Compilação

por Lucas Bambozzi

MENSÁRIO DAS REDES

Agosto de 2013

Uma coisa é certa: a grande mídia tem que perder essa voz hegemônica e arrogante. Que venha o blogger, o vlogger, o usuário comum a postar sua visão, a mídia Ninja, a peixeira do sertão que não virou mar, a navalhada dos sem-mídia, o facão a desmatar o desconhecido, a voz de quem hoje começa a ter acesso algum meio e tenha algo a dizer. E assim vamos aprendendo novas falas (linguagens?), vendo que as mídias se reproduzem sempre (lembram dos repórter-abelha, do VHS infiltrado na noticia, do DIY, da mídia de uma pessoa só) algumas brechas se abrem, e um dia ou outro o império perde um pouco de seus domínios opressivos. Enquanto seguem na tv privada os marinhos e na pública os marcos mendonças, enquanto a veja for a revista mais vendida no brasil, enquanto persistirem os senhores do pensamento arcaico (nos meios de comunicação ou em brasília, nos estados, nas prefeituras), as fissuras deixadas pela ignorância parecem ser a única forma de algo novo acontecer.

 

 

2014, depois da copa

Dizíamos: faltou à governança um pensamento aberto, uma grandeza de intenções, um mínimo de sensibilidade, princípios que iriam além das alianças, mas que pudessem ser pautados por arte, cultura e um amor que não fosse mero slogan. Pra onde vamos com essa turma, ou com aquela outra sorrateira, que nunca nem princípio teve?

Os processos multitudinários só nos salvarão com algum respeito à subjetividade: micro + macro, dizia-se, hoje com o risco do simplismo. O amanhã vai se mostrar pior?

 

Janeiro de 2015

É vendo a TV aberta que vemos o transe causado por essa mídia, que esperneia para se manter no domínio de uma massa, que já não deveria mais ser massa, a essa altura, muito menos de manobra, mas ainda se permite ser hipnotizada com pirotecnia deslavada e ilegal. Desliguei.

 

Julho de 2015

Há muita presunção em torno da importância da opinião própria. Vemos muita vaidade nessa rede, atrás de reputação, na ânsia de arregimentar umas dezenas de likes, um vintém de reconhecimento, forjando uma espécie de técnico de futebol investido de cientista político, fazendo bravatas em nome da liberdade de expressão, a pretensa voz da verdade dos engravatados… a verdade de cada um e o discurso meramente estratégico que quer se fazer valer como verdade [a presumida imparcialidade da justiça agora explicitamente política, vem mostrando o que está de fato em jogo]. Opinar é construir algum pensamento, ou é meramente alinhar-se com sua própria vaidade (ou a de seus pares)? A conduta, a postura, nesse ou naquele assunto, deveria ser uma busca de conhecimento, em um encontro com princípios e ideologias. Faltaria assumir algo como “mas também sei que nada sei”, sem falsa modéstia.

 

Janeiro de 2016

Em 2014 reclamava de falta de sensibilidade na política. Hoje falta muito, muito mais que isso. Inacreditável retrocesso diante de tantas figuras nefastas, cafajestes e de mau caráter.

 

Abril de 2016

Canalhas…

O congresso nos envergonha de forma profunda. É uma classe arcaica, de deputados que ganham seus cargos pela legenda, sem compromisso popular. Ou eleitos por automatismo, de muitos que acreditam que por detrás de todo terno e gravata tem alguma moralidade. Uma classe arrogante, metida e ignorante ao mesmo tempo. O risco Brasil não está nos cálculos das agências internacionais, na especulação em torno da economia que opera por blefes e notícias fabricadas. O poder da mídia conduzindo o poder político é um sistema perverso e falacioso. A desmoralização se alastra a partir da credibilidade nula desse sistema político, articulado por favores entre os próprios. O risco do país está refletido por um sistema que tem que ser transformado profundamente. Não é possível acreditar na continuidade desse congresso que só pensa em si, no seu entorno, na sua conta bancária, nos privilégios, nas sua rede de influências, como se o país fosse um condomínio, um clube de oligarcas.

Um tipo que fala SIM (ao impeachment) por palavras vazias, que só pensa em solução particulares e na acomodação de seu espólio privado. Triste ver como cada voto NÃO foi emoldurado por uma cena de macaquices, com uma claque mais típica de moleques (gesticulando, interferindo na fala dos demais, com a expressão de uma torcida de imbecis).

Foi de um cinismo absurdo ter visto o golpe ter sido encenado hoje por Cunha, o corrupto mais visivelmente corrupto do país, que inicia a sessão dizendo “em nome de Deus”, com escárnio e cinismo. Aquele que ignora a inteligência alheia e a voz das ruas e das urnas. Entregar o país nas mãos dessa corja é traumático em todos os aspectos imaginados, moral, cultural, social, ético. Esse é o risco, a falta de perspectiva. Sem orgulho. Desligo. Essas panelas são de uma ignorância atordoadora.

 

Maio de 2016

Canalhas

MACHADO – Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel [Temer].

JUCÁ – Só o Renan [Calheiros] que está contra essa porra. ‘Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha’. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.

MACHADO – É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.

JUCÁ – Com o Supremo, com tudo.

MACHADO – Com tudo, aí parava tudo.
JUCÁ – É. Delimitava onde está, pronto.
JUCÁ – [Em voz baixa] Conversei ontem com alguns ministros do Supremo. Os caras dizem ‘ó, só tem condições de [inaudível] sem ela [Dilma]. Enquanto ela estiver ali, a imprensa, os caras querem tirar ela, essa porra não vai parar nunca’. Entendeu? Então… Estou conversando com os generais, comandantes militares. Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir. Estão monitorando o MST, não sei o quê, para não perturbar.
MACHADO – Um caminho é buscar alguém que tem ligação com o Teori [Zavascki, relator da Lava Jato], mas parece que não tem ninguém.

 

Junho de 2016

Fica estabelecido que:

… o novo regime exercerá o poder pela farsa [e pela estratégia de aliciamento religioso, quando convier]

 

… toda vez que a esquerda política estiver em condições de conquistar o poder pelo voto, seus candidatos serão perseguidos, apedrejados com mentiras até que sejam inabilitados [e a história será recontada até que coronéis rancorosos sejam vistos como heróis, sempre, até quando…]

 

Setembro de 2016

Antes, o propósito da mentira política era criar uma falsa visão do mundo. agora é reforçar preconceitos e sentimentos, não apresentar fatos

 

Dezembro de 2016

Não vejo a hora da arrogância sair ‘de moda’.

_a provocar: Temer, Renan Calheiros, Feliciano, Bolsonaro, Doria, Trump… seriam de certa forma o encanto de uma certa classe social pela empáfia e arrogância de uma outra classe logo acima?

_a síndrome: “se é arrogante quem tem poder, então quero ser arrogante pra dar a entender que tenho poder”. ou… “aspiro ser, para subir de classe, em tudo que essa classe tem ou aparenta ter”. E isso é cada vez mais evidente nos comentários reaças e absurdos pelos blogs, facebooks e youtubes.

 

Janeiro de 2017

Pelo centro de São Paulo (#SP463), filas enormes, muito além da capacidade do Teatro Municipal, da praça das Artes, dos equipamentos culturais da prefeitura. Celebração mesmo, vi pouca.

Tá valendo a cultura da fila, a lógica da falsa inclusão, de que o que tem qualidade é pra poucos. A lógica de que o privado é melhor que o público, de que o fechado é melhor que o aberto, de que o exclusivo é que é bom.

Por trás disso tem a lógica de apagar o que se fez pra se afirmar que se faz algo de valor. De revogar avanços pra se falsear o presente, de acinzentar a vida pra se dourar uma carreira política. Uma política feita de pirraças, uma infantilização que não deveria caber numa cidade de 463 anos. E milhões de pessoas acreditam que isso é bom.

Mas a rua, o espaço público compartilhado já é, e isso não pode ser revogado

 

Março de 2017

Inacreditável certa crença no neoliberalismo, a desconsiderar a perversidade do capital rentista, a falácia do sistema econômico baseado em exploração dos mais pobres, nas crises fabricadas aqui, no oriente médio, nos embargos políticos e econômicos a todo ensejo de independência (não só na AL mas em qualquer parte do mundo) do império global. Achar que vai mesmo tudo bem com o modelo estadunidense e repetir o bordão sobre cuba e venezuela é um abismo de comunicação. Seguindo as cartilhas atuais daqui a pouco estaremos “pior que cuba, pior que venezuela” [!? – não entendo essas comparações] e o modelo que estamos seguindo não é o do socialismo.

 

 

Abril de 2017

Vai vendo: “A proposta inclui um novo modelo de demissão, em que empresa e empregado podem rescindir o contrato em comum acordo (sei…), com pagamento de metade da multa e do aviso prévio sem direito a seguro-desemprego”. Tá entendido?

 

Abril de 2017

Me impressiona esse bando de políticos inconsequentes e̶s̶t̶a̶r̶e̶m̶ [se fazer de] “preocupados” com o sustentabilidade da previdência. M̶u̶i̶t̶o̶ ̶m̶e̶n̶o̶s̶ ̶c̶o̶m̶ ̶o̶ ̶f̶u̶t̶u̶r̶o̶ ̶d̶o̶ ̶p̶a̶í̶s̶.̶ Será mesmo?

 

“Que se vayan todos!”. Esse é o impulso mais imediato diante da constatação pública/midiática da corrupção medular da classe política (práticas muito antigas que surpreendem apenas os muito ingênuos ou os cínicos). O problema é os que ficam. Pois sempre fica alguém pra dizer como a c̶a̶s̶a̶ (coisa) funciona.

 

Cinismo geral. Inacreditável: judiciário, banqueiros e barões da mídia saem ilesos e fortalecidos.

 

Que tempos são estes em que temos que defender o óbvio? (B. Brecht)

 

‘Mensário da crise nas redes’ é uma compilação de publicações esparsas do artista visual Lucas Bambozzi no twitter e no facebook.

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