BRASIL MATO IDADE

por Ernesto Neto

enquanto os homens­

                               Nas calçadas

se debatem batem

             nuvens circulam    as margens do cotidiano

 

enquanto estado moral policial

censura o nosso      diário caminhar

estado de noticia emoldura          limita             encurrala

nosso   eterno   livre pensamento

 

 

dialogo não se encontra

conversa escorrega

estado de alerta emocional

cega os dramas        esconde as verdades

interesses se aproveitam

do idílio                                     loucos

 

neste vácuo de sentidos

na emergência do presente

seres acuados com      pedras e paus

entre cusparadas cegas      abelhas      e      frases surdas

trafegam vivos    nas entre linhas do discurso    curto          apaixonado

sem saber para onde ir     

                       como     prosseguir

ultra mundos     se defendem como     espelho

tristes Policarpos        engolidos

pela mórbida melodia da lubrificada  propaganda

refletem como podem        transfigurados

a brutalidade cínico platinada

agem por instinto   por urgência

 

enquanto  a estaca bate

aproveitadores dissimulados

capitalizam  as dores da paisagem

cegos para o mundo

renderizando nosso olhar

numa fantasia de presente

mídia espalha esporra    o assovio   tremulo do  lóbulo encantado

 

na pancada do cassetete

na frase curta do slogan

montados na surdes da manchete garrafal

vendendo seus produtos

monocromando    nossa     alegria

aldeia se dissolve  desiludida

sofre do futuro  a cidade o cidadão

 

alheio a toda corte     

as seis da tarde    

nas esquina dos bares

o transeunte toma sua cerveja

sua  camisa no asfalto do cotidiano

rala como pode  um salário miúdo

sem tempo  letra ou caneta

dorme na história     se aconchega no finito

sem sonhos  sem livros    só novela  e geladeira

sete filhos pra criar

neste mundo de tanta gente

esquecemos ocupados

                 desta   multi viva lateralidade 

para aceitar    que um    capital galopante

bote abaixo o cinza colorido  para o grey levantar

 

monumentos  ficam pelo caminho,

moradores sem propriedade,

águas  baias  lagos emporcalhadas     saúde  cultura  ovos

a quem interessa a medíocre educação

 

entre bondes encurralados

a roda amassa esmaga  sem palavras

a história vai se acomodando

gritos perdidos e desnorteados

mentes turvas e cansadas

modelos de ação desfigurados

nobres índios dilacerados

construir para destruir

dinheiro novo esconde o passado

uma história de amor e fúria

de um país alegre e a muito                 atormentado

transbordamos na borda

no limite do certo          do incerto   e        do errado

ouvidos ruídos frases poemas

costurando retalhos fragmentos e diferenças

buscamos uma possibilidade mítica

de uma filosofia sem crença

no mito miscigenado  funk  samba     baião e rock’n rol

algum lugar possível onde possamos acordar

com orgulho de nossa gente

índio afro branco   rica  pobre ou indigente 

com amor ternura e esperança

talvez um lugar utópico   eternamente inalcançável

mas hoje tão longe estamos   de algo    apenas desejável

 

menos noticia mais poemas

menos tela mais livros

mas logos    quem é    que hoje sabe ler

acordo para o que necessitamos

desprezo ao objeto      atenção a relação 

na esquina tem um churrasco crianças   brincadeiras 

filmar nossa vontade

com ternura  encenar   nossa opinião

toda tarde o sol se põe 

nem sempre podemos ver

mas nosso astro   firme e confiável

sempre vivo sobre nós      entre eu e você                                 

por mais que diferentes

ao trono todos vamos

que sabe um dia no abismo que nos separa

aceitamos o amor   

não o romântico da novela hollywood

mas o da terra   da historia  de avô pra pai e filho

 

quem sabe na cultura   no museu   o   no congresso

nos encontramos  e nos amamos                     

afinal      para além do proprietário    agora e para sempre    

desta lavra  todos somos

quem sabe da força de nosso verbo   

seremos  antes do inverno  mais consanguíneos

no nosso imaginário             menos sanguinários

livres

 

sangue pulsa testosterona

estrogênio conversa lambe beija    

arte constrói     sonha vento  maternidade

com o tempo diluiremos   mente

tanta volúpia acorrentada manipulada

reviraremos a bruta ordem nos cerca  que

nos pegou desprevenido    no meio do rojão

sem meios canais     frívolos no face

enquanto fitamos na deriva    

o grito vivo perdido em nossa mão

baratinados diante do

estado insetizam

atônitos divididos

entre facções de um bolo apimentado

uns dançam outros cantam

uns se infiltram outros gritam

 

para onde ir

para onde correr

harrr

com que armas lutar

 

 

o que não queremos    sabemos

oque queremos  não sabemos

 

 

 

Rio 1 de maio de 2013

ernesto neto

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.