Meus Medos e Lutas

por Euler Sandeville

meus medos e lutas me consomem em amores fugidios inalcançáveis e em indagações torrentes em profusas navegações uníssono na queda imensa da cachoeira do rio do mar nos noturnos nas contravoltas das ondas esquartejo meus pensamentos como grãos de quartzo que revelam a plenitude de minhas esperanças como brilhos que se devolvem ao sol como um abraço no ar transeunte nas crenças e os valores que busco na imperfeição em que resido a cada dia a cada fragmento perco no mundo uma parte de mim por vezes como afeto outras tantas como grito escancarado ou como lágrimas que em silêncio escorrem convulsionando a face que se oculta na garganta

Makedonska – Stameno, mome mori crna čerešo (Bapčorki)

Dirijo. As lágrimas escorrem pela face. Dores de ontem sem lembrança. Dores de hoje covardia de ver o amor. Descrença. Medo fuga em tropel de pensamentos e ritmos em lugares errados ao quais o romance se nega por desconfiança. Pânico. E gostar, o que seria senão ilusão sobre o que somos e sobre o possível que nos faz brilhar os olhos? Ouviria a mesma música a noite inteira se não me sentisse incapaz de conversar com você se não sentisse consumir-me a remota ideia de encantamento entre pessoas já tão doídas e com razão me afasto aos lugares escuros do salão nos locais iluminados sou escuro como um fantasma na névoa que evapora das nuvens. Dirijo, dores de adolescência, dores de escola, dores de infância choro copiosamente pela rua em solidão já quase a escolho como um fantasma de mim mesmo precoce e tardio a um tempo imenso que se reelabora no instantâneo. Um pouco mais lento edifico castelos de cristais com as mãos acariciando um mundo que não existe mais. Frágeis os cristais dissolvem-se no álcool como prismas de luz embriagando meus medos sem medida na ciência que se dissipa no erro. Dissolvem-se como cristais de sal na chuva e somem ao sol esperado como canção que revela da alma o âmago portal por onde atravessa capilar a dor oceânica a crença celestial o destino escreve-se na pedra com dificuldade e habilidade, com rendição que não se entrega e devora, os cristais escorrem pelo chão desperdiçando-se na drenagem nos bueiros imensos que abrimos no real.

Yann Tiersen – 08 Amelie

Fecho as portas para ocultar aos vizinhos todos os sons da agonia e da falência da esperança. Todos os gritos que me consomem e ardem e flor e berro boca escancarada como pedido de socorro e recusa. Tua imagem me persegue teus sonhos percebo sem que os diga e tua rejeição é o selo de meu amor. Todas as dores juvenis desenham uma maturidade esquecida de si que não tem o álibi do esquecimento. Todas as verdades ardem envergonhadas da sua intensidade e de seu descontrole ao serem tão essenciais. Entregar-me-ia ao que em teus olhos contemplei sem nada saber sobre o que pensa o que fala sei o que sente e sei a punição que me cabe por ainda amar depois de tantas dores causar de tantas dores sofrer de tanta ilusão consumir-me o ventre como labareda na noite fria. Ao som da salsa o que ouço é outra melodia que esgarça-se do piano dos apaixonados dos errantes e dos perdidos; clamo como um ente temeroso na umidade das florestas escondido entre brotos e cascas que ao chão em breve pertencerão à decomposição decompondo-me em poéticas canções servidão e um breve saborear da liberdade. Rasgo as verdades sem pudor sem medo senão o medo maior de vivê-las de entregar-me de apresentar-me como adolescente oculto meus sentimentos dizendo-os pelo avesso. Como homem feneço dizendo-os pelo avesso pelas entranhas o essencial flui como movimento oculto no olhar pelo medo das palavras jogadas à toa na balada e deixo mais uma vez passar a esperança porque bem sei duas pessoas jamais se encontram senão no desejo revelado da carne da alma no medo cruel e sedutor de entregarem-se e descobrirem-se nuas, completamente nuas uma ante a outra. Como parto rasga às portas o terror do desconhecido costura estórias na parede que não se confessam. Dirijo, às lágrimas entrego as verdades os revividos momentos das maiores dores e me perco não na estrada mas nas paredes de casa como um ermitão que não precisa ser mas não sabe que a montanha em que se perde em busca da liberdade jamais se move senão na eternidade que lhe escapa: entre as rochas o mundo se esvai por pequenas frestas como torrente que inunda os vales e derrota as catedrais suntuosas revelando-se pleno na lenta infiltração na areia grossa da várzea. Mas os homens homenageiam suas ruínas abrigando-se em eletrodomésticos e artefatos com design e vídeo.

Zanovet – Or neveste

Choro enquanto dirijo o cansaço e quase desisto. Desisto? A terra imensa roda ao contrário dos sentimentos humanos deslocada por ambições sem medida inconfessáveis. A injustiça desenha a cidade e é seu arquiteto insensível do qual somos clientes e patronos. Choro as realidades as maldades sem fim que minha geração constrói culpando o capital o outro o próprio olho em si que não enxerga senão um mundo de umbigos que são como vazantes de todo afeto e toda a verdade desculpando as ações que de fato tecem o mundo. Ricos e pobres partilham a mesquinharia opressiva do outro pelas oportunidades e dizem: não fui eu. Não fui eu; não fui eu quem fez sou inocente deste mundo e acumulam justiças ímpias o quanto podem como se as palavras pudessem ocultar os sentidos praticados. As palavras sem sentido escorrem com facilidade injustificável pelo meio fio das verdades perdendo-se nos escrotos em bocas-de-lobo que sorvem a alma em troca de quimeras que se desfazem como algodão-doce que jamais pede o real senão o fascínio do próprio sabor. Do real se toma travestido de conveniência como em um prostíbulo de ofertas e vanidade; solidão desesperançada que mal lembra o que um dia foi. Quase já não vejo solução, entranhada a indiferença em uma cidade de alvenaria de desculpas e cimento de avareza. Choro, caminho e choro. Queria mandá-los à merda mas isso só me faria cativo do que são sendo a perdição da minha resistência em palavras fáceis e aceitáveis esperadas. Resisto como uma árvore diante da onda gigantesca e de mim não restará nada senão as marcas das raízes desaparecendo no solo do qual desapareço em breve na lama que seca no passar dos dias. Esse bando covarde de falas elegantes e aceitáveis… enjoam-me e nem isso posso dizer-lhes pois são todos reis e deuses, em sua insignificância poderosa e inútil.

Етномузиколошки одсек Музичке школе ‘Мокрањац’, Београд – Сунце јарко трепери да зађе (Западна Србија)

Caio de joelhos em busca do céu. Sem palavras indago e indago e indago com o coração devassando-me na extensão imensa da paisagem noturna. Entoo cânticos como esculturas recuperadas à argila em bruto na beira-rio sem palavras ou sentidos que não o clamor sem resposta que não seja a evidência do que nos cerca. Caminho por cordas sobre promontórios do destino e do desafeto e proponho não render-me. Senão à morte do corpo que como quem ama o silêncio em ruídos sem fim considero como um destino limítrofe entre o cansaço e a esperança, que não deve ser antecipado. Mas há alguma razão para que deva ser prorrogado? Meus atos ora me condenam ora me libertam mas minha alma espera fluir como um sopro quente e livre por uma brecha ainda invisível nessa teia de vapor gorduroso enjoativo. O vento que desconhece a lei da atmosfera sabe seu caminho e sabe que seu é instável. É meu guia no oceano e ilhas que se afastam e se aproximam na forma de arquipélago que abandono, baias, horizontes assombrados pela curiosidade. O corpo dança no frio da noite em solidão inconsolável em verdade solitária e solidária em verdade de ser no mundo uma rota de fuga que ao invés de sair encara e luta como resistência muda rejeito os governos e os líderes e as ambições camufladas em discursos e vão à merda ou acordem porque serei em breve invisível mas a massa carcomida em valores sem valor será a alma que resta no comum normativista cujo gosto não quero sentir nem por um momento.

Баклава – Облаче

O sol insinua-se lá fora ignorando minhas súplicas por repouso entre os escuros cintilantes e as nuvens rasgando claros em meus olhos que se fecham em busca sem fim de horizontes e lugares poéticos próximos do infinito ou do tato. Breve é tudo o que sei e sei cada vez menos. A luta da vida e da morte se renova por toda a parte e sinto que encontro meu destino no caminhar sem outra razão que o vento na face a solidariedade no coração a lágrima secando nos olhos da alma como pulsão apaixonada que umedece e incandesce o percurso embrulhando o impossível com esperança e desespero.

 

Euler Sandeville Junior, São Paulo

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.