Projeto Experimental Fator São Jorge

(ou 7 Porções Iniciais sobre a Performance Arte)

1- Benjamin em Teresina

A arte da performance em Teresina – Piauí, se de fato “existe”,  não foi ainda historiada. Historiada no sentido de se tecer um panorama de fatos passados, juntando-os numa cadeia, não necessariamente linear, porém interligada por certos princípios/imagens.

Vizinho a esse fato, desenvolvi uma pesquisa de mestrado em Estética e História da Arte, na USP – Universidade de São Paulo, Brasil, sobre passagens que considero, também, como história legítima da performance em Teresina. E em vez de investigar exemplos de performances que ocorreram, escolhi por uma abordagem sobre as mudanças históricas na percepção corporal da vida cotidiana dessa cidade do meio norte do Brasil e (só) então estabeleço uma relação temporal desse passado, com uma performance que durou 12 horas ininterruptas,  e aconteceu em agosto de 2009,   numa biblioteca pública.[2]

 

Na época, postei em algum lugar da blogsfera:

 

 

 

“Numa performance de 12 horas contínuas, na qual não se oferece uma introdução determinada, muito menos uma ordem entre as “partes”, o tempo, então, vai se tornando mais e mais subjetivo. /As posturas vão se desfazendo em suas amarras, e o corpo vai pesando sobre seu próprio ritmo. E, dessa outra instância corporalbiológica, põe em ativação um diálogo específico entre os presentes./ Assim, em meio ao aparente caos de significados , pouco a pouco, vai se plasmando um sistema ordenado. / Entre outras questões que podem ser trazidas à reflexão : Esse “sistema” de performance [imersiva] de longa duração edifica uma temporalidade própria, com característica sensíveis detectáveis ? /Caso sim: Que condições intransponíveis são necessárias para essa experiência suceder? /E no que essa experiência estética pode acrescentar ao sentir contemporâneo ?”

 

 

E foi justamente aí que notei que o espaço corpo-biblioteca era um tanto redutor, mesmo para entender o que se passava na própria ação dentro daquelas quatro paredes. Pois eu resistia a construir um pensamento que “só” descreveria a ação, mas queria extrair daquela ação, – na qual fui, também, agente ativo – o atravessamento histórico-corporal além daqueles muros. Para que a ação falasse da e com a cidade. Indagasse, instigasse em algum ponto, não óbvio, da cultural local. Que explicitasse, talvez, um certo sotaque corporal, mas isso tudo sem cair em discursos regionalistas fáceis e estereotipados. Tava aí o meu dilema.

 

Então, para conseguir responder àquelas duas proposições que me lancei no post do blog (mas que podem também servir para outras performances de longa duração), fui levado a outros questionamentos centrados na complexidade da relação corpo – ambiente/cidade, e assim o objeto de minha investigação se redimensionou, passando à relação entre os “mistérios” do corpo no dia a dia e aquela performance.

 

Assim, perguntei para vida cotidiana nossa de cada dia, como essa compactua com a ação performance e é, ao mesmo tempo, “reprogramada” por esse corpo na mesma ação artística (seja de longa duração ou nem tanto), a partir de comportamentos banais numa biblioteca, para construir algo que , certamente, ele trouxera de fora dali.

 

Busco então arquitetar um programa teórico experimental para alguns ”tipos” de performance que têm entre si certas propriedades similares: versam sobre o comportamento cotidiano, os gestos banais, como sentar de frente ao outro, dormir em público, etc. Seja enfatizando-os pela repetição, ou pelo prolongamento temporal, ou por alguma outra propriedade alterada, ou idiossincrática,  em sua estrutura.

 

É importante explicar que não pretendo experimentar um programa teórico que abarque todo o campo da performance. Apenas me vigio epistemologicamente para abordar esse campo diverso e multifacetado como ele é: um balaio fragmentado de questões contemporâneas múltiplas, resolvidas no corpo.  E assim, a cada dissecação conceitual a um desses fragmentos, um riquíssimo mosaico de práticas e conceitos vem à tona, e que passa despercebido quando tentamos abraçar a performance como se fosse um único e homogêneo objeto.

Então, depois que me vi meio-fora da biblioteca, ou entre a biblioteca e a vida cotidiana, busquei certos “tipos” de performances que me instigam, e a elas perguntei que discursos geram que podem falar da vida (nossa) contemporânea. Logo, para vários outros “tipos” de performance essa experimentação teórica aqui pode não  ter o menor valor.

E em relação a esses “tipos” de performance que me aproximo como aquela da biblioteca, uma das mais representativas artistas nesse tipo de sensibilidade poética, que poderia ser descrito como um espelho outro da síndrome de toque , é a sérvia Marina Abramovic. Para ajudar a ilustrar o que me interessa refletir, chamo o que, certa vez, essa criadora colocou:

 

 

 

 

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