Arte, Corpo, Transformer

por Ricardo Ramalho

Quando encaramos o tema “corpo” na arte uma imagem forte que surge é a de artistas românticos que utilizam o sofrimento da carne, ou a exposição do corpo nú, ou semi-nu, como demonstração da fragilidade do ser humano, da dor-da-vida, o ser  enquanto animal, ou a noção do belo segundo a tradição grega. Quando veste-se o corpo, este como que desaparece, e a questão passa a ser outra, a condição humana, o ser social, o ser adestrado, a norma. Um grupo de corpos vestidos nos remete à idéia de tropa, corpo coletivo, criatura institucional, perda da individualidade. Um grupo de corpos nús remete ao bando, a cultural tribal, o condicionamento à natureza.

De que maneira podemos pensar o corpo e se distanciar das idéias de fragilidade da criatura solitária, e condicionamento do ser social? O transformer pode ser uma saída de impacto, em nome da criatividade, uma criatura que se modifica instantaneamente, de um carro, para um robô. O interessante dos transformers é que a princípio esta idéia não tem nada a ver com arte, não despertaria nenhum interesse, e seria até repelida, porque esta coisa é um produto comercial, um brinquedo. E por isto mesmo é tão oportuno, enquanto mais um exemplo de anti-arte, a arte precisa da anti-arte, desde os dadaistas. (Antes de continuar, é importante esquecer a recente franquia de filmes de Holywood Transformers, cujas criaturas são desproporcionais, irreais, e rebuscadas, o brinquedo original é muito mais simples e real: a criatura de fato se transforma noutra, nas mãos da criança). Em defesa dos carros-robôs podemos utilizar o legado da pop-arte, se uma caixa de sabão em pó é arte (Warhol), se aspiradores de pó são arte (Koons), então estamos diante de algo muito mais interessante. A pop-arte propõe que a arte está no cotidiano, vai além de Duchamp, porque não se trata de dar uma nova função ao objeto, mas de preservar sua função original. Não existe um estratagema conceitual na pop-art, é mágica pura, de uma hora para outra tudo o que nos rodeia é belo, e duplo.

Inventado em 1984 pela empresa norte-americana de brinquedos Hasbro, os Transformers são uma pérola do design multi-função, como um canivete suiço, que tem diversas utilidades e se esconde dentro de si mesmo, como um carro-anfíbio que é barco e carro, como um origami que transforma uma folha de papel em qualquer outra coisa inimaginável. Todo ser humano usa diferentes máscaras nas mais diversas situações, todo bom artista é ao mesmo tempo romântico e capitalista, (ou vendedor e ativista), todo bom curador é político e técnico, o colecionador é iniciado e leigo, o marchand é deslumbrado e estoquista. Todos tem múltiplas funções, day jobs, e brilham à noite.

A idéia de um veículo salvador, parece ser a idéia da arte desde sempre: “veja uma pintura e melhore a sua vida”, “entre na exposição e saia mais culto”, “leve arte ao povo e fature civilidade”. O assento ejetável, é poltrona e foguete, segura o corpo do piloto, e salva seu espírito, como se o avião fosse conduzido pelo corpo, e na emergência invertem-se os pápeis, a máquina-veículo conduz o corpo para terra firme. Quem tem a última palavra é a máquina: melhor estar dentro dela, do que fora. Existe algo de profundamente ambicioso nos transformers.
Não à toy-arte, que isto fique bem claro, porque toy-arte não é arte. Sim à arte inconformada, que nos leve para longe, que nos tire daqui, que nos transforme.

Ricardo Ramalho
Novembro 2011

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.