CORPO – PORCO

por Eduardo Verderame

Dissociar o homem de seu corpo é impensável.  O corpo é o primeiro e último limite, a resultante de um jogo de genes suspenso no tempo espaço. Se fora um cachorro, pensaria com o pescoço e não ouviria mais quando travasse a mandíbula.

O corpo humano é um sistema tão complexo que um deus talvez não soubesse fazê-lo, pelo menos não um criado a nossa imagem e semelhança. Fatores isolados somados podem criar situações que escapam ao padrão da normalidade ou existe uma pre-disposição que se elabora através de tentativa e erro?  Uma minúscula alteração genética pode selar o destino de uma vida. O deus, que não era um cara muito afeito aos meandros da ciência ficou pensando e se perguntou, como nós, o quê faria: o matava a criatura ou a mantinha. Uma vez criado não haveria passo atrás, haveria de mantê-lo para sempre.

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A tortura é antiga quanto o homem, e existem inúmeros objetos desenhados especificamente para tal uso. Nos museus dedicados a tortura existem instrumentos curiosos como a pêra, os colares de punição, o quebra joelho, o esmaga dedos ou o pêndulo. Nomes sugestivos para uma época onde o castigo físico ainda era admitido e praticado. O desenho dos instrumentos é de tal sofisticação que torna-se impossível uma vez submetido a ele, de não deixar de sentir dor excruciante. Paradoxalmente, um instrumento de tortura é mais eficaz quanto mais dor infligir antes de matar sua vítima.

 

Durante as ditaduras da América Latina nos anos 70, a maioria dos países recebeu do serviço secreto dos USA lições de tortura para aplicar nos prisioneiros políticos e assim extrair confissões. O afogamento, o enforcamento e os choques elétricos nas genitálias estavam entre os métodos mais  utilizados.

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O deslocamento sempre foi um dos maiores desafios do ser humano. Se hoje cruzamos mares e terras, nem sempre foi assim. As mais importantes rotas de comércio do mundo sempre estiveram cheias de pedágios e perigos.

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A idéia de escravidão mudou com o tempo. Até os gregos, a escravidão era prêmio de guerra ou algum reparo de falta ou crime e raramente estendia-se mais do que determinado tempo. Com a era moderna a escravidão virou um negócio que envolveu sociedades inteiras em continentes diversos, movimentou economias e fincou bases para a revolução industrial e para a sociedade contemporânea. A posse do corpo alheio ainda que temporária, costuma a ser a base das nossas relações sociais atuais.  E em certa medida a mais democrática, na medida em que todos estamos expostos a ela: a chamamos trabalho.

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O “outro” perfeito para odiar e saquear.

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O site de relacionamentos dinamarquês Beautiful People, exclusivo para pessoas bonitas, existe desde 2009. O site estimula que seus assinantes julguem as fotos dos candidatos a entrar no site, evitando assim o papel ingrato de negar pessoalmente acesso a comunidade. O anonimato permite um grau alto de rigor nesses julgamentos e apenas 25% dos candidatos são aceitos, em média.

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O controle do corpo é um dos pilares da filosofia das sociedades orientais. Do sufismo ao kung fu, esporte, filosofia e fé criam bases para o auto controle e para o despertar de faculdades mentais mais elevadas.

O ocidente cristão possui o costume do sacrifício e do auto suplício. A culpa é o gatilho do processo, e o frenesi das repetidas flagelações sobre o próprio corpo traz o sentimento de purgação e alívio.

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A idéia das “drogas recreativas” foi introduzida na sociedade, como uma nova maneira de sacralizar o laico. A questão das drogas tornou-se uma espada sobre o pescoço das sociedades ocidentais: impossível reprimir e inaceitável legalizar, talvez seja um dos maiores desafios da democracia.

Estranhamente o marco inicial desse processo foi instaurado pela Inglaterra, com a introdução do tráfico ilegal do ópio indiano na China ainda no século XIX como parte de uma guerra comercial a aquele país.

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Na passagem do século XIX para o XX foi que surgiram na literatura (e consequentemente na imaginação popular) as figuras mais emblemáticas do distanciamento da mente e do corpo, alavancado pelas descobertas da psicoanálise. Stevenson sintetizou o avanço da idade moderna e o pânico da dissociação entre a moral e as demandas dos instintos do corpo no seu Strange Case of  Dr. Jekyll and Mr. Hyde em 1886. Figuras como as do Frankenstein, vampiros ou dos zumbis, também caracterizam o descontrole e a irracionalidade que perseguem a sociedade européia desde a Idade Média. Mas nenhum destes poderia imaginar o que seria uma guerra como as do século XX, ou como vivem as sociedades sitiadas do início século XXI, quando o verdadeiro terror se instalou no dia a dia de um número gigantesco de pessoas.

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Uma pequena engrenagem caída na pista de pouso do aeroporto francês Charles de Gaulle, foi sugada pela turbina de um Corcorde e explodiu um dos quatro motores da aeronave, causando um acidente que matou todas as 109 pessoas a bordo e 4 em terra.

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