Grupo Focal Nós e Microcrises

por Daniel Lima

Foram reunidos doze participantes. Personagens criados em diferentes perspectivas. Foram lançados temas-chaves para cada rodada de debate. As conversas foram gravadas em áudio, depois transcritas e editadas.

ATO I – INTERVIR

PiXador: Nós ocupamos a cidade muito antes de qualquer conversa sobre intervenção urbana. Grupos como os Vadios, na Zona Oeste, já estavam no terceiro irmão. Passando de irmão para irmão, a assinatura. Mas nunca teorizamos sobre nada disto. Fazemos, no anonimato, uma guerrilha de ocupação da cidade. Existe, hoje, uma lei que diferencia o grafite como arte e a pichação como contravenção. Mas, sabe, acho que só vale mesmo a contravenção.


Homem-Empresa: 
Mas é uma contravenção para escrever o que? Parece que são rabiscos, mas sabemos que, no fundo, tem alguma coisa ali. Um código. Fica o ponto de interrogação sobre o que está escrito.
Artista-Interventor: 
Pois era nos muros da cidade que víamos uma clareira. Nas ruas abandonadas, no cinza do céu, na indiferença. Víamos ali um espaço potente de trabalho. Tinha alguma coisa vibrando no vazio. Sabíamos que nossas mobilizações podiam reverberar mais na rua do que em contextos institucionais de arte. Era clara a domesticação dos jovens artistas: em galerias, museus, copiando revistas de arte, aprendendo a ser contemporâneo… Tudo feito para uma elite blasé de vernissagem.
David Hammonds: 
O público da arte é o pior do mundo. É excessivamente educado, é conservador, se preocupa em criticar ao invés de compreender, e nunca se diverte… Assim que me nego a tratar com este público, prefiro jogar com o público das ruas. Este outro público é muito mais humano e suas opiniões são sinceras. Não tem necessidade de jogar, não tem nada a ganhar ou perder.
Homem-Empresa: 
Lembro que, no final dos anos 90, começou a ser sedutor um jovem com o coquetel molotov… A onda dos ativismos foi se tornando uma referência na nossa empresa. Todo mundo tinha que ser um pouco engajado. Lembro de colar adesivos de alguma causa nas divisórias do escritório, no carro, no banheiro… Tinha essa coisa da ecologia que foi se tornando cada vez mais forte. Fui um dos primeiros a expor a idéia de marketing de guerrilha para a diretoria. Todos acharam estranho, mas, com o tempo, isso foi se consolidando.
Artista-Interventor: 
Pegam o nosso molotov para vender refrigerante. E nem pagam por isso! É uma ameaça ao que fazemos. É uma cópia e uma anulação.
Homem-Empresa: 
Mas vocês bem sabem copiar as ações de marketing. Vejo no circuito cultural verdadeiras cópias de campanhas publicitárias, só que feitas sem dinheiro… (risos).
PiXador: 
Publicitários e artistas, vocês se merecem.
Artista-Interventor: 
Também tinham campanhas publicitárias que traziam os próprios grafiteiros agindo, criando, se mobilizando. De calça jeans a empreendimento imobiliário.
Política-do-Impossível: 
Esta apropriação das forças da rua passa até pelas pegadinhas de programas de TV. Pegadinhas que usam a idéia de intervenção urbana e da performance para ridicularizar quem se coloca num espaço de dúvida, de estranhamento. A humilhação de quem, por um momento, duvidou desta realidade. Uma punição.
Artista-Interventor: 
Também apareceram os documentários ativistas. Documentários de rua, conflitos de manifestantes versus polícia… Documentaristas que eram os câmeras no meio do conflito. Na cola, anos depois, programas de TV e documentários traziam este personagem do repórter engajado… Eram processos de espalhamento desta imagem das ruas como campos de batalha, de atuação e, por outro lado, a capitalização disto tudo.
Política-do-Impossível: 
Como entendemos a nossa diferença? O que fazemos? Como fazemos? A partir desta reflexão podemos decidir até onde cedemos, até onde nos aliamos, até onde resistimos.Não tem mais sentido tomar intervenções-relâmpago como ponto inicial e final da nossa prática. A pesquisa deve tornar-se peça fundamental. Tornar a intervenção pesquisa e a pesquisa intervenção. É um diferenciação do que hoje se espalha como prática de intervenção. Para nomear isso inventamos o termo Investigação-Ação.
Homem-Empresa:
 Boa idéia…

ATO II – PROJETAR

Artista-Interventor: Somos uma geração de artistas pautados pela dinâmica de projetos.
Política-do-Impossível:
 O que você quer dizer com dinâmica de projetos? 
Artista-Interventor: 
É bem simples: a noção de projetar um produto cultural. Planejar, realizar, registrar e… partir para outro.
Política-do-Impossível: 
Como produzir dentro desta dinâmica de projetos? E quais as conseqüências deste tipo de funcionamento?
Artista-Empresa: 
Somos multimídia, multitarefas e multiuso. Somos atletas de alta performance. Caçamos as oportunidades. Somos competidores, vencedores. Assumimos os riscos de cada passo. Por isso, planejamos. Temos claros os objetivos. E, principalmente, somos eficientes. Fomos formados para isto. Somos múltiplos. Num momento nos é solicitado texto, no outro construção de imagem, no outro imagem em movimento, no outro gerenciamento, no outro habilidade operacional, no outro estratégia…
Política-do-Impossível: 
O pior é ser múltiplo-simultâneo. Tudo ao mesmo tempo agora!
Artista-Interventor:
 Uma cadeia sem fim de demandas para conseguir sobreviver. Uma cadeia que nos coloca o fantasma da incapacidade, incompetência e fracasso.
Artista-Empresa: 
Looser… (risos)
Política-do-Impossível: 
A organização coletiva vem como alternativa a este mundo extremamente competitivo e individualizado. Abre espaços para outros modos de vida, outras relações de afeto e de trabalho.
Artista-Empresa: 
Mas, também, o coletivo significa a exacerbação das características flexíveis deste sujeito contemporâneo. Significa elevar a potência de lidar com as diversas demandas do circuito cultural. Afinal, quem individualmente pode, como a Frente 3 de Fevereiro, produzir música, texto, vídeo, foto, intervenção, espetáculo cênico, pesquisa e livros?
Frente-3-de-Fevereiro: 
Mas os coletivos são uma estratégia de resistência. No sistema cultural, a prática coletiva possibilita uma trajetória transversal. Nos movimentamos por diferentes editais governamentais, centros culturais públicos e privados, museus, publicações, ciclos de debates, etc. Mas, mais importante, nos movimentamos de maneira a reunir certas vozes dissonantes…
Brian Holmes:
 Incorporam uma verdadeira reserva crítica de posições marginais e contra-culturais…
Frente-3-de-Fevereiro: 
Para isso, estabelecemos alianças, trocas e atritos. Constituímos uma trama subterrânea de passagens entre movimentos sociais, pesquisas acadêmicas, artistas, coletivos, ocupações, redes…
Artista-Empresa: 
Coletivos também tornaram-se empresas. Não faço um julgamento de valor moral, mas tento pensar como se encontram estes coletivos-empresas? Afinal, jogar o jogo do capitalismo teve efetividade? Uma coisa é certa, os coletivos começam perdendo nesta batalha, pois não tem como jogar com as mesmas estratégias de acúmulo e exploração.
Política-do-Impossível: 
Esta movimentação, tanto institucional como não-institucional, traz um imenso risco de perder-se. Alienar-se de si mesmo. Um grupo que, como o nosso, lidou com pesquisas focando educação radical, territórios sociais, identidade quilombola… pode facilmente não reconhecer o que está produzindo. Ou seja, diante de tão diversa produção, pode esquecer ou apagar, pela própria velocidade dos acontecimentos, as forças que ligam uma produção à outra.
Frente-3-de-Fevereiro: 
A Frente 3 de Fevereiro teve, desde sua origem, um tema central de pesquisa, a questão racial. Depois de sete anos, percebemos uma imensa transformação na maneira de ver as mesmas questões. Mas seguimos com este núcleo duro. Isto abriu um caminho para movimentações entre diferentes linguagens artísticas. Se no tema identitário existem bloqueios, prisões e becos sem saída, propomos formas de questionamento abertas para movimentações transversais. Sustentamos, através de caminhos poéticos, o ponto de interrogação sobre este tema.
Política-do-Impossível: 
Nosso desafio é seguir o nosso desassossego.

ATO III – LUTAR

Política-do-Impossível: Certamente, não há uma resposta à pergunta “Por que lutamos?”. A motivação política gira em torno de muitas causas. Muitas lutas se equacionam na aposta da transformação do mundo em que vivemos. Uma transformação das estruturas sociais, econômicas, culturais, que nos aprisionam e nos separam da nossa potência de existir. É uma luta constante contra as formas de auto-vigilância, contra a Secretaria do Estado de Confinamento.
Artista-Interventor: 
Mas também esta é uma luta por outras formas de lutar. Criamos formas de lutar poeticamente. Arte política só existe a partir do momento em que o trabalho tem a capacidade de transformar a realidade.
Política-do-Impossível: 
Mas os trabalhos que agem no sentido de conservar as coisas como estão também são uma forma de política. Uma política conservadora.
Frente-3-de-Fevereiro: 
Toda arte é política. Toda arte tem um posicionamento em relação ao seu contexto, seja de continuidade, seja de  ruptura. Nesse sentido, o termo arte-política não nos serve muito. É como se houvesse os que trabalham com política e os que não trabalham com política. E isso não existe.
Política-do-Impossível: 
Alguns modelos que envolvem arte-política têm como base um programa político. E a defesa do projeto político acaba por massacrar a potência poética. Ao programa político não interessa a ambigüidade, os duplos, os espaços de interpretação. Pelo contrário, tudo está em função de reiterar posições.
Frente-3-de-Fevereiro: 
Nosso desafio é manter um posicionamento macropolítico e, ao mesmo tempo, não ficar preso ao momento histórico. Essa atemporalidade surge quando instituímos um questionamento que, no final, é mais do que uma pergunta, é uma abertura de interpretações sobre um fato, uma ideia, uma ação…
Frente-3-de-Fevereiro:
 Neste sentido, a intervenção é sempre uma política de transformação, porque rompe com o que está dado. Por exemplo, a ação no estádio de futebol. É um ambiente que carrega muitas certezas, onde eu sou azul, sou verde, defendo o verde com todas as forças. Nesse ambiente, nossas ações funcionam como um processo de ruptura. “Onde estão os negros?” é uma interrogação imersa no delírio da afirmação. É como se estivéssemos fugindo de um território demarcado. É um êxodo.
Política-do-Impossível: 
Uma luta para escapar de um território padronizado.
Artista-Empresa: 
Isto está parecendo um discurso romântico do artista marginal. Nós produzimos  num sistema cultural! Somos as formiguinhas deste sistema.
Frente-3-de-Fevereiro: 
Mas somos formigas contrabandistas. Trazemos “materiais simbólicos” de um campo ao outro. É a reserva crítica de que fala Brian Holmes. Este capital cultural vale muito, porque as instituições não tem como produzi-lo dentro de seus próprios limites. Por isso chamam os contrabandistas, os artistas engajados.
Artista-Interventor: 
Engajados a que?
Frente-3-de-Fevereiro: 
Engajados a outros sistemas de produção de conhecimento.
Política-do-Impossível:
  Engajados a outros sistemas de produção de sentido.
Frente-3-de-Fevereiro: 
Uma produção de conhecimento ativa e viva. Às instituições culturais, coloca-se o desafio de manter esta força vibrando dentro da redoma. Aos artistas, o desafio de compreender que o que a nossa produção agita está fora destes campos institucionais.
Artista-Militante: 
Toda esta trama é condenável, pois impõe jogos de poder e necessariamente a cooptação ao sistema. Toda forma de colaboração com o circuito cultural está fadada à dissolução das forças de transformação. Não há negociação. A única alternativa é a prática independente e marginal. Vocês todos são empresas dentro do jogo.
Política-do-Impossível:
 Realmente este é um risco: como se embrenhar nas tramas institucionais sem perder a potência de movimentar os diagramas sociais? Como não murchar dentro do espaço viciado da instituição?
Frente-3-de-Fevereiro:
 Negociamos. A negociação pressupõe que temos, sim, certos interesses comuns. Quais são e como podem servir à estruturação dos processos de resistência, de re-existência?
Artista-Interventor:
 Muitos trabalhos de intervenção exploram estes limites, exploram a trajetória da negociação à luta. Transformam o conflito institucional em conteúdo. Fazem a instituição colocar suas cartas na mesa, revelar seus posicionamentos.
Frente-3-de-Fevereiro: 
Fazemos também o público colocar suas cartas.
Política-do-Impossível: 
E nós também colocamos as nossas. Mostramos a que viemos.
Artista-Empresa: Quem ganha?
Brian Holmes: 
Whoever can provoke some effective resistance to the downward spiral of human coexistence at the outset of the twenty-first century.
Frente-3-de-Fevereiro: Não, não tem vencedor ou perdedor. Não tem um “acabou, a gente conseguiu”. O que temos são determinadas partidas que se realizam. Mas sabemos que nosso trabalho nunca vai ter um “the end”. Não tem final feliz.
Artista-Interventor: 
Nós não sabemos da efetividade das nossas ações, nem devemos querer saber. Não temos como avaliar ações poéticas em termos de sua eficiência política. Esse é um trabalho para uma ONG, são eles que tentarão determinar em números o que é a sua efetividade. A nossa efetividade é saber que existimos nesse momento. A nossa efetividade é inscrever o que estamos propondo.

ATO IV – VIVER

Artista-Empresa: Rumos Cinema e Vídeo, Prêmio Funarte Artes Cênicas na Rua, Prêmio Interações Estéticas, Artist Links, Conexão Artes Visuais, Co-Patrocínio para Primeiras Obras, Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais, Programa de Fomento à produção e Teledifusão do Documentário Brasileiro, Edital da Programação Cultural do Banco do Brasil, Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo… Estes são alguns dos editais públicos para os quais fui selecionado nos últimos anos.
Poder Público:
 Na última década, promovemos o crescimento acelerado de editais públicos para a área cultural. Para esta geração de artistas e coletivos norteados por uma dinâmica de projetos, esta política cultural serviu como uma luva. Foi a maior conquista da área cultural na história do país. Hoje temos este mecanismo de distribuição igualitária dos recursos por todas as regiões. 
Fabiane Borges: 
Vocês são todos uns mendigos…
Artista-Empresa: 
E você, como ganha a vida?
Fabiane Borges:
 “Vidente” é quem vê. Vê mais do que está sendo visto, vê o óbvio velado da realidade. Não deixa de ser marginal, geralmente carrega alguns atributos da mendicância, como o não engajamento total no mundo dos homens; mas trata-se de outro tipo de pobreza, não a do mendigo escravo, submisso a seus hospedeiros.
Artista-Interventor: 
É sempre uma negociação. Não existe esta figura do mendigo inofensivo. Veja que à sua volta, os mendigos são criaturas assustadoras. Conseguem agir na sua sujeira, no abandono, na violência a que são submetidos. Veja que o mendigo lida com o toque. Estender a mão é mais do que pedir, é quase tocar. Na nossa sociedade, ser tocado por um mendigo é ser agredido… Mas não acho que esta figura ajuda a pensar sobre a lógica dos editais.
Política-do-Impossível:
 Mas, de fato, na lógica do editais vivemos uma dependência perigosa em relação ao mecanismos das políticas públicas de cultura. Nos desdobramos para cumprir as exigências para ter acesso aos recursos públicos e burocratizamos nossas próprias vidas.
Fabiane Borges: 
Para que isso não aconteça, é necessário não perder o pensamento intuitivo, a vidência, o terceiro olho, aquele que vê por entre as coisas, que discerne as intenções, as energias envolvidas no jogo do poder, no jogo das redes, os padrões de interesses e as relações de forças e, principalmente, não se deixar cair pela magnitude da representação.
Artista-Empresa: 
Penso que nossa maior dificuldade, atualmente, é o nosso modo de vida. A forma como estruturamos nossos trabalhos, nossos afetos, nosso dia-a-dia. O carro na garagem, a escola privada dos filhos, a universidade paga, as prestações da casa própria, o lazer-consumo, as fugas das viagens de férias, o suporte psicoterapêutico pago, o tratamento espiritual também pago, o plano de saúde privado, etc.
Frente-3-de-Fevereiro: 
Pois é, vem a unidade familiar (pai, mãe e filhos)… Será que à medida em que esta unidade se forma, com este “pacote” classe-média, a cola coletiva se desfaz? Vamos convertendo a luta coletiva em batalha individual?
Artista-Empresa: 
Partimos para uma luta alienada, isolada e selvagem.
Política-do-Impossível: 
Como sustentar este modelo e, ao mesmo tempo, produzir poeticamente outras formas de vida?
Frente-3-de-Fevereiro: 
Este pacote pesa a cada passo e, aos poucos, vai tornando antagônica a opção de resistência. Não adianta mais inaugurar outras formas simbólicas de viver. É preciso ousar ser eficiente na criação de opções de vida.
Política-do-Impossível: 
O Política do Impossível surgiu no ambiente desta inquietação. Vemos, hoje, que quase todas as nossas pesquisas se relacionavam com uma busca por outras formas de vida. Nos últimos trabalhos, fomos investigar-agir sobre a identidade quilombola. Como estes agrupamentos quilombolas se articulam nos campos do Brasil e como atualizam estas resistências nas cidades? Casa de Cultura Tainã, Rede Mocambos, Côco de Umbigada, Quilombos de Alcântara, Comunidade Zumbi dos Palmares… Nesta trajetória, nos aproximamos, também, do desenvolvimento de dispositivos efetivos.
Peetssa: 
Esculturas funcionais… que produzem energia!
Frente-3-de-Fevereiro: 
Temos que reconfigurar este território da vida. Criar o nosso território através de experiências radicais, desenvolvimento de dispositivos práticos, circuitos autônomos e reflexões constantes. Não se trata de defender uma falsa independência, uma sociedade alternativa, mas de buscar instaurar um território nosso no meio da bagunça da metrópole. Abrir um terreiro para uma nova articulação de trabalho, afeto e criação.

ATO V – DESAFIAR-SE

Artista-Interventor: Vejo, à minha volta, que as redes estão se tornando mais fechadas. Formadas em torno de tramas familiares, crenças religiosas, espaço de trabalho… estas redes buscam auto-suficiência. Criam mecanismos de suporte mútuo, de cumplicidade. Não são propriamente coletivos, mas articulações entre grupos, artistas, ativistas, etc. Diante da necessidade de sustentar este “pacote” de que falávamos, estas redes passam a funcionar como circuitos fechados.
Política-do-Impossível:
 Mas a existência destas redes, mesmo em formações mais fechadas, é importante. É a articulação necessária para viver e produzir. É um momento de consolidação do que falamos sobre prática coletiva.
Artista-Interventor:
 Sempre tivemos estas redes, mas sempre tivemos forças que as empurravam para fora de si mesmas. Tínhamos formas de gerar redes maiores. Promover tramas num terreno mais amplo.
Frente-3-de-Fevereiro:
 Isso aconteceu na investigação-ação de certos acontecimentos como os ataques do PCC, conflitos de migração, ocupação dos sem-teto… É como se cada agrupamento estivesse desenvolvendo parte de um grande quebra-cabeças. Com diferentes pontos de vista, ampliando a cartografia.
Artista-Interventor:
 Hoje é diferente. Vemos se consolidar redes que simplesmente não compartilham, mesmo sabendo que, ao seu lado, tem alguém pensando e agindo sobre a mesma coisa. E não acho que é por falta ética, mas porque estas redes sustentam um debate circunscrito que, simplesmente, não quer ouvir o que vem de fora dos seus limites. Limites que são quase dogmas. Mas, no final, acho que nada disto realmente se sustenta. Não se sustenta, porque empobrece a criação.
Artista-Empresa: 
Esta idéia de empobrecimento é complicada. Quem julga a qualidade do trabalho? Como saber da sua riqueza ou pobreza? Do seu valor? Eu posso encontrar justificativas teóricas que defendam qualquer produção artística.
Frente-3-de-Fevereiro:
 Sim, é relativo, mas não em nossa própria produção, pois sabemos quando estamos fazendo algo a mais. Dando um passo na nossa trajetória.
Política-do-Impossível:
 O panorama da nossa produção se compõe mais por pontos, do que por linhas. Algo como uma constelação. Talvez a noção de trajetória autoral esteja, aos poucos, sendo substituída por um terreno compartilhado. Um campo onde estas áreas são preenchidas por contaminações e colaborações entre diferentes grupos e artistas.
Artista-Interventor:
 Pois é desta contaminação que estamos falando. Sem este vírus-criação que passa de uma rede a outra, este campo se desertifica…
Artista-Empresa: 
Para daí nascer algo novo…

Participantes (por ordem de aparição):

PiXador
Jovem urbano. Acredita que um dia todas as cidades serão continentes-metrópoles. Inspirado na entrevista feita em 1999 com MC2, pichador da Zona Oeste de São Paulo.

Homem-Empresa
Uma persona AAA. A arte contemporânea é o seu laboratório de experiências estéticas e funcionais. Copia tudo que lhe serve, mas defende a propriedade intelectual. Guarda tudo em senhas criptografadas.

Artista-Interventor
Estudou Artes Plásticas na faculdade, mas gostava mesmo de histórias em quadrinhos. Acredita que pode mudar o mundo. Tem medo da solidão.

David Hammonds
Artista.

Política-do-Impossível
É a voz do coletivo Política do Impossível que ressoa em mim. É clara, precisa, aberta a uma verdadeira indagação sobre a vida.

Artista-Empresa
É sobrinho do Homem-Empresa. O seu mérito é pensar pragmaticamente o mundo das artes. Peça fundamental na capacidade de articulação de artista e grupos. Vive angustiado sem tempo para criar. Não tem ateliê, tem escritório.

Frente-3-de-Fevereiro
A voz da Frente 3 de Fevereiro que renasce em mim. É a voz da luta mais afiada. Verdadeira, simples e sincera. É força calma e poderosa.

Artista-Militante
Puritano. Acredita que os caminhos estão fechados. Vive uma batalha por redenção. Não quer sair da sua posição de coitado, não quer que ninguém saia. Esqueceu há tempos que fazia poesia e porque fazia.

Brian Holmes
Crítico cultural.

Poder Público
São decretos municipais, estaduais e federais. A voz oficial, a ata, o edital.

Fabiane Borges
Artista, ensaísta e ativista.

Peetssa
Inventor ambientalista.

 

Notas:

As grafias em itálico representam citações literais. Abaixo as referências em ordem de aparição:

  1. David Hammonds. In El Poker Mentiroso: Representación de la Política / Política de la Representaciónde HOLMES, Brian. http://brianholmes.wordpress.com/ Tradução de Daniel Lima.
  2. HOLMES, Brian. Escape the overcode: activist art in the control society. in Extradisciplinary Investigations: toward a new critique of institutions. Van Abbemuseum / WHW, Eindhoven: 2009.
  3. REZENDE, Renato e SCOVINO, Felipe. Coletivos. Editora Circuito, Rio de Janeiro: 2010.
  4. HOLMES, Brian. Escape the overcode: activist art in the control society. in Continental Drift: from geopolitics to geopoetics. Van Abbemuseum / WHW, Eindhoven: 2009.
  5. BORGES, Fabiane e NOVAES, Thiago. Mendigos Piratas Videntes. in Cadernos de Subjetividade. Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade, PUC/SP, São Paulo: 2010.

 

Colaboração de Edição: Élida Lima.

Texto inspirado em conversas com Frente 3 de Fevereiro, Política do Impossível, Cris Ribas, Eduardo Verderame, Lorival Cuquinha, Zeca Caldeira, Rodrigo Nunes, Túlio Tavares, Cibele Lucena, Roger Barnabé, Peetssa, Jennifer Flores Sternad, Maurinete Lima, Ricardo Basbaum, Peter Pal Perbart e Suely Rolnik.

Agradecimentos a Élida Lima, a todos que participaram das conversas, aos colegas do Núcleo de Subjetividade e aos amigos que, de muitas maneiras, colaboram com esta discussão.

 

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