Corpos D’Água

por Floriana Breyer

“Aos corpos d’água, aos cursos outros. `A todas as várzeas e a foz que lança ao mar. A voz que não cala, e `as ribanceiras, ribeiras, ribeirões em nós. `A todas as fluviárias que poderiam ter sido e não são. Aos córregos, grotões, porões que jazem abaixo, sós. `As jazidas escondidas, lençois frenéticos, vazantes potentes, agentes, nós.”

 Certa vez ouvi um amigo peruano que trabalha com georeferenciamento, demarcação de terras indígenas e mapeamento colaborativo, contando sobre como os indíos mapeiam seu território. Ele contava que a noção territorial indígena está intimamente ligada aos Rios. “Quando íamos desenhar os mapas junto com o indígenas a primeira coisa que eles delineavam eram os rios”[1]. Os rios referenciam e fundamentam a vida indígena, suas fronteiras, a pesca, a locomoção, muitos de seus ritos e sua noção espacial.

Depois eu estava com outro amigo no Vale do Ribeira e tínhamos um mapa hídrico em nossas mãos, com todas as curvas de nível, as nascentes e cursos d’água demarcados, os rios se formando e buscando o deságüe. Pude ver inscritas as veias da terra, os meridianos energéticos do corpo de Gaia, os fluxos e refluxos destes corpos d’água, seus caminhos dentro e fora da terra. Havia um rio de nome curioso “ Córrego Seco” ele nascia, depois sumia e voltava a aparecer.

Nesta época eu morava em Perdizes, no Alto, na Rua Cajaíba. Na minha e em muitas casas vizinhas as paredes eram úmidas, minas d’água escondidas. Corria um boato de que era possível, na madrugada pôr-se na ladeira e em silêncio a esperar o sussurrar do riacho. Diziam que era possível ouvir as águas correndo(…) Eu nunca consegui ouvir nada (…) mas podia sentir seus cursos por debaixo do asfalto, nos declives que meu próprio corpo denunciava.

Em seguida conheci o Peter Webb, permacultor e hoje amigo. O Pete fala que a água é o primeiro elemento a ser observado num terreno. Que é preciso saber de onde vem, para onde vai, que percurso percorre. Preferencialmente  conhecer o histórico das águas naquele terreno e reorganizar seu fluxo: regenerando as nascentes e criando condições de infiltração no solo. Se possível proporciona-lhe fluxos sinuosos para ela brincar e autolimpar-se. Ou ainda um orgasmo, criando-lhe declives onde possa cachueirar-se.

Depois , foram muitas outras histórias, encontros e investigações que me inundaram, me infiltrando cidade adentro e inscrevendo em minha corpografia camadas hídricas profundas. Pude uma vez junto com o grafiteiro Zezão, entrar nas galerias subterrâneas e conhecer os nossos córregos paulistas, oque fizemos deles…

E ainda assim, eu queria saber-lhes os nomes, conhecer-lhes a fonte.

Fui a procura dos mapas da cidade, mas já não há rios sinalizados, apenas ruas, ruas, avenidas, viadutos, algumas poucas praças e mais ruas. Esqueceram de indicar os rios, seus cursos. Já não importa! São esgotos, lixões, avenidas.  Hoje podemos encontrar alguns nomes estampados nos muros que canalizam o Rio Tietê e Pinheiros, se nos dermos a oportunidade de olhar para eles, de tentar identificar para que lado correm, se correm…

Continuei procurando nos mapas e não foi fácil encontra-los. Nos mais antigos do início do século passado, pude encontrar os rios, os córregos, seus cursos e formatos originais. E passei a investigar formas de celebrar estas águas hoje canalizadas e torturadas em avenidas.

Nascia o projeto Corpos D’água que teve sua primeira intervenção no Vale do Anhangabaú em 2010.

A intervenção contou com a imersão de diversos corpos também d’água: George Sander, Gisella Hiche, Milena Durante, Julieta Zarza, Peetssa, Edria Barbieri, Luciana Costa e seu camelo de estratégias e a abravanação de Rick castro.

Sem contar com a ilustre presença sonora do Andarilo e de 500 garrafas de água mineral rotuladas “Vale Anhangabaú, aqui j(há)z um rio”. Nossa estratégia foi chegar no viaduto do chá juntos e começar a distribuir, vender ou trocar as garrafinhas de água. Motes como “últimas remessas do rio Anhangabaú engarrafado” um real, apenas um real”, “negociamos, quem paga mais! Quanto vale o rio que estava aqui?”

Depois deste disparador de situação nos posicionamos para “estender rio abaixo” e redesenhar o curso original do Anhangabaú com um tecido azul de 100 metros de comprimento.  Convidado os transeuntes a ajudar a reviver o Rio, a experiência-lo somando seus corpos ao corpo d’água.

Esta primeira imersão fez parte do filme sobre Rios e Córregos de Camilo Tavares, documentários sobre a questão hídrica na cidade de São Paulo do qual participam Raquel Rolnik com valiosas contribuições, Eduardo Surur e o Teatro da Vertigem entre outros.

Depois foi o Cariri, viajei as terras Cearenses para o I encontro cearense do PIA, Programa de Interferência Ambiental, organizado pelo Coletivo Camaradas. Lá as margens da Chapada do Araripe fui conhecer a nascente de maior vazão do Crato, antigamente responsável pela geração de eletricidade da cidade. Para minha surpresa deparei-me com uma nascente gradeada, canalizada e encanada.

Diversos canos azuis substituem o curso d’água e criam um paisagem quase surrealista. Os canos tem donos e válvulas, que são abertas em regime rotatório e diferentes espessuras que retratam o tamanho da propriedade a ser abastecida.

Neste contexto nasce Maria das águas (…)sedenta… Ela, sobe até a nascente da Batateira, pede a benção as águas, etiqueta as válvulas dos canos indicando usos, reúsos e abusos e logo apita alto chamando o Soldadinho do Araripe[2] com quem recarrega seu cartucho de munições e parte…

Parte para a cidade para modi encanga reforços pro bando de defesa e memória das águas do Araripe. Na cidade ela encontra Raul Lampião, grande inspiração da cangaceira urbana e ambulante local que inventou uma maneira criativa de vender seus serviços. Ele faz propaganda aos comerciantes do Crato equipado com um carrinho de som, microfone e figurino de Lampião, o cangaceiro urbano, é conhecido por Raul Lampião em toda cidade.

Maria das águas, devidamente munida e abençoada pela fonte encontra Raul Lampião nos arcos do Crato e juntos invadem a cidade em marcha pelas águas com música, dança e poesia reunidas no carrinho multimídia do ambulante.

No Cariri, tornou-se evidente a questão da escala, da magnitude e amplitude  que o tema abarca. A pergunta que veio e que permanece é como ao menos tocar a borda da questão hídrica urbana com suas múltiplas camadas e intervir neste fluxo reverso que transforma córregos em esgotos e rios em avenidas? Fluxo cada vez mais distante do fluxo da vida. Quando o Sertão virar mar e o mar virar Sertão para onde irá a poluição?

Cada vez mais torna-se evidente a necessidade de promover processos sistêmicos, processos criativos coletivos aliados a processos de sensibilização, educação e politização. Processos que despertem o olhar sensível sobre a realidade mas que também forneçam chaves de acesso para outras instâncias de reflexão e ação em nossas vidas cotidianas e hábitos de consumo e comportamento.

Passei a desenhar processos coletivos de sensibilização para a questão hídrica nas cidades e tentar mapear pontos centrais a partir da experiência direta, a fim de criar intervenções conectadas com estes pontos chave que possam ser replicados em diferentes contextos. Fiz uma primeira experiência deste processo de mapeamento e criação coletiva em Santiago do Chile dentro da programação do Seminário Internacional de Arte Estética e Cidade  “Práticas Descentralizadas” organizado por Viviana Bravo no Centro Cultural da Espanha em 2010. Nesta ocasião realizei um workshop de 4 dias  com a intenção de vivenciar a questão hídrica em Santiago e criar uma intervenção urbana a partir da experiência coletiva.

Nos debruçamos sobre o Rio Mapocho, rio caudaloso que cruza Santiago do Chile.  Após investigações, percursos e reflexões chegamos ao ponto que consideramos central para as grandes cidades: o contato. Fomos privados do contato com este recurso em sua condição natural e passamos a utiliza-lo de forma meramente utilitária, como se brotasse da torneira ou germinasse em garrafas de plástico. Não conhecemos seus cursos, suas fontes, não celebramos ou reverenciamos a água. Pouco a pouco nos afastamos dela e a esquecemos enquanto entidade viva. Durante um dos percursos ao longo do Rio Mapocho fomos surpreendidos por 3 meninas devidamente uniformizadas e encharcadas.

Estavam mergulhando no chafariz da praça. E gritavam “Al água pato!” expressão popular para atirar-se ou atirar alguém na água. Nos tocou a espontaneidade e alegria com que brincavam e se refrescavam aquelas meninas. E foi este ponto que nos motivou a criar algo que pudesse oferecer ao cidadão comum urbano um contato direto e sagrado com a água.

Verificamos durante o percurso a presença de muitos engraxates principalmente numa rua dedicada ao comércio de sapatos. Juntamos os pontos e criamos  uma intervenção que recebeu o nome de “Al água pata” que consistia num novo serviço ao cidadão chileno. Entrar em contato com água através dos pés. Desenvolvemos um logo e utilizando stencil montamos placas para partir ao espaço público e oferecer nossos serviços.

Experimentamos alguns pontos do centro da cidade mas o que melhor funcionou foi a rua dos sapatos para realizar a intervenção. Nos posicionamos entre os engraxates e muita gente se acercou querendo saber oque estava acontecendo e muitos para desfrutar do serviço.

Parar, tirar os sapatos, sentar e molhar os pés abriu um campo propício para o diálogo ou para a simples contemplação do momento e para o estabelecimento de uma relação sinestésica com a água em pleno centro urbano. Consideramos esta uma chave de acesso ao indivíduo e que deve ser cultivada para uma mudança de olhar e atitude em relação a água, a cidade e a própria vida.

Cada inserção no território, cada imersão em diferente contexto me traz muito mais dúvidas do que respostas. Revela contrastes e incoerências, verdades e realidades que muitas vezes  não se deixam sequer arranhar. No entanto não nos resta nada além do corpo. Do real mergulho e fé nesta jornada de manter-se desperto, atento e pronto para interagir e expandir este corpo para além das bordas.

Sigamos corporificando rios, canalizando mensagens d’água e conspirando novas celebrações, intervenções, denúncias e processos coletivos sobre a questão hídrica.  Enfrentando horizontes esquecidos de si, desertificados. Remando ao encontro de passos apressados e apatias, e imergindo numa escala sem tamanho ou profundidade mensuráveis. Mas com a memória límpida do frescor de águas puras e vontades coletivas de revive-las todas, num só corpo, Corpo D’água!

[1] Depoimento de Pedro Tipula durante seminário de Mapeamentos Sócio Culturais, Território e Diversidade. organizado pelo Centro cultural da Espanha  e instituto Polis em setembro 2009. Pedro trabalha no Instituto Bien Comúm, en Lima Peru.

[2] Soldadinho do Araripe, pássaro endêmico da Chapada do Araripe. Sua presença indica a existência de fontes de água uma vez que o pássaro se reproduz sobre a água, e é ao seu redor que se concentram os frutos dos quais depende para sobreviver. A relação íntima da ave com a águas torna esta espécie um símbolo para a conservação na natureza, promovendo o envolvimento da sociedade local na gestão e proteção dos recursos naturais tão vitais para todos. Encontra-se em extinção e é uma das seis espécies a contar com um  Plano de Ação Nacional para sua Conservação.

           

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