Crise

por Eduardo Verderame

Subo as escadas da galeria. É mais uma das duzentas galerias da cidade mais rica do mundo, onde a cada semana dezenas de artistas estão prontos para oferecer o seu melhor. Na maioria das vezes entro ao acaso, ou mesmo observo de fora. Desta vez fui já avisado: o quadrinhista Robert Crumb mostraria uma série de desenhos originais de uma nova série. Crumb não é um artista de galeria e nem faz questão de mostrar seus originais, geralmente negociados “a portas fechadas” sem que sequer cheguem a ser exibidos. No início dos anos noventa Crumb vendeu seus cadernos de desenho e comprou uma casa na França, onde se refugiou e vive desde então com sua família.

Para este desenhista, viver no seu país natal tornou-se um fardo. Robert Crumb foi uma das figuras centrais do desenvolvimento visual da estética hippie nos anos sessenta, embora não acredito que gostaria de ouvir isso. Teve uma vida conturbada e uma obra vasta que rendeu-lhe críticas ferrenhas e fãs inveterados. Crumb talvez tenha sido o único cartunista de sua geração a equiparar-se a Winsor McCay. Em seu último projeto lançado até então, Crumb desenhou o velho testamento da Bíblia, com uma tradução rigorosa e tratamento gráfico idem.

O que levou esse homem, um dos mais bem sucedidos artistas gráficos americanos, a transformar-se em uma espécie de eremita dentro do seu ofício, a ponto de ter sido levado quase ao ostracismo? Com essa pergunta na cabeça que inicio a visita a mostra de seus desenhos. A mostra é simples: folhas de papel emoldurados na parede. Qualquer quadrinhista reconhecerá as guias azuis, a moldura na página, os retoques, as colagens de texto. O que é incomum é a excelente qualidade gráfica de seu desenho e a naturalidade com que as páginas seguem, alternando entre a ficção e a biografia de Franz Kafka, quadrinizando alguns de seus textos.

O escritor checo Franz Kafka, têm entre os vários contos desenhados por Crumb, um entitulado “Um artista da fome” (cujo título original em alemão é Ein Hungerkünstler), onde discorre sobre a vida de um tipo de artista já praticamente esquecido, o jejuador. O artista jejuador geralmente ficava encerrado em uma jaula sob vigilância e jamais deveria ser permitido a comer. O artista da fome seria assim um marco da resistência física e ao mesmo tempo uma incógnita ou uma fraude. Como saber se era verdadeira a situação apresentada ao público que o visitava?  Quais as garantias oferecidas ao expectador do artista jejuador? Antes mesmo que as perguntas viessem a tona, o público começou a demonstrar seu desinteresse pela atração, que pouco ou nada fazia além de demonstrar sua condição. Assumido o jejum, nada mais pode oferecer um artista de sua natureza, e aí que tal arte iniciou sua inevitável sentença de morte.

O próprio Kafka pode ter visto um artista jejuador em sua Praga natal ou mesmo ouvido falar de tal atração. Na verdade pouco importa: na arte, como na literatura a “Verdade Ocular” dos fatos é muito pouco relevante. Se formos contar os anos em que a busca da representação baseou-se na imitação da realidade na arte Ocidental – que foi onde esta preocupação foi mais evidente, teremos algo em torno de quatrocentos anos interrompidos por diversas concepções e escolas. Talvez a realidade não sirva para a arte tanto quanto a imaginação, a fé ou o simbolismo serviram. Ainda assim, Kafka foi capaz de traçar um retrato fiel da rotina do artista da fome em seus longos quarenta dias de jejum, dos quais foi interrompido a revelia. O escritor mais provavelmente tratava de suas próprias angústias ao descrever o jejuador. Kafka, antes de checo, era de família judia, que, habitando Praga, na época do Império Austro-Húngaro, deveria falar alemão, que eram em última hipótese a língua oficial do poder. Ao pai de Franz não interessava em nada seguir os costumes ou a religião judaicos, assim como tampouco via com bons olhos a inclinação do filho pela literatura. Para o próprio Franz, escrever não era visto nem de longe como uma profissão, nem mesmo como seu legado para a posteridade, como atestam sua carta póstuma onde ordena que seus manuscritos fossem queimados (o que por sorte não ocorreu).

Um escritor judeu não assumido, que nasceu e viveu quase a totalidade de sua curta vida em uma área restrita de uma cidade oprimida, exprimindo-se em um idioma estrangeiro, e esse foi um dos maiores gênios literários do século, tendo inclusive seu nome transformado em adjetivo na linguagem popular. Kafka viveu alguns poucos meses perto de Viena antes de falecer vítima de tuberculose, em 1924. Nesse tempo o próprio mundo em que Kafka vivia já dava sinais de desmoronar. A comunidade judaica de Praga foi fortemente abalada durante a primeira guerra, e muitos tiveram que fugir. O próprio Império Austro-Húngaro havia sido desmembrado. A Europa vivia um período de paz apenas aparente depois da Primeira Grande Guerra. O sentimento revolucionário iniciado na Rússia viria a gerar uma reação nacionalista na maior parte das nações européias naquele momento. As guerras nacionalistas nos Balcans estabeleceram uma nova ordem na região, que terminaram por ser o estopim da grande guerra. E esta não havia sido a primeira vez.

Há pouco mais de um século a guerra já havia varrido o continente de Portugal a Rússia. Goya retratou com crueza os detalhes da guerra de ocupação e da guerra civil que seguiu a coroação do Irmão de Napoleão ao trono espanhol em uma  série de quadros e de gravuras intituladas “Os Desastres da Guerra”. Nelas encontramos o que existe de mais bárbaro no comportamento humano quando levado a uma situação limite: torturas, mutilações, execuções, atos desesperados. Novamente pouca diferença faz se Goya foi testemunha ocular de todos os acontecimentos, mas certamente o foi em algumas situações como sua biografia atesta. Como aconteceu de um artista da corte ser levado a retratar as cruezas da guerra com tamanha decisão ainda permanece um enigma para mim. O mesmo enigma contido em “Guernica” de Picasso, a trágica atualização de Goya para o contexto dos primeiros passos da Segunda Guerra.

Guernica antes de ser a famosa pintura de Picasso, foi uma pacata cidade Basca utilizada como teste das baterias aéreas de Mussolini e Hitler, com o consentimento de Franco em abril de 1937. A destruição de Guernica abriu caminho para Franco tornar-se o mandatário da Espanha, com o consentimento da Igreja e de outros setores conservadores da sociedade. Quando Picasso mostrou sua pintura na Feira internacional de Paris, foi questionado: “Como você pode fazer isso?” e sua resposta – bem a seu gênero foi “Como vocês puderam fazer isso?”. Sua “Guernica” era uma resposta a brutalidade do homem contra ele mesmo, um retrato do puro desespero que atingiu a cidade. De qualquer forma, depois de Guernica ter sido varrida do mapa, a Segunda Guerra era apenas uma questão de tempo.

Se Guernica foi o primeiro, nem de longe foi o último pesadelo que afligiria a Europa naquela mesma década: Dresden, Hiroshima, Auschwitz. Se aumentarmos o tempo e a área geográfica deveremos incluir os exilados nos Gulags, a sangrentas guerras de independência das nações Africanas, as ditaduras Latino-americanas, a guerra do Vietnã, a guerra dos Balkans, a guerra da do Golfo, e do Iraque. Se a arte e os artistas puderam responder a Guerra da Independencia espanhola e a Guernica, confirmando a tese de Adorno segundo a qual a poesia tornou-se impossível depois de Aschwitz, talvez muitas dessas outras catástrofes tenham tido menos respostas artísticas que jornalísticas. De fato o jornalismo talvez tenha sido a linguagem mais popular do século XX junto ao cinema, graças a sua pseudo-imparcialidade. Igualmente outras linguagens artísticas absorveram outras linguagens em seu proveito. O escritor chileno Roberto Bolaño dedica cerca de um quarto de seu gigantesco romance 2666 a descrever a maneira dos laudos necrológicos as centenas de assassinatos ocorridas contra mulheres na fictícia Santa Teresa – uma mal disfarçada Ciudad Juarez. A arte rompeu a barreira com a vida ao apropriar-se de suas apariencias exteriores. Hoje é quase irreconhecível tanto a própria expressão artística quanto a sua verdadeira natureza. Quem poderia supor que os milhões de sementes de girassol na Tate Modern não apenas ão eram sememntes de girassol, como guardavam uma crítica velada a todo um sistema político que terminou por encarcerar WeiWei, seu autor. Talvez apenas pelas páginas de alguma revista ou pelas discussões virtuais seja possível entender a sutileza de tais manobras, que escapam a própria experiência vivenciada.

De um modo ou de outro, se existe uma crise, esta há de ser de relações humanas, mais do que propriamente formal. O ser humano foi ao longo da sua história continuamente atacado por inimigos, sejam eles outros homens ou de outra natureza; e foi capaz de se adaptar as mais terríveis situações muitas vezes escravizando outros seres humanos ou animais. Mas dificilmente este será capaz de conviver em igualdade com o “outro”. Talvez esta seja a crise do ser humano hoje e sempre.

Se a arte esteve alinhada a uma posição de rechaço as injustiças sociais, como alguns pretendem, então o lugar da arte dentro desta discussão não pode ser a daqueles que clamam por seu quinhão negado pelos Ministérios da Cultura da vida, e nem daqueles que se arrogam um lugar previlegiado dentro de uma suposta linha evolutiva da inteligencia. Se este alinhamento – e ele apenas depende da posição ideológica de seu autor- não poderia existir uma arte dos vencedores. Mas o refinamento da sociedade há muito ultrapassou os discursos monolíticos da política partidária e nesse momento, há de se fazer escolhas claras. Crise significa justamente “oportunidade” no grego antigo, então é da crise que se constrói o novo, onde novos paradigmas podem surgir. Crise significa mudança, na melhor das hipóteses. Onde quer que exista um editor se preocupe com a crise editorial, certamente outros estarão lucrando com a venda de e-books. Onde a indústria musical procura novas fórmulas, sempre haverá alguém que saberá tirar proveito.

Desço as escadas, lá fora chove bastante. Um senhor, talvez o próprio proprietário da galeria, que me espera sair da galeria possivelmente para encerrar seu expediente, avisa: “cuidado lá fora”. A única frase que me veio a cabeça nesse momento foi “é preciso cuidado sempre”.

 

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