Amor a cidade

por Rila Rila

Meus pés ficavam frios e o Chet Baker me atrapalhava a concentração. Só consigo escrever de pés frios, ele não sabe. Ele também não deve saber que durante algum tempo eu não ia muito com a cara da noite. Ele não deve saber nada sobre mim. É, eu penso: ele não sabe nada sobre mim. E eu acho isso bom.

 

Era bom também quando a escuridão da noite me assustava e eu tinha medo que tudo ficasse invisível. Foi assim durante um bom tempo. Não é mais assim hoje, e não foi assim aquela noite. Quem andava conosco era a Laurie Anderson e ela não sabia o que passaria. Nem eu. Os rapazes nos buscaram de carro. Eram três meninos, eu e a minha amiga. Ela sentou na frente com o motorista e eu fui atrás no meio dos outros dois. Eles eram altos e simpáticos, e eu achei eles obedientes. Basicamente eram perfeitos, e eram dois. Eu tinha a impressão que a nossa vontade formava um triângulo inquebrável onde eu me protegia. E eu gostava.
     

E eu minto, porque eu sabia o que seria aquela noite. Seria a rua. Um filme sobre amor com a cidade, um filme sobre uma boceta se encontrando com a arquitetura. O tema: amor à cidade.

Primeiro fomos no Minhocão. Não sei se aqui cabe a analogia da minhoca com a cobra, mas em todo caso o minhocão não é uma cobra, é uma obra. O minhocão, de gosto duvidoso, é uma esteira de concreto sobre uma avenida cheia de prédios modernistas, bem no meio do centro de São Paulo. É um asfalto onde passam carros durante o dia, portanto, é muito sujo. Qualquer coisa ali tem uma capa de pó preto de fuligem, denso e pastoso. Eu sempre gostei de exuberância, mas na exuberância da poluição foi mais difícil ver qualquer coisa erótica que não a secura do afogamento na fumaça. Amor com essa cinza me pareceu assustador. Mas ainda insistimos: um fist fucking em uma tela e um inço estuprado por uma boceta. Mijar seria lavar o pó, e foi o que eu fiz.

Saindo de lá encontramos um parque de estátuas de metal muito lindas. Elas estavam mais imundas ainda que o minhocão, mas isso já não importava. Vaselina com fuligem. Sim! Vaselina com fuligem, que tesão! Aderindo à roupa, grudando em tudo, na boca, na roupa, na roupa dos outros, na roupa que não se pode mais usar hoje em dia depois desse dia. Beijei a boca de uma, apalpei outra, subi em cima da outra. Disso eu concluo que estátuas são frias, não tem medo de ratos e tem bocas bonitas. Saí do parque como se tivesse passado um dia inteiro numa oficina mecânica embaixo de um carro. Tinha um zelador legal ali que se divertiu com a gente e até participou de uma cena. Ele nos emprestou uma mangueira e um sabonete, e isso foi muito ineficaz porque qualquer um que já tentou misturar água e óleo sabe que vaselina não sai com água. Assim, agradecemos o vigilante e seguimos para um bar onde me limpei com um papel bem seco.

Mas não foi porque a minha blusa estava suja que eu resolvi tirar ela dentro do bar. Foi para gravar uma cena. De alguma forma eu achava que podia tirar a roupa em qualquer lugar. Nem sempre eu achei isso. Foi bom achar isso. Nem sempre achar isso foi bom. Mas não podia tirar a roupa e um dos garçons do bar correu para nos dizer isso de forma não muito sutil. Eu coloquei a blusa, mas mesmo assim nos expulsaram do bar. Uma blusa fizera uma grande diferença. Mas agora não fazia mais diferença nenhuma porque vestindo ela ou não eles não nos serviam mais cervejas.

Cansamos do bar e fomos para o Viaduto Santa Ifigênia: imponente, majestoso, com seu metal oxidado e chão de ladrilhos antigos. Confortável, polido, elegante, escoltado por um conjunto de pilastras fálicas que brotavam do chão. Eram umas pilastras para impedir os carros de passar, e eram de ferro, eram legais, eram como cavalheiros para quem eu tinha que pedir passagem para andar no viaduto. Com a boceta me ofereci cheia de delicadeza, apoiei a xana sobre um deles e mal podia encostar os pés no chão tão grande era. Minha saia rosa plissada rodava em volta, ele ficou coberto, nosso encontro teve uma espécie de reserva por causa disso. Ele era muito duro e indiferente, e eu gostei assim. Mas de repente ficou quente e o ferro derreteu para dentro das minhas coxas. Estávamos autorizados todos e um dos rapazes estava de pau duro. Eu toquei nele, mas só um pouco, uma passagem pela minha mão; tudo me excitava, tive um impulso de continuar. A Laurie Anderson faria isso, talvez, mas não eu. Eu segui pela plataforma tal qual uma antiga dama procurando seu lenço perdido, caminhei sem blusa pelo viaduto. Neste momento homens desconhecidos se aproximaram. Ao contrário das estátuas e dos monumentos, eles podiam falar comigo e falaram palavras de coisas que eles queriam. Tudo me soava distante, vozes que não me diziam respeito. Só me dizia respeito a passividade das pedras? As mãos molhadas me enjoavam e eu já ia longe em pensamento quando um lixeiro perfurou a barreira e me disse: “Eu já te comi lá na Paulista!” (e repetia, convicto). A possibilidade de que eu tivesse mesmo feito isso me surpreendeu como se me tivessem lançado um ovo cru na cara. A partir daí, me esfregar naquela roupa laranja suada só não foi prazeroso porque tinha calor humano demais dentro dela. Três outros rapazes se aproximaram também, seguindo o fluxo do gari. Eles perguntaram para os meus amigos se podiam me tocar. Os meus amigos responderam que sim, já que eu não falava muito, eu só falava “É”. Eu gostei de ter pessoas falando por mim.Veio um deles e apalpou a minha bunda. Alguém dizia: “Vai rapaz, aproveita.” No meio disso o homem de laranja insistia: “Foi lá perto do Masp que eu te comi de quatro.”  E eu ficava cada vez mais na dúvida. No final, os rapazes foram embora e levaram minha blusa preta com eles. Foi um roubo. Droga, eu adorava aquela blusa preta. Os amigos me emprestaram uma blusa branca e entramos novamente no carro, onde os dois do meu lado me tocaram sem nem pensar em pedir permissão. Fiquei suculenta como uma planta.

Me levaram para a escadaria da Igreja da Sé.
          

Sentada nos degraus da Igreja, com as pernas escancaradas, ouvia mais vozes: “…mais… você tem que gozar.” Me masturbei furiosamente enfiando todos os dedos dentro da boceta. Eu queria gozar e estava quase conseguindo, mesmo morrendo de medo que a polícia chegasse ou que alguém da minha família de repente aparecesse, assim, se materializasse direto da cidadezinha para a praça da Sé.

Gemi alto. Era uma espécie de tarefa artística gozar e eu estava disposta a cumpri-la como uma boa atriz. Assim, nem percebi quando ele se aproximou. Ele. Não sei o seu nome. O que eu reconheci primeiro foi uma voz cômica, ele falava engraçado, ele falava de mim numa mistura de zombaria e adoração. Essa figura foi a primeira que veio. Veio antes da polícia, antes de tudo, antes do pai, antes do motorista que parou ao lado e desceu do carro para olhar. Ele veio primeiro ainda do que a gente. E eu virei uma xana, xoxota, boceta, vagina mapa mundo. De um buraco molhado, sedento, indigno, ele improvisou uma geografia: “Aqui é o pantanal.” “Aqui é o Osama! O centro do mundo!” “Ó, o tsunami…” “A floresta amazônica tropical.” Enquanto ele me mostrava o mapa da mina, eu ria e reclamava que era para ele parar de me fazer rir porque eu queria gozar. Mas tudo estava conquistado diante daquilo que falava tanto dela. Ele conhecia a minha boceta. Estava ali, no buraco gigante por onde passara a poluição, os guardiões, os súditos e os ladrões. Ele chamou: “Pai, vem ver, pai!” E veio um senhor velhinho subindo as escadas. E não, isso não foi um delírio psicanalítico, naquele dia tinha um homem lá que se chamava mesmo Pai.

E a voz ainda sussurrava: “você tem que gozar…” Eu ria da inadimplência funcional do nosso mapa, que me agradava ainda mais do que as pedras.

A filmagem ia terminando. A noite também ia embora. Passamos em outro bar, desta vez sem tirar a camisa. Depois de ter fodido tanto com coisas metálicas e cômicas eu tinha muita vontade de sexo com gente. Tudo clareava, deixando as rotas para o mundo mágico da vagina mais visíveis do que nunca… A partir daí, o Chet Baker foi gentil e seguiu a estrada comigo. Um dos amigos gostosos também.

 

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