Corpo Rascunho

por Milena Durante

Estranho falar de corpo. Corpo. Mesmo a boca que se faz pra falar corpo é uma boca de corpo, uma boca que pressupõe suor, pele, cheiro, pintas, verrugas, textura, uma textura de pele de frango, cheia daquelas bolinhas, os poros saltados, os lugares de onde brotam as penas, cada uma peninha saindo de um lugar do corpo, um pelo. Corpo vem com tudo, com saliva, saliva não, corpo vem com cuspe, com guspe. Vem exatamente com aquilo a que se habitua chamar nojento, aquilo a que se habitua querer tirar, se habitua querer fingir que não há como se o corpo tivesse que ser alguma coisa. E vem existindo no meio de tudo, nasce já em relação ao que está em volta: outros corpos, a cidade, a impossibilidade de se caber na pele; não existe sozinho e nem é aquilo em que a cabeça não está.

Enquanto me sentei ao telefone soube exatamente o que era que tinha que escrever – era exatamente o que me incomodava enquanto eu sentava e esperava a moça que havia me ligado e não sabia o que dizer. Precisarei me sentar lá novamente e lembrar daquela aflição do texto que li. Tinha acabado de ler. Acontece é que toda vez tem uma coisa que me mostra exatamente o que é que eu tenho que escrever, mas a coisa que exatamente tenho que escrever, ela não existe. É disso que preciso me lembrar.

Do que hoje eu preciso agora é conseguir, com toda a força como ela aparece ingênua nesse pequeno texto dizer aquilo tudo que estava aqui e que tinha um tanto de verdade dela que era minha, não era grande, era só um pedaço da invisibilidade imensa, era uma pequena sensação de construção. Mas queríamos palavras fortes. Do que eu realmente precisava agora era desenhar um plano, desenhar um mapa, sim, um mapa sem medo dessa palavra, daquilo tudo que vivia tão enormemente no corpo com força de droga, com força de açúcar, força de café e violência e pulsava meu coração forte quase como quando tu gritava. Eu precisava lembrar que ela mesma já tinha criticado tudo, já tinha criticado quem se coloca como quem se coloca. Eu sei que ele também almoça e janta capitalismo come todos nós, que faz arte, nasce já em conflito e assim segue confrontando o que se espera, o que constrói dele na imaginação e o que ele de fato pode ser e o que ele de fato pode mudar.

Mas vocês vão depois embora? Precisamos deixá-las todas. Não temos essa responsabilidade. Podemos fazer o que quisermos, era um pouco óbvio, mas era isso e que “devia-se ter cuidado” e “devemos ter cuidado” redundava e redondeava na sala oca ricocheteando entre as paredes como se ali dentro ali houvesse algo que fosse de importância de dimensões hegemônicas e variáveis e na verdade eram só meia dúzia e o som de suas próprias vozes. E ter cuidado com o quê? As notas são muitas e para se chegar a outras recombinações que não sejam mais re, para que se possa criar os pequenos vírus, talvez seja necessário usar aquelas do canto de que se vem desdenhando, graves e agudas demais para a palatabilidade vigente. Que inventamos as coisas também não obedecemos àquilo. Essa mesma boca, esses mesmos corpos pressupõem o desenho que não era um falar sobre corpo mas uma criação. Sem negar palavras nem notas, sem cancela.

Corpos que se posicionam corpos no mundo enfrentando ou se esgueirando de suas questões, pulando por sobre elas se necessário mas não ignorando-as, enfrentando ou se esgueirando daquilo que é estar vivo, existir, buscando embates e possibilidades de criar situações de enfrentamento, de fricção, de poesia e de novo criação. Situações em que se deixam inscrever nesse corpo todas as experiências e então criar novamente a partir delas.

Esses vídeos saem e partem de corpos que se chocam e se jogam e se embatem com aquilo que os perfuram, encostam, arrastam, com aquilo que os faz dançar. Esses corpos têm a força de sê-los e desfazer deles em invenções de novos em busca de novas inscrições e escarificações, em busca de outro arrastão, mais um passo, outra dança, um novo buraco profundo que os atravessa de fora a fora e entorna e engole tudo que entra e outros mais superficiais ou de camadas mais absorventes.

O quê nesses vídeos me faz querer agrupá-los é sua intensidade de criação a partir dos desejos, incômodos e questões colocadas pelos próprios corpos que os fizeram. Mais do trabalhos que tratam especificamente do corpo, eles me parecem ser modos de encarar questões contemporâneas e transformá-las em comunicações daquilo que inventaram para lidar com essas questões.

São a forma como encontraram os corpos para encontrar outras formas de viver.  É como se fossem um corpo_rascunho, um estudo, uma experiência, uma invenção, uma tentativa, uma possibilidade ou combinações. Experimentações em torno das próprias possibilidades do nosso desejo e daquilo com que precisamos lidar. Aquilo para o qual não temos respostas, aquilo para o qual não há resposta e por isso sua própria impossibilidade como objeto, como declaração, como conceito estanque, como área do conhecimento.

https://youtu.be/EPAu0IDQJR0

https://youtu.be/IhLTaTxl2AE

https://youtu.be/h54yU-IoJYs

https://youtu.be/hMNQPtsINUw

https://youtu.be/-INsvC3kcvA

https://youtu.be/VUF5e-wCbTY

https://vimeo.com/13435996

https://youtu.be/EQm6FlOGaNA

https://youtu.be/kVpg38YjMYA

https://youtu.be/BffjX8I1h0s

https://youtu.be/Bvjg9xhdq3g

https://youtu.be/nFg3uNSoFc8

https://youtu.be/T39titvX8wQ

https://vimeo.com/4486629

https://youtu.be/WnRMbQQM2J0

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.