Relato participação EIA no Ecossistema Tropical 2.0

por Gisella Hiche/eia

Esse texto é um relato que foi originalmente feito para integrar o site do projeto Ecossistema Tropical 2.0, mas que por mudanças nos rumos do projeto, acabou engavetado. Considero que ele tem algumas faíscas que são comuns a outros coletivos e agentes que orbitam Na Borda e daí meu interesse em publicá-lo.

 

primeiramente fora temer

Relato participação EIA no Ecossistema Tropical 2.0

etapas: cidade de São Paulo (12.10 a 16.10) e Belém (02.11 a 06.11)

 

 

preparando o terreno

Certamente que fomos convidados a participar deste projeto mais por nossa história e afinidades políticas e estéticas do que por nossa atuação mais recente, dado que o EIA, como coletivo operante, esta bem rarefeito, com seus agentes espalhados em outras empreitadas existenciais e em cidades variadas pelo Brasil e às vezes pelo mundo.

 

Mas também é interessante notar que quando somos re-mobilizados, algo desse coletivo se reativa em nossos corpos. E o que podemos fazer a partir desta composição me parece de extrema importância- ainda que atue numa dimensão sutil e em micro-escala. Para além dos objetivos específicos listados no texto do projeto Ecossistema Tropical, o reencontro e cruzamento de coletivos político-artísticos Brasil afora, tendo a maioria mais de 15 anos de história,  é o que realmente enseja e define o que faremos juntos afinal.

 

território livre sobre a lama- etapa paulistana

No primeiro e segundo dia da etapa em São Paulo, a arena de encontro real ainda estava patinando, creio que esta patinação tem muito a ver com o fato de que o encontro dos coletivos não foi disparado por alguma urgência da cidade que nos fisgou em conjunto, mas pela proposta contida em um projeto com financiamento cujo objetivo não estava inicialmente incorporado nos agentes que foram convidados. Mas a liga entre essa forças coletivas existe e isso é uma sabedoria no conceito do projeto. Colocar esse povo junto dá no mínimo algum samba- acontece alguma coisa.

 

No primeiro dia de encontro, no Condomínio Cultural, Vila Anglo, fizemos apresentações dos coletivos e suas trajetórias, a Rosa apresentou os percursos dela, o Brait falou sobre o projeto. Mas ao final do segundo dia, quando resolvemos anotar em tarjetas as palavras-chave de nossas discussões e colocá-las sobre uma mesa, montamos efetivamente um caldeirão, em que todos podiam visualizar e depois traçar terrenos comuns para ação. As palavras que surgiram foram posteriormente ‘classificadas’ dentro dos eixos ‘urgências’, ‘territórios’, ‘locais de apoio’, ‘recursos/dispositivos’ (trabalhos e materiais dos coletivos que poderiam ser re-ativados). Desta cena, chegamos a uma decisão coletiva, que foi constituída de forma um tanto quanto tácita, em um curto espaço de tempo.

 

Acredito que o mais vivo ali foi o debate/análise sobre a atual conjuntura nacional e também municipal. O contexto presente de pós-golpe, com Temer na presidência, e Dória eleito para prefeitura do município de São Paulo, tem um peso importante nas urgências/desejos comuns que foram trazidos pelos coletivos no momento em que fizemos uma discussão sobre o que faríamos por aqueles dias. No plano mínimo elaborado, a urgência era a rua, o fato é que iríamos para rua. Este plano pegou carona em uma ação que já estava marcada para acontecer no mesmo sábado. Era uma proposta do coletivo Hub Livre que também participava do Ecossistema Tropical. Foi muito bom e potente contarmos com a presença deles, principalmente com a presença da Bela. O coletivo dela neste momento esta mais junto com os movimentos insurgentes, como as ocupações dos secundaristas, mas também das últimas ocupações artísticas, em espaços como a Funarte. Fez diferença termos ali no meio um corpo tomado inteiramente pelos fluxos revolucionários das ruas, pela intensidade constante. Algo semelhante ao que muitos de nós viveu na ocupação Prestes Maia. Energia de quem esta lá, sempre no risco de levar porrada da polícia, sempre em muitas discussões políticas, poesias, amores, festas, drogas e nenhum descanso. O Hub Livre estava engatilhado para fazer uma ação-registro de imagem e sons dos pixos sob o minhocão até o Largo Paissandú. A ação surgia como resposta a alguma declaração reacionária do Dória em relação aos pixadores e estava sendo (supostamente) mobilizada junto a eles. Apesar que eu não vi nenhum pixador colar com a gente. Fato é que já estava lançado um percurso, uma definição geográfica. E o que resolvemos fazer neste trajeto foi instalar um território livre, território livre sobre a lama (tóxica).

 

 

Em meio a um rápido e até mesmo ultrapassado diagnóstico de que a atual configuração sócio-política (com seu sistema de representação, organização estado-nação, persistência em um funcionamento que mantém e intensifica a exclusão social etc etc) esta mais do que saturada e, para além desta obsolescência institucional, ainda estamos em um cenário de ainda maior fechamento e retrocesso, acompanhamos nossos corpos-urgentes de imaginar e praticar, imaginar na prática, outros modos de vida em outros arranjos ético-políticos possíveis. Delírio operante. Passamos a lembrar de trabalhos, coletivos, experiências que de certa forma conversam com esse desejo que esta sempre ali, mas só parece viabilizar-se com mais corpos, com um certo desprendimento em relação ao ‘sucesso’ do plano. Na verdade, mais do que um plano é um ‘atuar’ possíveis, intensificar um território livre em nossos corpos, conectar e ressoar esse desejo.

 

Combinamos de um dia antes da ação, fazermos uma pesquisa-ação do ‘campo’. Para isso, na sexta feira, nos encontramos embaixo do Minhocão, esquina com Rua Tupi, já munidos de nossas ferramentas, na intenção de instalar ali mesmo no minhocão um ‘ateliê’, onde movidos por nossa presença-escuta no local, já pudéssemos produzir visualidades, esboços de performances, artefatos para interagir com as situações locais etc. Contávamos com 04 coletivos originários de São Paulo que tinham na própria cidade inúmeros dispositivos para uso em espaço público com as mais variadas finalidades. Bijari levou os enormes guarda-sóis/guarda-chuva que possuíam rodinhas e podiam ser facilmente levados de um lado para outro. Ocupeacidade levou stencils, carimbos, materiais para produzirmos faixas, cartazes, etc, Hub Livre levou uma bike adaptada com uma bancada e caixas de som que com a presença de um notebook e pequeno gerador conseguia fazer transmissões ao vivo, microfone aberto, poesia-sonora que remixavam ruídos urbanos do metrô, falas, propaganda, funk…

Ao mesmo tempo éramos pouquíssimos corpos, corpos rarefeitos, estávamos ali sondando- espreitando como seria possível afinal cruzar aquela realidade dura e miserável junto a um território livre. O Minhocão é essa veia fervente da cidade, trambolho arquitetônico, zero pensamento urbano  que dê lugar também às pessoa na cidade. A prioridade é o trânsito dos motorizados. O viaduto foi construído durante o regime militar em frente das janelas dos inúmeros prédios de apartamentos residenciais. É muito barulho, poluição, ônibus, bicicleta, gente, entregador, muito ser humano abandonado, largado, dormindo ali sobre colchões encaixado na ilha entre duas avenidas, tendo o viaduto como teto, com kits insuficientes de sobrevivência, acompanhados ou não de seus cães, fazendo eventualmente a guarda de suas carroças de coleta de lixo… . Nossa passagem por ali pode beirar o patético, um cortejo atípico, ou simplesmente um bando passando junto, algo um pouco raro, mas tão passageiro em meio a tantos acontecimentos urbanos, que logo some…

 

laboratório de afetos

Para este dia teste, o EIA levou sobre um carrinho de supermercado pequeno de dois andares o laboratório de afetos, cujo primeiro protótipo surgiu em 2012. No laboratório de afetos existem diversas ‘fórmulas’ em frascos borrifadores para lidar com questões contemporâneas. As fórmulas podem transformar, reduzir e potencializar afetos em circulação. Atualmente, a ação síntese do Laboratório de Afetos é: criar com as pessoas que se aproximam de nosso “mostruário” uma fórmula para si, misturando fórmulas já existentes e também com a possibilidade de inventar novas, que são anexadas a um ‘cardápio’ geral de fórmulas. De uma lista longa, de pelo menos 75 fórmulas, há algumas preferidas: o dilatador do tempo, o depurador de desejo, o conector de desejos, o aqui e agora, o diluidor de identidade e o amor-amor-amor.

 

Estavam Floriana, Vanessa e eu ativando o carrinho. Durante a maior parte do percurso, nosso ‘público’ eram as pessoa ali dos coletivos. Fazíamos uma fórmula específica para elas, mas costurávamos com a pergunta sobre qual era a fórmula para aquele dia, aquela ação, aquela coletividade que estava se juntando ali… E as indicações iam todas sendo misturadas em um vidro grande, de um litro, âmbar- E assim fomos caminhando até nos incomodarmos com o fato de que as pessoas que não estavam participando ali conosco pareciam quase uma paisagem, algo distante… E ali é um lugar que tem muita gente, vendedor de rua, comércio, saída de metrô, pedestres andando nas calçadas da Amaral Gurgel, nos pontos de ônibus sob o minhocão, ciclistas na ciclofaixa… Neste primeiro dia de ação-teste na rua, só fizemos parte do que foi o percurso no dia seguinte. Terminamos nosso encontro em uma espécie de largo bem no cruzamento da Angélica com a Amaral Gurgel. À certa altura, Floriana e eu resolvemos ir lá com nosso laboratório conversar com uma família que estava morando sob o viaduto. A Tininha já tinha ido lá dar um alô e contou que o senhor era pintor de barcos. A ligação dele com o mar me interessou. Fomos muito bem recebidas. A moça mais elétrica e faladeira, disse que quando nos viu primeiramente achou que fôssemos da secretaria da sáude, ou algo do gênero, e pensou em sair logo dali para “não levar injeção!”. Logo entendemos que ela e seu filho num carrinho de bebê não moravam ali, estavam ali para visitar o pai dela, a avó e o pai do menino que moravam ali embaixo. Com exceção do pai do menino, estavam todos sentados formando uma pequena roda. Eles logo deram um jeito de nos arranjar mais duas cadeiras para que nos sentássemos ali. Não nos fizeram muitas perguntas, mas as nossas poucas perguntas responderam muito, explicaram as circunstâncias da vida, como foram parar ali. Com exceção da avó que parecia estar em outro planeta, tivemos uma conversa intensa e eles quiseram fazer fórmulas para eles. Lembro que a moça escolheu o ‘propulsor de habilidades’ e o senhor escolheu o ‘concretizador de sonhos’. Quando a Floriana foi falar com a avó para ver se ela queria fazer uma fórmula, perguntou para senhora o que ela estava precisando; pergunta que foi a padrão naquele dia. A senhora então perguntou se podia dizer mesmo o que estava precisando: “- de fraldas”. Naquele caso extremo, de fato, nenhuma fórmula poderia fazer diferença ou mais diferença que um pacote de fraldas que entregamos à ela, conformando em alguma dimensão o pouquíssimo que somos. Neste dia, para mim, o encontro com esta família foi o mais importante. E fico feliz que exista o laboratório de afetos com esta vocação de se conectar com as pessoas, nos mais variados contextos. No dia seguinte, sábado, dia da ação ‘oficial’, percorremos o trajeto previamente estipulado, com direito a um ou outro desvio, se necessário. Entre nós, havia a alegria do reencontro, quase uma festa, mas caberia ali naquele cenário uma festa? Borrifamos geral com a fórmula ‘sai urucubaca’, escrevemos poesias e pensamentos de outro mundos em fitas de tecido, aplicamos alguns stencils, carregamos nossos dispositivos- parafernálias, tínhamos um microfone aberto e emitíamos sons, falas e ruídos da cidade, fazíamos registros. Estivemos e também passamos.

 

 

crônica de uma morte anunciada

Duas semanas depois da etapa paulistana, o Rede-Aparelho recebeu em Belém (PA) os coletivos EIA (SP), Bijari (SP), Grupo Empreza (DF) e Madeiristas (RO). O Ecossistema já havia passado por São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. A Vanessa do EIA também foi para lá. No primeiro dia, a roda de conversa aconteceu em Icoaraci, um distrito próximo da cidade de Belém, na casa de uma mulher chamada Rosilene. Era uma casa comprida, um pouco escura porque não tinha muitas janelas nas laterais. Nos fundos da casa, saindo da cozinha, tinha uma área aberta e coberta onde encontrei conhecidos e desconhecidos no fervor de discussões. De repente, levantamos a pergunta “- qual era a urgência?” As pessoas que nos receberam em Belém, em geral, estavam ligadas aos povos de terreiro e suas lutas, com os movimentos negros, com a cultura e comunicação popular. E desse caldo a urgência era mesmo emergencial e tratava-se dos assassinatos sistemáticos de jovens negros e também de 08 pais de santo nos últimos 10 meses. Quando esse tema apareceu, a convergência de que era esse o assunto do qual iríamos tratar foi clara e propulsora dos próximos passos. Decidimos produzir estandartes com os nomes dos Pais de Santo assassinados, a forma como o crime se deu, a data e o local. Passamos os próximos dias em produção intensiva para sairmos no sábado com os estandartes em pontos chave da cidade, com o objetivo bem claro de dar visibilidade a esses crimes e ao racismo religioso. Eu já havia visitado Belém antes, mas nunca havia sido recebida por pessoas que transitavam pelos terreiros e que pulsavam com esta cultura. Foi muito potente. Apesar de estarmos lidando com um tema pesado, herança ainda de um passado colonial que segue se reproduzindo em sua lógica racista, o encontro das pessoas e mesmo a ‘manufatura’ dos estandartes teve um clima festivo, animado, com muitos encontros, conversas, risadas, com muitos aprendizados sobre essa ‘ponta’ da Amazônia. Em uma das manhãs, sem nenhuma incumbência específica para o projeto saí sozinha para fazer o único passeio que fazia questão: perambular pelo mercado Ver o Peso e arredores. Saí a pé. Era tão perto do Casulo, centro cultural e residência, na cidade velha. Levei uma sacola de feira. Quase 40 graus. Cheiros em profusão, luzes entrando por frestas inesperadas, gritos, um e outro malandro, farinha de mandioca de todo os jeitos e tons e usos, muita castanha do pará Sucos de cupuaçu, bacuri, açaí, maracujá, Lojas que vendiam cascas de árvore, sementes, folhas, galhos para muitas dores, para acalmar, para concentração, e incontáveis afrodisíacos. Tudo interessante e necessário. Comprei um grande maço de plantas frescas para preparar um banho de cheiro coletivo. Arrumei uma bacia de plástico azul clara enorme e levei para o Casulo. Em intervalos e tempos cavados, me detive nesta tarefa de preparar o banho, macerar as folhas, sentir os cheiros se misturando, oferecer para as pessoas, eventualmente engarrafar o banho para que fosse usado em outro lugar. Achei bom que as pessoas de Belém não fazem a menor cerimônia para tomar banhos em outras casas que não a delas. E assim que muitos tomaram banho de cheiro ali mesmo. A cuia saía cheia da bacia instalada em uma pequena área-de-serviço-terraço e voltava vazia do chuveiro. Na primeira noite, já no casulo, conseguimos ainda fazer uma roda de auto-massagem. Mas foram raros os momentos de descanso e cuidados coletivos, pois para confeccionar os estandartes eram necessárias muitas etapas, que foram fluidamente assumidas pelas pessoas que estavam ali participando. Um trabalho que envolveu pesquisa em sites e jornais sobre os pais de santo, articulações e convite para terreiros e movimentos que quisessem chegar junto, design dos estandartes, projeção dessa arte nos tecidos para que contornássemos e depois pintássemos, costura à máquina dos estandartes, costura à mão das franjas… E no meio disso, os almoços para muitos, os deslocamentos. No dia em que finalmente saímos às ruas com os estandartes, éramos poucos, mas chegávamos junto com um áudio emanado das grandes caixas de som adaptados em uma bike. Falava alto e vividamente das caixas de som uma mãe de santo, contando das perseguições, dos movimentos de resistência, das forças. Aquele áudio funcionava como uma borda a nos dar mais corpo, mais presença e contexto. Senti que aquela saída era apenas um teste. Sua maior participação será nas manifestações do Dia da Consciência Negra. No sábado depois da saída com os estandartes, fomos todos almoçar do lado de lá do rio. Foi uma tarde bonita de encerramento cantando e olhando a água e a floresta.

 

 

 

Gisella Hiche/eia

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