar minhas unhas nessa pedra

produz som surdo

de longe

demora a atingir o frescor do meu corpo vivo

 

ancestral, o osso escuta

atinjo meu estado pedra

num canto do mundo

(praia de Camboinhas, Niterói- 2007)

 

Anotação III

Anda com a língua passando devagar pelos dentes, encostando neles, esfregando-se. Cada vez que sorri, mostra as pontas do esqueleto se esgueirando para fora. Sentir-se de pedra em processo de calcificação, descalcificação. Matéria antiga dentro do corpo.

Anotação IV

sonhei com meus ossos

como se fossem pedras flautas

articuladas

pendurando-me em mim

oco sopros

preenchidas gravidades

 

 

Capítulo 5

poesia da fisicalidade

Anotação V

aterriza

Na ponta mínima dos pés, já na pele: o peso, membrana do encontro do que acontece com o corpo. Sustenta-se a experiência em posturas variadas, cria-se e acompanha. Estado a ser cultivado. Sentir o corpo como um estado de chegada. Onde estávamos, então?

Experimento o peso, sua sensação impermanente, algo que vai no macio da carne, na polpa que acolchoa os ossos em seu encontro com o chão. Mais um pouco e dói. Em movimento tal sensação transfere-se por superficies imprevisíveis, toda minha atenção volta-se para essas transferências, o corpo organiza-se em uma dança concentrada, que pode seguir o trajeto de um desequilíbrio, persegui-lo até seu limite e amparar a queda arredondando a parte do corpo que eventualmente se aproxima do chão. Um jogo.

 

Estudar as passagens e estados de transição

trama que atravessa

constitui

 

Anotação VI

em azul

tinta represada

na curva da grafia

atenção àquilo que marca

borra

 

acúmulo de uma forma

que comporta esta tarde,

nesta esquina

Rua das Palmeiras

Barão de Tatuí

 

palavras espaçosas

respiradas

espalmam

acolhem-se

em espessuras entateadas

que duram

por mais um café

anoitecer

Anotação VII

língua- crença

 

 

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